É preciso prestar contas à realidade. Mesmo sendo uma só, cada ator político a descreve do seu ponto de observação e de acordo com os objetivos que estabeleceu para si a priori.
Este pressuposto geral da análise política cria dois problemas centrais: a localização do ponto de observação e a qualidade do objetivo estabelecido. Estes dois problemas podem, de fato, ser compreendidos separadamente, no entanto, geralmente estão conjugados.
A posição política de um partido ou corrente política pode ser encarcerada a um círculo vicioso no qual a má localização na conjuntura gera objetivos de baixa qualidade, e estes, por sinal, reproduzem de maneira ampliada a localização inadequada.
Este foi um aspecto discutido por Marx quando atribuíram, em tom crítico, um caráter pequeno-burguês a algumas correntes do movimento socialista e operário.
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A crítica à verborragia radical (marcadamente da I Internacional Socialista) e ao reformismo (da II Internacional), somada a uma base de interpretação que tem na realidade material e concreta das massas seu ponto de apoio principal é que garante o lugar próprio do socialismo científico na história.
Estas são as bases da revolução teórica do marxismo e das revoluções sociais que ganharam forma no século XX.
Em que estes pressupostos nos ajudam a compreender a conjuntura atual brasileira?
Vejamos algumas questões que me parecem fundamentais. A má localização do ponto de observação cria uma leitura deturpada sobre os acontecimentos. Para acertar o alvo não basta precisão, é preciso estar na posição adequada. No caso da Lava-Jato e do golpe de 2016, uma fração não desprezível das organizações de esquerda erraram um alvo do tamanho de um elefante.
Posicionadas no pântano da ideologia pequeno-burguesa, cuja cepa brasileira é o “udenismo”, não conseguiram compreender a mão visível e reluzente do imperialismo movendo as peças: procuradores, juízes, corporações midiáticas, Polícia Federal e congressistas.
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Hoje, quando a farsa está desmascarada e suas consequências desastrosas para o país são conhecidas e sentidas amplamente, resta o silêncio dos atiradores de festim. A localização “udenista” produziu um repertório de objetivos estruturados no antipetismo, que contaminou os extremos do espectro político da direita à esquerda.
A localização isolada do cotidiano nas massas populares obstruiu a capacidade cognitiva destas correntes políticas que colaboraram com os que, sob a bandeira do combate à corrupção, pretendiam subjugar o povo e liquidar o país. A esquerda udenista fez frente única na prática com a extrema direita, e o resultado está aí.
O que aprendemos com tudo isso?
Alguns, muito pouco ou nada. Mais uma vez, o paquiderme fascista ameaça e alguns fazem pontaria na direção contrária. O momento é de frente única contra o inimigo principal, Bolsonaro, e ainda sua base política, social e econômica (políticas, empresas, milícias, etc.).
Isso implica em coesão na luta social em 2021 e unidade na disputa eleitoral em 2022. A palavra de ordem "Fora, Bolsonaro" não pode ser “a montanha que pariu um rato”, deve ser a expressão de uma campanha de cerco e aniquilamento ao fascismo. Retirar-lhe tudo, até a vontade de continuar lutando; isso não se faz sozinho.
Sobre o programa
O caráter do programa eleitoral popular em 2022 será o de reconstrução nacional, ao modo de um pós-guerra, para recuperar empregos, direitos, patrimônio público, dignidade, saúde, segurança alimentar, etc.
Alguns acreditam que isso significa rebaixar o programa da esquerda, eu tenho certeza que significa trazê-lo para a realidade, ajustando-o ao horizonte de aspirações das grandes maiorias, que é condição de viabilidade do mesmo. Fora isso é pura e cega demarcação.
Sobre a autoconstrução partidária
“Um partido precisa de candidatura própria para existir eleitoralmente”, este é o argumento “pragmático” de alguns. A autoconstrução partidária é outro tema que geralmente é mobilizado para justificar a divisão das esquerdas em 2022. Neste ponto há algo a mais a ser comentado.
Existe uma questão de hierarquia de prioridades, que se acentua neste momento, o que está em jogo é muito mais do que o fortalecimento eleitoral de partidos, é a vida e a dignidade do povo e soberania nacional. Porém qual será o espaço eleitoral real de candidaturas de esquerda fora de um arranjo de unidade?
A candidatura própria não parece ser a única forma de garantir viabilidade para as candidaturas proporcionais, se fosse assim, partidos como o PSTU e PCB já teriam conquistado algum sucesso com seus candidatos a deputados federais, o que não se verificou.
Mais uma vez retomamos a questão, a localização do ponto de observação e a ação do ator influencia na qualidade de seus objetivos e na viabilidade de sua estratégia. Se a candidatura própria ao executivo é a única forma de conquistar base parlamentar, existe algo errado na estratégia.
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Uma estratégia que não está aberta para alianças e propostas de unidade está fadada ao fracasso, mais cedo ou mais tarde. Mas até mesmo na dimensão de análise ainda mais específica, o argumento da autoconstrução está de cabeça para baixo.
A regra de ouro de organizações revolucionárias é agrupar em seu interior e na sua base de apoio membros da classe trabalhadora. Ao assumir uma postura isolacionista em relação à unidade das esquerdas, implica em estar fora do curso político que a massa avançada pode trilhar no próximo período. Essa postura ajudará na conquista dos corações e mentes dos trabalhadores?
Com a fragmentação e o isolamento, as correntes mobilizarão frações atrasadas da pequena-burguesia que, movidas pelo antipetismo, darão um contorno também pequeno-burguês e sectário às próprias correntes; seja no recrutamento de militantes com características antipolíticas e udenistas, mesmo que dotados de uma retórica socialista; seja por consolidar um nicho eleitoral que tem no PT seu inimigo principal.
Uma base eleitoral que aprisiona o partido ou corrente em uma posição sectária, e premia lideranças e candidaturas com o mesmo perfil. Este é um tipo de autoconstrução que está em contradição com o objetivo imediato, que é derrotar Bolsonaro, e com o objetivo estratégico de construir uma alternativa soberana, popular e socialista para o país.
Sobre um apoio ao PT somente no 2º turno
“Basta o apoio ao Lula no segundo turno”, dizem os contrários à unidade. Este é um argumento que poderia ser válido em outra conjuntura, mas não nesta. Não está certo evidentemente, mas é provável que Lula, se for candidato, irá para o segundo turno em 22.
Porém, não podemos admitir uma polegada de um risco que podemos evitar. O fascismo não apenas deve ser derrotado eleitoralmente, deve ser aniquilado social e ideologicamente; não se trata de um adversário dentro do escopo de uma sociedade pluralista, mas um inimigo da mesma.
Sendo assim, não basta uma derrota eleitoral, é necessária ainda uma derrota política, social e ética sobre o bolsonarismo, não apenas retirando Bolsonaro da presidência, mas diminuindo sua base parlamentar e entre governadores.
O ato de apoiar Bolsonaro deve se converter em um mau negócio para a direita, e isso só se conquista com um amplo movimento-força unitário da oposição. Caso contrário, mesmo derrotado eleitoralmente, terá força social, em especial junto a setores atrasados das massas, forças de segurança e empresariado para contestar o resultado eleitoral, e abrir uma situação de instabilidade que venha a comprometer de maneira grave um governo democrático.
Os adeptos da tese de candidaturas próprias, fora do escopo da unidade das esquerdas, certamente, não enxergam isso, ao fim e ao cabo, são mais eleitoralistas do que imaginam ser.
Sobre os erros do PT
“E os erros do PT, onde ficam?” Este é um argumento caro a quem é contra uma aliança da esquerda em 2022. Isso porque se julgam a mais “pura” expressão da política, os que não erram, e nem se misturam com pecadores. Algo típico da visão “udenista”.
Se atribuem um padrão moral que de fato não possuem, e na maioria das vezes escondem seus erros por detrás da “justa utopia” que os redime sempre, em tudo. Mas de fato, o que se deve conquistar de mais avançado na unidade de esquerda está condicionado à mobilização popular que garanta a inclusão do povo no processo político.
Um possível governo sobre a liderança do PT poderá superar seus erros e limites na justa medida que seja pressionado a fazê-lo pelo movimento amplo da sociedade. Este movimento não pode ser produzido por governos, apesar que estes sim podem contribuir, mas depende do protagonismo das organizações e movimentos populares.
Neste caso, a esquerda terá de escolher entre mobilizar o povo para avançar numa agenda política que supere os erros e limites de um possível governo democrático; ou continuar nas cordas, restrita a uma luta defensiva, na qual estamos travando nos últimos anos, e provou ser o pior cenário para a vida do povo e os interesses do país.
*Pedro Otoni é Cientista Polítifco.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.