Lançado recentemente pelo selo Cantores del Mundo e disponível nas plataformas digitais, “Crenças e Tramas” é o primeiro álbum de Tiago Rosas. Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o compositor fluminense comenta sobre o processo de criação do disco, a quarentena e seus interesses musicais.
Brasil de Fato: Como surge este trabalho de estreia?
Tiago Rosas: Esse disco nasce de uma urgência grande em dar o pontapé inicial numa carreira artística e ao mesmo tempo, por trás dele, tem uma interrogação sobre a voz que canta e conta sobre a vida, como se ela mesma se colocasse em prova, e se perguntasse, “o que vou falar agora, afinal o que eu tenho para dizer?”.
Sinto que essa pergunta vem em grande parte da minha estrada pessoal fazendo canção, dando aula, ter me relacionado com música a vida inteira e nunca ter reunido meu trabalho num disco antes.
Os anos passaram e eu percebi que já estava mais do que na hora de lançar um trabalho meu.
Dividi esta ideia com Hugo Noguchi (baixista) e Lucas Fixel (baterista), e recebi deles todo apoio. Assim como Arthus Fochi, que dirige junto com Guilherme Marques o Selo Cantores del Mundo, também topou a parceria. Fiz uma campanha de financiamento coletivo, e paralelamente a isso eu criava as canções, que lentamente eram arranjadas coletivamente nos ensaios. Júlio Stotz, Isabel Veiga e Fábio Batista também se engajaram na empreitada e dirigiram videoclipes, sendo a Bel quem criou a arte visual do projeto.
As composições do disco são atravessadas por referências à vida cotidiana. O que te conduziu a isto? Por que “crenças e tramas”?
Depois que me interroguei sobre o que dizer, decidi escapar de alguns discursos prontos que me rondavam na época, acho que principalmente por conta de todo o contexto político de retrocessos no país nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, me dei conta de que estava mergulhado numa transformação recente da minha vida, a vida em família, com todas suas alegrias, urgências e dramas.
Pensei que seria interessante inventar uma narrativa ao mesmo tempo corriqueira e grandiosa a partir daí, isso seria mais potente dentro dessa angústia política e social.
No início falava “crenças e tramas” provisoriamente, quase de brincadeira em referência a essa postura de crença que marca nosso discurso para o que está ao redor, e a essas relações que vão além do nosso controle. Aos poucos fui gostando da sonoridade e das sugestões que vinham a partir dessas palavras. Ficou.
O lançamento do álbum ocorreu já durante a pandemia…
Sim. Lançamos em abril deste ano tão estranho. Pouco antes da pandemia fizemos um show de pré-lançamento no Centro da Música Carioca. Considero isso uma sorte, pois tivemos pelo menos uma experiência de palco com este trabalho.
Desde então, o grande desafio tem sido fazer o disco andar somente pelos veículos da internet. Como este é meu primeiro trabalho, tudo está sendo muito novo para mim.
Em suas redes sociais você tem apresentado canções que são fruto de sua parceria recente com o compositor Romulo Fróes. Como surgiu e como tem sido essa parceria?
Essa parceria foi fruto do disco, na verdade, o melhor fruto que ele me deu até agora. Poucas semanas após lançar, mandei para alguns artistas que admiro. O Romulo era um deles. Ele gostou do disco, chegou a divulgar nas redes e falar sobre. Assim de cara ele perguntou se tinha alguma melodia dando sopa.
Eu fiquei muito entusiasmado, mandei uma melodia antiga e no dia seguinte ele devolveu uma letra que dialogava de um jeito interessante com a quarentena. Adorei. Seguimos fazendo assim, eu mando as melodias e ele coloca as letras. Já compusemos 11 até aqui.
Alguns artistas da cena atual da música brasileira que você gostaria de indicar…
Acompanho de perto e admiro o trabalho de Claos Mózi (que está prestes a lançar seu primeiro disco, tem canções sedutoras com letras atentas e inteligentes), Mi Kaev (com alguns singles lançados, explorando batidas pops e timbres para criar uma atmosfera muito singular, um mergulho criativo) e Mateus Moura (lançou ano passado seu primeiro EP, “Com Licença”, entre muitas misturas, liga com criatividade a canção à tradição do carimbó).
Para ouvir: “Crenças e Tramas”
Para assistir: Clipe de “Além do azul”