Elon Musk, Diretor do novo Departamento de Eficiência Governamental dos Estados Unidos, fez a saudação nazista em discurso no dia 20 de janeiro, em evento alusivo à posse presidencial. Poucos dias depois, seu chefe, o empossado Presidente Donald Trump, anunciou, ao lado de Benjamin Netanyahu, que pretende de alguma forma retirar os palestinos da Faixa de Gaza.
São ilustrações de um repertório maior de sinalizações de Trump ou de integrantes de sua base política tanto a uma versão do sionismo quanto ao neonazismo.
Aqui algo parecido se passa. Vejamos alguns exemplos. Já em 2015 Bolsonaro posou para foto ao lado de um sósia de Adolf Hitler. Anos depois Roberto Alvim, então Secretário de Cultura do Governo Bolsonaro, gravou vídeo oficial parafraseando ninguém menos que Joseph Goebbels. Ernesto Araújo, à época Chanceler, comparou as medidas de restrição decorrentes da covid-19 com o Holocausto. Abraham Weintraub, quando Ministro da Educação, fez analogia de operação da Polícia Federal à Noite dos Cristais de 1938. Em 2021 Bolsonaro encontrou-se com a deputada alemã Beatrix von Storch, neta de Lutz Graf Schwerin von Krassik, ministro das Finanças de Hitler. Posou com ela para foto, abraçados e sorrindo.
Por outro lado, Bolsonaro tem, há bastante tempo e de forma constante, Israel como aliado preferencial – lembremos de seu batismo no Rio Jordão. E o apreço é recíproco. Para ficar em um exemplo: Netanyahu convidou o ex-presidente brasileiro para ir a Israel uma semana após declarar Luiz Inácio Lula da Silva persona non grata em 2024.
Mas o nazismo não era essencialmente antissemita?
A primeira diferenciação a fazer é entre semitismo e sionismo. Semitismo é, de acordo com o dicionário, o “conjunto das características próprias dos judeus; sua civilização, sua influência”, e se refere à comunidade tanto laica quanto religiosa de judeus. Já sionismo trata da formação de um Estado judeu independente na Palestina, ideal que foi concretizado em 1948 com a fundação do Estado de Israel. Essa doutrina de apoio ao Estado de Israel tem diferentes vertentes, tanto de direita como de esquerda.
Mesmo existindo essa diferença, causa espanto o paradoxo de representantes do espectro de extrema direita às vezes sinalizarem ao nazismo e às vezes ao sionismo, e de o primeiro-ministro de Israel manter reciprocidade aos acenos desses grupos políticos.
Sionismo cristão
A centralidade do tema de Israel para Trump e Bolsonaro se deve, em grande medida, à relevância das bases cristãs conservadoras a seus mandatos e por conta do sionismo cristão – movimento de cristãos, sobretudo de evangélicos, originado no final do século 19, e de projeção em meados do Século 20, que contribui para o processo de apoio ao Estado de Israel. Dentre os motivos para esse movimento, há aqueles relacionados à teologia do dispensacionalismo, que trata do retorno de Jesus Cristo após anos de turbulências, culminando com o Fim dos Tempos e o estabelecimento do reino dos céus na terra.
O Armagedom ocorreria uma geração após o controle de Israel ser devolvido aos judeus. Assim, a criação do Estado de Israel em 1948 foi vista como um sinal. A Guerra dos Seis Dias de 1967, em que Israel capturou Jerusalém e começou a sua ocupação dos territórios conhecidos na Bíblia como Judeia e Sumaria, também seria uma comprovação das palavras sagradas.
Estima-se que a Cristãos Unidos por Israel (CUFI, na sigla em inglês), com milhões de membros, seja a maior organização sionista dos Estados Unidos. John Mearsheimer e Stephen Walt têm livro clássico sobre o tema; no Brasil pesquisas mais recentes de Maria das Dores Machado, Cecília Mariz e Brenda Carranza dedicam-se ao assunto.
As alianças promovidas pelo sionismo cristão, que têm eixo de gravidade nos EUA, se dão internacionalmente em rede. Na campanha de 2018, por exemplo, representantes da direita cristã norte-americana, ligados a Trump, vieram ao Brasil pedir votos a um candidato que defendesse a causa de Israel – sugerindo o apoio a Bolsonaro.
Grupo poderoso
Há ainda outro elemento. Além de apoio ao sionismo, Bolsonaro mobiliza a própria judaicidade como signo de pertencimento a um grupo influente e poderoso, justamente em uma chave antissemita. É o argumento dos colaboradores do Instituto Brasil-Israel, Fábio Zuker e Pedro Beresin, segundo os quais “ele usa e abusa de um imaginário antissemita: faz crer que a proximidade com judeus o torna aliado de um grupo seleto, com enorme capacidade de controlar o poder e manipular a realidade”.
E por que Netanyahu apoia Trump e Bolsonaro?
Os elementos acima ajudam a entender uma parte do quebra-cabeças. Mas por que Netanyahu tem Trump e Bolsonaro como aliados, mesmo com a sinalização deles próprios ou de membros de suas bases ao neonazismo?
Les Field, professor de antropologia da Universidade do Novo México, explica que os governos de Israel várias vezes mantêm relações com governos que expressam uma política antissemita. É o caso dos Estados Unidos sob Donald Trump e da Hungria sob Viktor Orbán, e foi o caso da Argentina sob a ditadura de 1976–1983. Em outras palavras, Israel separaria o antissemitismo doméstico desses países de suas políticas externas pró-Israel.
A lógica é a de que, para Israel, os judeus se afirmariam em sua judaicidade apenas quando retornassem, da diáspora, para o Oriente Médio, de modo que Israel, em vez de se tornar um defensor do povo judeu em todos os lugares, privilegiaria alianças políticas, econômicas e sociais que fortalecessem o poder do Estado de Israel. Seria quase um “judaísmo em um só país” substituindo o judaísmo permanente.
É muito importante frisar, porém, que Israel ter esses líderes como aliados não significa que tais líderes sejam apoiados pela comunidade judaica. Embora autores como Michel Gherman denunciem a colonização do judaísmo por forças de extrema direita no Brasil – destacando o papel relevante de Olavo de Carvalho para este feito –, existem forças neutras e de esquerda dentro da comunidade judaica, e não há pesquisa que indique que alguma dessas tendências políticas tenha hegemonia nesse grupo social.
Bannon e a alt-right
Na base de Trump está a alt-right, grupo de extrema direita em sua versão supremacista branca. Um dos líderes do movimento, Richard B. Spencer, chegou a saudar nada menos que “Hail, Trump” em 2016. Michele Prado aponta que a alt-right, que começou a ganhar corpo em meados de 2013, encontrou “caminho pavimentado no Brasil”, uma vez que seus principais conceitos já teriam sido introduzidos no país por Olavo de Carvalho – mais uma vez citado aqui — e seu entorno.
Nesse entorno, destaca-se Felipe Martins, ex-assessor de Assuntos Internacionais de Jair Bolsonaro e atualmente um dos denunciados pela Procuradoria-Geral da República pelos crimes relacionados ao planejamento de um golpe de Estado no Brasil. Martins lamentou, em 2017, a morte de Andrew Breitbart, criador do site Breitbart News e mentor da alt-right. Para Martins, Breibart era “um dos maiores responsáveis pela revolução antiestablishment” que ocorria nos EUA naquele momento, e que segue ocorrendo.
Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, que fez o gesto nazista na última semana, é outro expoente da alt-right, com posturas antissemitas e ao mesmo tempo sionistas. É o que aponta a conhecida filósofa Judith Butler, para quem o sionismo antissemita de direita é uma manifestação da supremacia branca, por meio do qual a classe dominante branca em Israel faz alianças com políticos de direita em outros países com base em interesses comuns, dentre os quais o racismo em geral e a islamofobia em particular.
Também para o analista Ben Lorber, para parte da extrema direita nos EUA, Israel teria se tornado um símbolo de um conjunto de valores a respeito de nacionalismo, cristianismo e até “orgulho branco”.
Nessa visão, Israel representaria uma elite superior e mais civilizada, e mesmo uma espécie de arquétipo primordial, incorporando um ideal religioso-nacionalista enraizado na Bíblia que está na base do próprio Ocidente. Para Lorber, muitos nacionalistas brancos nos Estados Unidos ansiariam por um mundo onde cada “raça” ocupasse seu próprio etnoestado homogêneo – e o sionismo (ou uma versão do sionismo) representaria, para eles, a aplicação direta desse princípio.
Caleidoscópio
Nenhuma tendência política é dotada de absoluta coerência. A extrema direita em particular tem a característica de um caleidoscópio (estou tomando emprestada a expressão de Isabela Kalil), com cores e formatos dissonantes e instáveis. Mas com o tempo algumas imagens desse caleidoscópio passam a mostrar alguma coerência e estabilidade. Passam a mostrar algum sentido que antes parecia impossível de se ver.
*Marina Basso Lacerda, doutora com pós-doutorado em Ciência Política, pesquisadora do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da FFLCH/USP, autora do livro ‘O Novo Conservadorismo Brasileiro: de Reagan a Bolsonaro’ (Zouk, 2024, 2 ed.), finalista do Prêmio Jabuti de Ciências Sociais e vencedor do Prêmio Minuano de Literatura.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.