Educação

Professores são alvo de perseguição após lançamento de livro sobre Lula na UFABC

Três professores respondem a uma Comissão de Sindicância Investigativa com base em uma denúncia anônima

Campus de São Bernardo do Campo da Universidade Federal do ABC
Campus de São Bernardo do Campo da Universidade Federal do ABC | Crédito: Divulgação UFABC

Os professores Valter Pomar, Gilberto Maringoni e Giorgio Romano que lecionam na Universidade Federal do ABC (UFABC), passam por uma Comissão de Sindicância Investigativa com base em denúncia anônima. O episódio envolve o lançamento do livro "A Verdade Vencerá: o povo sabe porque me condenam", que contém uma longa entrevista com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O evento aconteceu no dia 18 de abril deste ano, no campus da universidade, em São Bernardo do Campo.

A denúncia foi feita à Controladoria-Geral da União e transferida para a Corregedoria da universidade. Os professores receberam em seus e-mails pessoais uma série de perguntas sobre o ocorrido, dentre elas: "durante o evento houve apologia ao crime?" e "Durante o evento ocorreram manifestações de desapreço e contra o presidente Temer e integrantes do poder judiciário-MP?". 

Para muitos docentes o caso constitui censura, já que o simples lançamento de um livro não gera necessidade de abertura de um processo de conduta. Além disso, o fato fere o espaço de debate e de livre expressão da universidade. 

De acordo com o professor Gilberto Maringoni, "nós não estamos sendo perseguidos pela universidade, mas por um instrumento que fere justamente a autonomia universitária. Isso é muito grave, porque a universidade, como outros órgãos de serviço público, mas a universidade em especial é um local de reflexão, de debate do contraditório, do choque de idéias. Se não puder haver idéias contraditórias, não há motivo de existir uma universidade." 

A presidenta da Associação dos Docentes da UFABC, Maria Caramez Carlotto, também se posiciona sobre o caso, e alega que, nos últimos dois anos, é notável o aumento de denúncias anônimas sobre diversos tipos de atividades no campus. 

“Acho que o que tem que ser problematizado é primeiro esse denuncismo que vem no bojo de uma cultura da judicialização dos conflitos, de criminalização da política e das atividades acadêmicas. E por outro lado, tem que se discutir as regras para o aceite dessas denúncias, as universidades, a bem da verdade, não estão muito preparadas para isso, porque isso é um fenômeno novo, esse denuncismo todo. Então nesse processo a gente está aprendendo também. O que a Associação Docente quer é que a gente aproveite esse episódio para gerar regras mais rígidas em como aceitar essas denúncias e como proceder com essas sindicâncias”. 

O Brasil de Fato entrou em contato com a assessoria da Corregedoria da Universidade Federal do ABC solicitando o posicionamento da instituição.

Em nota, a reitoria diz que acompanha dos desdobramentos da denúncia feita à corregedoria. Segundo a universidade, o processo está em "estágio prévio" para definir se a denúncia será ou não aceita.

Além disso, a instituição afirma que "reitera seus esforços para garantir que a Universidade se mantenha como local de amplo debate e de respeito à diversidade de ideias e de posicionamentos".

Editado por: Juca Guimaraes

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