Economia

Proposta de Bolsonaro para estados endividados ignora problema tributário

Para especialistas, arrocho e cortes não resolvem a situação de unidades federativas em calamidade financeira

Crise econômica dos estados tem origem no enfraquecimento da receita com impostos
Crise econômica dos estados tem origem no enfraquecimento da receita com impostos | Crédito: Alan Santos/Planalto

A situação fiscal de diversos estados brasileiros é grave, por conta da queda da arrecadação de tributos e a baixa taxa de crescimento. Nos últimos meses, sete unidades da federação decretaram calamidade financeira, assumindo que não têm condições de cumprir com as despesas fixas básicas. São elas: Rio Grande do Sul, desde 22 de novembro de 2016; Minas Gerais, desde 5 de dezembro de 2018; Rio de Janeiro, desde 28 de dezembro de 2018; Rio Grande do Norte e Roraima, desde 02 de janeiro de 2019; Mato Grosso, desde 17 de janeiro de 2019 e Goiás, desde 21 de janeiro de 19.

Durante a vigência do estado de calamidade financeira, que precisa ser aprovado na assembleia legislativa, o governador pode negociar mais prazos, atrasar pagamentos de dívidas e suspender gastos, sem ser implicado na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

No entanto, em troca de ajuda, a equipe econômica do governo Jair Bolsonaro (PSL) impõe a aplicação de uma agenda de restrições com privatização de empresas públicas estaduais, cortes de programas sociais e demissão de funcionários públicos.

“Essa é uma não-solução. A solução vem quando cresce a arrecadação. Em alguns estados do Norte e Nordeste, o peso do fundo de participação dos estados, que é composto pelo imposto de renda e o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), tem um peso na arrecadação, mas no geral do país, o ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços) é o principal imposto. Ele está perdendo peso, sistematicamente. Essa perda se deve a esse processo de guerra fiscal que acompanha os estados há mais de um década. Os governos deram uma série de benesses às empresas que bate direto na arrecadação”, disse o economista Francisco Luiz Lopreato, professor do Instituto de Economia da Unicamp e autor do livro ‘Colapso das Finanças Estaduais e a Crise da Federação’.

A ideia desastrosa da equipe econômica do Bolsonaro para a falência dos estados, segundo o professor Lopreato, repete a fórmula de Fernando Henrique Cardoso (FHC), usada em 1997, com um conjunto de reformas e privatizações. Porém, naquela época, a crise dos estados tinha origem no longo período de inflação descontrolada e não, como hoje, na falta de crescimento.

“Muitos estados já fizeram cortes draconianos em despesas, pessoal e investimentos, entre 2015 e 2016”, disse Lopreato, para justificar a ineficiência de mais ajustes e privatizações.

Para o economista Guilherme Mello, a distribuição dos tributos nos últimos 30 anos agravou a crise financeira dos estados. 

“Existe um problema estrutural do desenho. Desde a Constituição de 1988, a parcela de impostos arrecadados pelos estados vem caindo, quem arrecada um pouco são municípios e o governo federal. Até porque o aumento da carga tributária neste período foi muito concentrado em contribuições que não entram no bolo que é dividido entre estados e municípios. Nos governos do FHC, teve um enorme aumento de tributos. Para piorar, com a desindustrialização, caiu a arrecadação do ICMS que é o principal imposto estadual”, disse Mello, professor do Instituto de Economia da Unicamp.

A queda na receita também influencia o poder político dos governadores, cada vez mais dependentes do governo federal.

Forçar a reforma da previdência no funcionalismo, diminuindo as despesas com aposentadorias e pensões, não vai livrar os estados de problemas financeiros no futuro próximo, argumenta Mello. “Se não mexer na estrutura, recuperar a arrecadação, reformar o ICMS, [não vai resolver]. Mas aí vai ter que criar um IVA (Imposto sobre Valor Aprovado), e isso envolve discutir com quem fica com tal imposto, porque o IVA é a junção do ICMS com outros impostos, alguns municipais e outros federais, então vai ter que mexer no desenho federativo de uma maneira mais profunda”, concluiu o economista.

Editado por: Mauro Ramos

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