DECISÃO JUDICIAL

‘Restabelece a ordem urbanística em Porto Alegre’: entidades celebram anulação de eleição para Conselho do Plano Diretor

Justiça identificou série de irregularidades no processo conduzido pela prefeitura, como inclusão de entidades sem vínculo com planejamento urbano

No audio source provided.
Eleições para o CMDUA de Porto Alegre foram realizadas em fevereiro de 2024 | Crédito: Foto: Pedro Piegas/PMPA

A Justiça do Rio Grande do Sul anulou a eleição dos representantes de entidades não governamentais no Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental (CMDUA) de Porto Alegre para o biênio 2024/2025, após identificar uma série de irregularidades no processo conduzido pela prefeitura. As entidades ligadas ao planejamento urbano que moveram ação denunciando falhas no edital e falta de transparência no processo destacaram, em nota, a importância da sentença para a defesa da ordem urbanística na capital gaúcha.

A anulação foi determinada pelo juiz Gustavo Borsa Antonello, da 4ª Vara da Fazenda Pública da Capital, em decisão publicada na quarta-feira (19). Segundo a sentença, o Edital nº 06/2023 infringiu a legislação municipal ao permitir a inclusão de entidades sem vínculo com o planejamento urbano e ao destinar vagas da sociedade civil para órgãos governamentais – o que comprometeu a legitimidade do pleito. Além disso, a falta de transparência foi apontada como fator determinante para a anulação, uma vez que a prefeitura não divulgou adequadamente os documentos das entidades inscritas nem os critérios utilizados para rejeitar impugnações.

Outro ponto questionado foi o uso da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) como justificativa para restringir o acesso a informações essenciais do processo eleitoral. O juiz refutou o argumento da prefeitura, classificando a medida como uma tentativa de dificultar a fiscalização pública e ocultar problemas na condução da eleição.

O CMDUA tem a responsabilidade de participar da formulação e da deliberação de políticas, planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano, sendo conhecido como o Conselho do Plano Diretor. A decisão do magistrado também anula todas as decisões tomadas pelo CMDUA desde a posse dos novos integrantes, realizada em abril de 2024.

Com a decisão judicial, a prefeitura terá que refazer o processo e publicar um novo edital em conformidade com a legislação municipal e constitucional. Entretanto, a administração anunciou que vai recorrer da decisão.

Prefeito contesta ação judicial e confirma recurso

O prefeito Sebastião Melo (MDB) confirmou que o Executivo vai recorrer da decisão, em entrevista ao Correio do Povo. Para ele, a judicialização da eleição foi motivada por contestação dos grupos derrotados no pleito.

“Nós já devíamos ter revisado nosso plano em 2020, mas com a pandemia não foi possível. Me parece que quem perdeu a eleição não concordou com o resultado e foi para a Justiça. Acho lamentável e triste que isso tenha acontecido. Tivemos assembleias concorridíssimas e realizamos uma eleição com a maior participação popular em planejamento urbano que essa cidade teve nos últimos tempos”, disse.

Entidades celebram decisão

Após a publicação da decisão judicial, as entidades signatárias da ação divulgaram uma nota pública, ressaltando a importância da sentença e manifestando confiança na manutenção da decisão pelo Poder Judiciário. Além da Associação dos Técnicos de Nível Superior do Município de Porto Alegre (Astec), também assinaram a ação o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RS), a Acesso – Cidadania e Direitos Humanos, o Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU) e a Sociedade de Economia do Rio Grande do Sul (Socecon-RS).

“As entidades e movimentos populares comprometidos com o direito à cidade e à democracia na capital celebram a decisão e confiam que o Poder Judiciário confirmará o teor da sentença, restabelecendo a ordem urbanística em Porto Alegre”, diz trecho da nota.

Os organizações destacam que o CMDUA é “espaço de aprovação e recomendações sobre as propostas de alteração e criação de novas regras sobre o regime urbanístico com ação direta sobre as diretrizes que guiam o desenvolvimento urbano e ambiental, que tanto impactam a sociedade e sua relação com a cidade”.

Ação revelou falhas no processo

Segundo o Tribunal de Justiça do RS, a ação apontou uma série de irregularidades que comprometeram a idoneidade da eleição. Entre elas falta de transparência na divulgação das candidaturas, criação indevida de novas categorias de entidades e a participação irregular de instituições sem vínculo com o planejamento urbano.

A prefeitura se defendeu afirmando que o processo eleitoral foi conduzido de maneira legítima, dentro das normas vigentes e com auditoria externa. No entanto, a Justiça concluiu que as irregularidades constatadas invalidaram o resultado, reforçando a necessidade de um novo processo que assegure a representatividade real da sociedade civil no CMDUA.

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter