Discursos emocionados marcaram, no final da tarde desta terça-feira (25), ato que reuniu dezenas de pessoas que foram relembrar os 50 anos da rebeldia de três estudantes contra o corte de uma Tipuana em frente à Faculdade de Direito da UFRGS, na avenida João Pessoa.
Muitas recordações, presenças de estudantes, professores da Universidade, ecologistas, políticos, amigos e pessoas que defendem a manutenção das árvores em Porto Alegre contra os que ainda hoje transformam as motosserras em heroínas do progresso, dos prédios e das incorporadoras.

Dos três estudantes que subiram na árvore – Carlos Dayrell, Marcos Saraçol e Tereza Jardim – só Saraçol esteve presente. Foi ele quem leu a carta de Dayrell no evento “Abraço à Tipuana – Porto Alegre comemora os 50 anos da subida nas árvores da João Pessoa”. Ele não pôde estar presente por compromissos assumidos na sua cidade, Montes Claros, Minas Gerais.

O grande momento da carta foi quando ele disse que “Porto Alegre precisa ser reflorestada”. O condutor e organizador da iniciativa foi o jornalista Sérgio Saraiva. A ex-vereadora Jussara Cony e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (SindJoRS) também participaram como anfitriões da iniciativa.

Lutz Global e AgirAzul.com, numa parceria inédita, realizaram a transmissão ao vivo pelo Youtube. No chat, as manifestações de várias partes do Brasil eram de apoio irrestrito ao abraço na árvore, mas muita gente também lamentou a pouca adesão de jovens em favor da ecologia.
José Lutzenberger, um dos maiores ambientalistas do Brasil de todos os tempos, foi lembrado em cada discurso pela sua ousadia em atacar os poderosos e defender bravamente a importância de manter a natureza.
Entre tanta gente que falou no evento, o vereador do PSol Pedro Ruas celebrou a iniciativa e o compromisso dos verdadeiros democratas em defender a cidade dos exploradores. “Não é por nada que estamos enfrentando estes calorões insuportáveis para qualquer ser humano.”

A ex-vereadora do PCdoB Jussara Cony declamou um poema emocionante e gritou forte que “ainda estamos aqui”. Adroaldo Corrêa da Silva, jornalista e ex-vereador, representando o SindJoRS, disse que é preciso tomar cuidado com a Administração municipal. “Eles nos tratam como consumidores. Precisamos preservar as árvores e cuidar para que a água sempre seja um bem público. Eles não estão nem aí para a população.”

A deputada federal Fernanda Melchionna (PSol) defendeu as liberdades democráticas e ressaltou que os governos estão liberando a destruição da natureza e os venenos (agrotóxicos), anulando leis e levando a população a consumir produtos sem proteção, “precisamos de coragem para enfrentá-los”.

O biólogo, conselheiro e ex-presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), na época estudante de Engenharia Civil, Francisco Milanez afirmou que “não podemos desistir da nossa luta, precisamos defender sempre a vida.” O biológo e botânico Paulo Brack reafirmou que “precisamos nos indignar contra os governos, pois estamos sós, abandonados, quando nos referimos ao meio ambiente”.
A vereadora Atena Roveda (PSol) e mestre em Antropologia, ressaltou que “não podemos esquecer nunca de combater o fascismo, os poderosos e os que querem transformar a cidade num monte de concreto”.

Ao final do evento, que durou pouco mais de uma hora, os participantes realizaram um abraço na árvore e cantaram a música de Geraldo Vandré, “Pra não dizer que falei de flores”, grande sucesso durante a ditadura e vencedor de festival nos anos 1960.
Como tudo aconteceu

No dia 25 de fevereiro de 1975, Dayrell, que tinha compromissos na Faculdade de Engenharia, onde estudava, não resistiu e aproveitou-se de um descuido dos trabalhadores que estavam na João Pessoa para cortar árvores, subiu na próxima árvore a ser abatida, em frente à Faculdade de Direito da UFRGS, uma Tipuana (Tipuana tipa, originária da Argentina e Bolívia). O gesto parou o serviço. Ele subiu, meio que no instinto de preservação da árvore. Ganhou apoio imediato. Mais dois estudantes, Marcos Saraçol, 19 anos, acadêmico de Matemática, e Teresa Jardim, 27 anos, de Biblioteconomia, também subiram na árvore. E aí o trio garantiu até hoje a sobrevivência da Tipuana.
Segundo conta a história, Dayrell seguia a orientação do presidente da Agapan à época, José Lutzenberger. Em uma das reuniões da associação, questionado pelo público sobre o que fazer contra a derrubada de árvores que acontecia na cidade, Lutz teria dito: “Nós já fizemos bastante coisa, mas não fomos ouvidos, façam vocês, subam nas árvores!”. A subida na árvore foi o estopim para a notícia se espalhar pela cidade e pelo mundo afora. Poucas horas depois já estavam ali centenas de pessoas. E também a Brigada Militar e agentes militares que combatiam a subversão.
Por volta das 15h30, o diretor da Faculdade de Engenharia da UFRGS, Adamastor Uriartti, pediu que os estudantes descessem para conversar. Teresa o convidou a subir e ele aceitou, sob aplausos do público. O professor levava uma proposta para resolver o conflito: Teresa e Saraçol continuariam na árvore enquanto Dayrell desceria para negociar com as autoridades.

Em seguida, Dayrell aceitou descer e ir com Uriartti, Lutzenberger e Carneiro ao gabinete do secretário de Obras. Marcos e Teresa resistiram no local até as 17 horas, quando chegou a notícia de que a árvore seria preservada. Ambos desceram da Tipuana, mas foram imediatamente presos e levados de camburão para o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). O comandante da brigada fora substituído, e o novo policial decidiu acabar com o protesto, de forma violenta. Houve tumulto, agressões a ambientalistas e repórteres que acompanhavam o protesto.
No DOPS, Marcos e Teresa foram interrogados, fotografados, identificados e fichados, assim como o jornalista Ícaro Cerqueira, que jogou a fita de gravação para a jornalista Jurema Josefa levar na emissora em que ele trabalhava. Não houve agressões físicas, mas muita intimidação. Para sorte dos estudantes, membros da Agapan, jornalistas e pessoas simpatizantes ao protesto deslocaram-se para o DOPS, pressionando para que fossem libertados. Somente por volta das 21 horas ocorreu o desfecho, com a soltura dos estudantes e repórteres.
Seis dias depois do protesto, Dayrell também prestou depoimento e foi fichado criminalmente no DOPS. Até Lutzenberger foi convocado a depor, porém não foi fichado. Os policiais queriam saber a posição da Agapan diante do protesto dos jovens; mais do que isso, queriam saber o que era e o que fazia a Agapan. Mesmo atuante desde 1971, foi somente com o episódio de 25/02/1975 que o regime notou a existência da entidade ecológica, ou seja, a ecologia não era considerada “subversiva”. No entanto, após o ato dos estudantes, mais e mais pessoas começaram a interessar-se pelo tema, que ganhou cores revolucionárias nos anos 1970.
A notícia ganhou o mundo e saiu em jornais europeus e até no famoso New YorK Times.
Dayrell em Porto Alegre e camiseta comemorativa
A Agapan também pretende lembrar os 50 anos desse momento. Segundo o presidente da Associação, Heverton Lacerda, o ato de 1975 é muito importante porque representa um dos símbolos vivos da resistência ecológica promovida pela Agapan desde 1971 até os dias de hoje, com atuação ininterrupta e 100% voluntária.
“Por isso, não poderíamos deixar de trazer a Porto Alegre o Dayrell para comemorar conosco em um ato que a Agapan está organizando para o dia 25 de abril, antevéspera de seu aniversário de 54 anos”, afirma Lacerda.
O presidente da Associação informa ainda que a camiseta em alusão aos 50 anos da subida na árvore será vendida na banca da Agapan na Feira de Agricultores Ecologistas (FAE) a partir do sábado, dia 8 de março. “Queremos que todos possam participar conosco no dia 25 de abril, às 13h30, junto à Tipuana, vestindo mais essa camiseta da resistência ecológica da Agapan”, convida.
