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Artigo | Qual é o Brasil do General Mourão?

Vice de Bolsonaro propõe uma Constituição “enxuta”, que deixe quase tudo para as negociações privadas

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General Mourão durante palestra para investidores na sede do BTG Pactual
General Mourão durante palestra para investidores na sede do BTG Pactual | Crédito: BTG Pactual Digital

Em princípio, nada contra militar da reserva ser candidato à vice-presidente do Brasil. 

Só que o general Hamilton Mourão (PRTB) associou, mais de uma vez, negro a preguiçoso e índio a malandro. Isto é racismo, o que, além de inconstitucional, leva à pergunta: caso eleito, qual a identificação de seu governo com o Brasil, um país de população majoritariamente preta e parda? Representará a nação ou uma minoria desta?

Infelizmente suas ideias expressam o velho preconceito antipopular dos que mandavam em um dos últimos países a abolir a escravidão. Basta mencionar que o jornal O Estado de S. Paulo, representante da velha oligarquia paulista, chamava a população negra de “toxina africana”.

O general propõe uma Constituição “enxuta”, que deixe quase tudo para as negociações privadas, ao sabor do “livre mercado”. Mas em qual país este mercado favorece as maiorias? A defesa da Amazônia ficará no genérico ou será prioridade constitucional? Em nome do livre mercado, a Embraer ficará com a Boeing? A indústria naval permanecerá demolida? Os trabalhadores em situação ainda mais precária? E o pré-sal, general? 

O petróleo será exportado bruto para ser refinado fora e a gasolina e o diesel comprados de volta a preços do “mercado”, subindo todos os dias, quando poderia ser processado aqui dentro, por refinarias da Petrobras que estão com capacidade ociosa? 

Aliás, o candidato elogia muito Roberto Campos, que, de tão entreguista e obcecado pela ideia de destruir a Petrobras, era chamado de Bob Fields. O “grande intelectual” foi demitido por Juscelino Kubitschek quando este rompeu relações com o FMI (Fundo Monetário Internacional), em 1959 e voltou a dirigir a economia brasileira quando foi implantada a ditadura militar. Sua política foi antipopular e antinacional. Que obra do Roberto Campos o general sugere? Por que não cita, ao menos, Celso Furtado?

Agora o general Mourão vem com esta ideia de uma constituinte de “notáveis”. Quem formula as propostas, determina as respostas. Quais seriam os notáveis que preparariam esta constituição prato feito? Alguém com o perfil do falecido torturador Brilhante Ustra, herói do candidato? Um dos justiceiros de Curitiba? Lula, que está preso sem provas e é o preferido em todas as pesquisas de opinião? Ou Aécio Neves, que acaba de ser liberado pelos “notáveis” do Judiciário? Dirigentes da luta popular ou o pessoal da grande finança, que tende a apoiar a chapa do general? Magno Malta ou Dilma Rousseff? Levy Fidelix ou alguém com perfil da saudosa Marielle Franco? 

Além das inúmeras espoliações que já sofre e contra as quais luta, o povo brasileiro não merece mais esta expropriação política.

* Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida é professor do departamento de política da PUC-SP

Editado por: Daniela Stefano

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