DIA DO PESCADOR

Especulação imobiliária, pesca predatória: comunidades pesqueiras estão sob ameaça

Documento da Pastoral da Pesca traz dados de 434 conflitos vivenciados por comunidades pesqueiras em 14 estados

No audio source provided.
De acordo com dados do Governo Federal, atualmente existem mais de um milhão de pescadores profissionais no Brasil
De acordo com dados do Governo Federal, atualmente existem mais de um milhão de pescadores profissionais no Brasil | Crédito: Ministério da Agricultura

O Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) lançou nesta terça-feira (29), no Dia do Pescador, o Relatório dos Conflitos Socioambientais e Violações de Direitos Humanos em Comunidades Tradicionais Pesqueiras no Brasil. O documento traz dados de 434 conflitos vivenciados por comunidades pesqueiras em 14 estados do Brasil.

No relatório, destacam-se os conflitos de restrição de acesso aos territórios, desmatamento, especulação imobiliária, empreendimentos turísticos e latifúndios. No entanto, os conflitos sobre dificuldade de acesso aos territórios sempre aparecem relacionados a outros conflitos, explicando a maior incidência deles.

Além disso, o documento mostra que os principais agentes causadores dos conflitos são os latifúndios, as empresas privadas e os agentes privados (políticos, fazendeiros, capatazes etc.), somando 58,85%.

:: Pandemia agrava situação de pescadores afetados pelo vazamento de óleo no Nordeste ::

Os conflitos causam consequências. De acordo com o relatório, as principais características que foram observadas em relação às questões socioambientais são a diminuição da quantidade e variedade de pescado, a destruição de habitats e o assoreamento.

Já em relação às questões socioeconômicas foi possível observar que as consequências são a restrição de acesso ao território, diminuição da renda familiar, perda de traços tradicionais, conflitos internos e quebra de laços comunitários.

Existe também um processo de criminalização das comunidades. Os formulários respondidos para a pesquisa mostraram que 70% deles relataram algum tipo de situação indevida. Os processos de criminalização por racismo representam 47,2% das respostas.

Como resistência para diminuir os efeitos dos conflitos e denunciar as violações de direitos humanos, foram citadas articulações com entidades e outras organizações parceiras e denúncias ao Ministério Público Federal e Ministérios Públicos estaduais.

Também foram analisados os efeitos da pandemia do novo coronavírus nas comunidades. De acordo com o relatório, “32, das 82 comunidades (39%) confirmaram casos de covid-19. Sendo que destas 25 comunidades tinham informações do número de contaminados e 21 não tinham nenhuma informação. Este número pode ser maior, uma vez que mais 25 comunidades informaram pessoas com sintomas, mas não sabiam com certeza ou não tinham confirmação. É provável que, pelo número de subnotificações em todo o país, as comunidades que tenham tido casos passem de 65% (mais de 55 comunidades)”.

::Lideranças do RS vão pedir revisão de liminar que liberou pesca de arrasto no estado::

Em transmissão ao vivo realizada nesta terça, Ormezita Barbosa, secretária executiva do CPP/Nacional, disse que a situação em relação aos conflitos se acentuou e se agravou recentemente. Além disso, ela afirmou que a “grilagem é uma questão crônica” e que existe um “processo sistemático de especulação imobiliária” nas regiões.

“A gente conseguiu observar que, nesse último período, os empreendimentos têm usado de forma muito exaustiva a estratégia de fragmentar a luta comunitária, de dividir as comunidades, de fragilizar os laços. Então, [isso é usado] como estratégia perversa muito comum neste período em que a gente está vivendo”, disse.

Editado por: Rebeca Cavalcante

|

Newsletter