REPRESSÃO

Presidente da Guatemala decreta estado de sítio após 17 dias de manifestação indígena

Controle militar durante 30 dias busca viabilizar projeto de mineração em reserva indígena

Estado de sítio ainda precisa ser aprovado pelo Congresso, mas primeiro pelotão de soldados já chegou ao município de El Estor, Guatemala | Crédito: Johan Ordoñez / AFP

O presidente da Guatemala, Alejandro Giammatei, decretou estado de sítio no município El Estor, no estado de Izabal, leste do país, no último domingo (24), após 17 dias de manifestações indígenas. A comunidade maia Q’eqcxhis protesta há mais de duas semanas contra um projeto de mineração que busca desalojá-los do seu território.

A medida ainda deve passar por aprovação do Legislativo em até três dias para ter validade. O Congresso discute nessa tarde se chancela ou não a decisão do Executivo. A bancada opositora, composta pelos partidos Winaq, Semilla e Movimento para a Libertação se opuseram ao estado de exceção, acusando criminalização da resistência comunitária. 

"É pouco provável que o Congresso invalide a decisão, porque possui uma direção totalmente pró-governamental", aponta Carlos Barrientos, diretor do Comitê de Unidade Camponesa da Guatemala (CUC), ao Brasil de Fato.

O partido governante Vamos possui a segunda maior bancada parlamentar com 17 do total de 160 deputados.

O decreto proíbe qualquer tipo de manifestação pública, prevê que o Exército controle o município e possa realizar detenções sem ordem judicial prévia. Segundo meios locais, nesta segunda-feira (25), um contingente de 500 soldados e 350 policiais já chegou ao local, enquanto agentes do Ministério Público realizam mandatos de busca e apreensão.

"Consideramos que é inconstitucional porque é uma ação desproporcional. O estado de sítio é um estado de exceção anterior a entrar num estado de guerra, segundo a Constituição. O que houve na região são manifestações por decisões governamentais e empresariais", declara Carlos Barrientos.

O líder camponês também destaca que a regulamentação sobre estados de exceção é uma herança da Constituição de 1965, que já não está mais vigente e foi aprovada durante a ditadura militar guatemalteca. 

Os movimentos indígenas já vinham denunciando há dias a presença de pessoas infiltradas nos protestos que geravam distúrbios para justificar o posterior controle do Estado. 

Vídeos publicados em redes sociais mostram a violência das forças policiais guatemaltecas contra a comunidade indígena. 

A comunidade maia Q’eqcxhis rechaça o projeto mineiro Fenix, da Companhia Guatemalteca de Níquel (CGN), paralisado desde fevereiro deste ano por resolução da Corte de Constitucionalidade – tribunal independente – , justamente por não cumprir com o requisito de consulta pública. Em junho deste ano, o Ministério de Energia e Minas realizou uma consulta pública, atendendo a decisão da Corte, no entanto, sem incluir os sindicatos de pescadores e as autoridades indígenas. 

A sentença também diminuía a zona de exploração de 247 km² para 6,29 km². Segundo a CGN, seria possível extrair cerca de 120 mil toneladas de níquel por mês da região. 

Apesar da decisão judicial, os indígenas denunciam que as empresas CGN Pronico e Mayaniquel, que disputavam a concessão com a CGN, estão extraindo níquel de maneira ilegal no seu território, contaminando a única fonte de água doce da região. 

Há 17 dias as lideranças indígenas bloqueiam as principais vias de acesso ao município, impedindo o tráfico de caminhões das mineradores e exigindo que o Estado cumpra com o Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que prevê que qualquer ação no território indígena deve passar por autorização dos povos originários segundo seus próprios costumes e hierarquia.  

Em julho de 2021, o chefe da Procuradoria Contra a Impunidade da Guatemala foi destituído do cargo. Mais tarde, em asilo político, Juan Francisco Sandoval afirmou que havia coletado provas que demonstravam que o presidente Alejandro Giammatei teria recebido em janeiro propina de uma das empresas que iriam executar o projeto Fenix e por isso era perseguido pelo Estado.

* Com informação de Prensa Libre, Quorum, Telesur e La Hora.

Editado por: Thales Schmidt

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