Resistência

Artigo | O primeiro assentamento popular do RN

Acampamento Maria Aparecida, autodeclarado “assentamento popular”, resiste após novos riscos de expulsão

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Das 104 famílias presentes no início da ocupação, somente 32 permanecem ali
Das 104 famílias presentes no início da ocupação, somente 32 permanecem ali | Crédito: Luisa Medeiros

Em agosto visitei o assentamento Maria Aparecida, o primeiro assentamento popular do RN. A política de reforma agrária está parada e sem possibilidade de avanço sob o governo atual, o que provocou ações de autoafirmação como assentamento pela parte do MST. Assim, as pessoas do acampamento Maria Aparecida se autodeclararam “assentamento popular” e seguem gerindo o projeto com as próprias forças. 
Conversei com agricultores que estão ali desde o início da ocupação, nove anos atrás. Expulsos duas vezes daquela terra, atualmente correm o risco de serem expulsos novamente. Essas pessoas travam uma luta diária pelo direito à terra e ao trabalho, enquanto vivem em condições muito difíceis. As casas de taipa não tem eletricidade e a água vem de poços artesanais. Das 104 famílias presentes no início da ocupação, somente 32 permanecem ali. 
O assentamento produz uma variedade de alimentos agroecológicos, sem veneno. Ali também se pratica a agrofloresta. Além de alimentar as famílias, os frutos da terra são vendidos na “Bodega do campo”, que fica dentro do assentamento, e na feira de São Miguel do Gostoso. Em breve a produção também estará disponível na feira mensal da reforma agrária em Natal e no Cecafes (ao lado da Ceasa).
O que mais me emocionou durante a visita foi ter assistido à uma aula de alfabetização de adultos. Doze alunos, o mais velho com 69 anos, se reúnem de segunda à sexta na igreja do assentamento, acompanhados por uma alfabetizadora e um técnico agrário, que também é morador do assentamento. Nunca tinha visto adultos aprendendo a ler e por estar num contexto de luta e de resistência, fiquei ainda mais tocada.
Num momento em que a Amazônia é queimada pra virar pasto, a monocultura de commodities voltada pra exportação ocupa a maior parte do nosso campo, o governo libera agrotóxicos numa velocidade assustadora e a fome volta a crescer no país, a experiência do Assentamento Nossa Senhora tem muito a nos ensinar. Não só é possível plantar sem veneno e sem destruir a floresta como isso é já é feito há anos em vários assentamentos no nosso estado, assim como em vários outros lugares no Brasil. Nossa missão agora é fortalecer quem nos alimenta, quem planta comida sem veneno e preserva o solo, a água e a floresta, pois nossa sobrevivência depende dessas pessoas.
*Sandra Guimarães é uma escritora potiguar, militante anti-opressão e cozinheira vegana.
 

Editado por: Isadora Morena

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