legado de petro

Eleições na Colômbia: o que está em jogo é um projeto de país à esquerda

Analistas avaliam como reformas realizadas por Petro fazem com que candidatura de Iván Cepeda venha com força

Presidente Gustavo Petro sanciona lei da Jurisdição Agrária em cerimônia em Cereté, no departamento de Córdoba
Presidente Gustavo Petro sanciona lei da Jurisdição Agrária em cerimônia em Cereté, no departamento de Córdoba | Crédito: Presidência da Colômbia

A Colômbia entra na reta decisiva das eleições presidenciais tendo como favorito o candidato da esquerda do partido Pacto Histórico, Iván Cepeda, apoiado pelo atual presidente Gustavo Petro. O cenário se desenhou mesmo sob forte pressão dos Estados Unidos, uma escalada de violência política e disputas intensas entre setores conservadores e progressistas. Os principais adversários de Cepeda são Abelardo de la Espriella e Paloma Valência.

O país tem histórico de uma sucessão de governos conservadores e está chegando ao fim do primeiro governo progressista, comandado por Gustavo Petro, que realizou transformações importantes na área de política externa, fortalecimento da soberania, direitos humanos e integração latino-americana, com especial aproximação aos governos do México e do Brasil.

Neste episódio de O Estrangeiro, os jornalistas Lucas Estanislau e Rodrigo Durão recebem o analista geopolítico Miguel Stédile e o correspondente na Colômbia Leonardo Wexell Severo, jornalista da Agência ComunicaSul, para analisar a disputa presidencial, o legado deixado por Petro e as chances da direita colombiana.

Miguel Stédile avalia que a Colômbia tem um cenário extremamente adverso, com um histórico de violência, narcotráfico, corrupção, ingerência estadunidense e desigualdades sociais. “Quem é que foi ocupando um espaço que talvez a Venezuela estivesse ocupando por um período, e aí, dado o isolamento que Maduro e a Venezuela sofreram, ficou, digamos assim, um flanco aberto pela esquerda? A Cláudia Sheinbaum tem ocupado muito bem pelo México, mas aqui, em termos de América do Sul, eu acho que o Petro ocupou bem esse espaço”, pontua o analista.

Segundo Stédile, Petro teve sucesso “porque não abandonou as suas origens, as suas raízes, porque continuou jogando com o movimento popular e dialogando com as organizações”.

“Foi um governo que sabia do tempo limitado que ele tinha e das oportunidades, e que foi comprando as brigas, porque talvez não tivesse outra oportunidade de comprar essas brigas. E nos momentos em que essa correlação estava desfavorável, em especial, eu sempre lembro a discussão da reforma trabalhista que acabou com uma demanda reprimida de anos, de décadas na Colômbia, de reconhecimento de profissões tipo empregada doméstica, trabalhador de aplicativo, avançou em direitos das mulheres, tudo isso numa tacada só, numa única lei, que ficou aí em disputas com o Congresso durante um ano, um ano e meio, e o Petro usou o 1º de maio para mobilizar a população para isso”, avalia.

Diretamente de Bogotá, Leonardo Wexell Severo conta que a semana foi marcada por mobilizações em defesa da reforma agrária, segundo ele, “um ponto nevrálgico” do governo atual, que “assumiu esse compromisso com a justiça agrária e tem sido chave no combate à violência no campo”.

“A direita tem um modus operandi, faz atentados, mata muita gente, transforma isso num clima de guerra, numa insegurança que questiona os acordos de paz defendidos pelo presidente Petro e pelo candidato Iván Cepeda, questiona a candidata à vice-presidenta. É um roteiro ensaiado para tentar jogar para a população um clima que não existe”, relata.

Stédile pondera que, como a reeleição na Colômbia não é constitucionalmente possível, a eleição do próximo domingo pode ser encarada como um plebiscito do governo de Gustavo Petro. “Obviamente, não da pessoa do Gustavo Petro, mas do projeto que ele representa, de tudo que simboliza. No fundo, o que está em discussão é a continuidade desse projeto que se iniciou, com o Petro ou não. Agora, a vitória do Petro já tinha sido com uma margem significativa, inquestionável, etc. Mas já tinha sido uma eleição bastante difícil, como têm sido todas as eleições na Colômbia, inclusive aquelas vencidas por candidatos de direita, por todo esse contexto complexo que é a política colombiana há quase 100 anos. Não tem vitória simples na Colômbia”, avalia.

Contudo, ele aponta para uma “fragmentação no campo da direita e extrema direita”. “Na verdade, elas estão pulverizadas em várias candidaturas, não apenas nas duas mais importantes que vocês citaram, e existe uma possibilidade matemática, ainda que muito difícil. Eu diria que não é o cenário mais provável de uma vitória no primeiro turno, é claro que, para a esquerda, seria sensacional, porque seria não apenas a vitória eleitoral, mas uma vitória política muito maior. Quer dizer, você poder fechar isso no primeiro turno. É como se a gente pensasse nesse cenário nas eleições de outubro aqui no Brasil. Se o Lula vencesse no primeiro turno, que é um cenário cada vez mais distante, simbolizaria, daria muita força para o segundo mandato, no caso tanto do Lula quanto desse projeto da Colômbia”, afirma Stédile.

Confira o programa completo abaixo:

Para ouvir e assistir

O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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