Em agosto de 2025, o Brasil de Fato MG completará 12 anos em terras mineiras. Em abril, alcançaremos a marca de 500 edições impressas gratuitas distribuídas semanalmente. Temos orgulho da trajetória construída até aqui, marcada por um profundo compromisso em contribuir com a cobertura e análise dos fatos, a partir de uma perspectiva popular, feminista e antirracista.
Ao longo de mais de uma década de existência, contribuímos com a disputa ideológica na sociedade, sendo um instrumento da esquerda e do povo mineiro.
Sabemos que a construção de outro projeto de país passa necessariamente pelo exercício da classe trabalhadora em construir os seus próprios veículos de comunicação. Entre as desigualdades que marcam a formação social, cultural e econômica do Brasil, a negação ao direito à comunicação é uma das mais perversas.
A burguesia e a comunicação
Vivemos em um país no qual os meios de comunicação comerciais estão concentrados nas mãos de poucas famílias ricas, que os utilizam para a defesa de seus próprios interesses, que em nada têm a ver com os interesses da classe trabalhadora.
A última pesquisa de Monitoramento da Propriedade da Mídia realizada pelas ONGs Intervozes e Repórteres Sem Fronteiras indicou que apenas cinco famílias controlam sozinhas metade dos veículos de comunicação com maior audiência do Brasil, sendo os Marinho, da Rede Globo, detentores de nove dos 50 canais.
É por isso que, em diversos momentos de nossa história, os veículos burgueses não hesitaram em defender abertamente pautas anti-povo, anti-nacionais e anti-democráticas, a exemplo do papel que cumpriram no golpe de 1964 e, mais recentemente, no golpe de 2016; e do papel que cumprem na atual conjuntura, buscando, junto ao mercado financeiro e à direita brasileira, impor um cerco ao governo federal para inviabilizar a implementação de uma agenda mais progressista, vitoriosa nas eleições de 2022.
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Em Minas Gerais, é conhecida a influência política exercida pelas elites nos meios de comunicação comerciais, bem como a utilização desses na disputa política, a exemplo do papel cumprido por Andreia Neves e o Estado de Minas nas gestões tucanas no estado; e da utilização do jornal O Tempo para a manutenção do poder político de Vittorio Medioli.
As eleições municipais de 2024, em Belo Horizonte, tiveram como um dos principais vencedores Rubens Menin, bilionário dono da Rádio Itatiaia. Também é de constatação comum o bloqueio midiático às críticas ao governador neoliberal Romeu Zema (Novo), em especial durante o seu primeiro mandato, o que ajuda a explicar sua reeleição em primeiro turno em 2022, mesmo com uma gestão que não deixou nenhuma marca significativa para a população mineira.
Não há experiências de transformações sociais sem ferramentas de comunicação
“Deveria recordar-se [o operário] sempre, sempre, sempre, que o jornal burguês (qualquer que seja sua cor) é um instrumento de luta movido por ideias e interesses que estão em contraste com os seus. Tudo o que se publica é constantemente influenciado por uma ideia: servir à classe dominante, o que se traduz sem dúvida num fato: combater a classe trabalhadora. E, de fato, da primeira à última linha, o jornal burguês sente e revela esta preocupação”, disse Gramsci, em Os jornais e os operários.
Com a ascensão das plataformas digitais, a necessidade de construirmos nossas próprias ferramentas de comunicação se torna ainda mais evidente. A utilização das plataformas para disseminação massiva de notícias falsas; a segmentação de público, que impulsiona o cenário de maior fragmentação do pensamento e cristalização das ideias — o algoritmo só mostra ao indivíduo aquilo que ele quer ver ou comprar, limitando o espaço de diálogo e debate — e o “recente” alinhamento entre os donos das Big Techs e o governo de Donald Trump nos Estados Unidos demonstram que, nas redes sociais, também não estamos atuando em território neutro.
Como nos ensina o sociólogo Florestan Fernandes, é marca da elite brasileira o seu caráter antecipatório e a sua capacidade de desferir golpes, ao perceber qualquer mínimo avanço na condição de organização do povo enquanto classe. No campo da comunicação, não é diferente. Foram inúmeras as tentativas da classe trabalhadora de construir suas próprias ferramentas, a grande maioria delas com pouca longevidade, em razão de falta de estrutura, perseguição política, entre outros fatores.
Nosso legado
Por isso, entendemos que a trajetória de 22 anos do sistema Brasil de Fato e de 12 anos do Brasil de Fato MG é, por si só, uma conquista popular. Construir uma ferramenta vocacionada a propagandear os interesses do povo com recursos financeiros e humanos escassos, diante da alta concentração do poder midiático nas mãos das elites, não é uma tarefa simples e nem de poucos. Chegamos até aqui devido a uma ampla rede de parceiros comprometidos com um projeto popular para o Brasil que assumiram para si a responsabilidade histórica de apostar nessa construção.
Além da publicação semanal de nossa edição impressa e das reportagens diárias publicadas em nosso site, construímos em Minas Gerais um sistema que engloba produção em áudio, com programas diários na Rádio Favela, em vídeo, com reportagens semanais para a TVT, e atuação coordenada nas principais redes sociais — WhatsApp, Instagram, X, Facebook.
Ao longo de nossa história, também contribuímos com a formação política de dirigentes sociais e sindicais sobre os temas que envolvem a comunicação, desenvolvendo experiências de cursos sobre jornalismo em conflitos ambientais; ativismo digital; comunicação sindical; entre outros.
Todavia, vivenciamos, desde 2013, mais de uma década de ofensiva neoliberal no Brasil e, assim como todas as ferramentas da classe trabalhadora, não saímos ilesos, sendo duramente impactados pela conjuntura de retirada de direitos, ataque à democracia e fragilização das organizações sindicais e populares. Em Minas Gerais, esse contexto é agravado com a eleição e reeleição de Romeu Zema.
Ainda assim, mesmo diante de um contexto extremamente adverso, seguimos pautando o debate público, a partir da perspectiva dos trabalhadores, tendo nos consolidado como um dos principais veículos jornalísticos populares — com abrangência estadual e multiplataformas — do estado. Diferente da mídia burguesa, que se esconde atrás de uma suposta “neutralidade” enquanto defende abertamente os seus interesses de classe, não negamos que estamos a serviço de um lado, o lado do povo.
Por isso, — prezando pelo rigor técnico, pela apuração cuidadosa, pela escuta de especialistas, mas também pelo protagonismo daqueles que a mídia comercial se nega a ouvir — não nos furtamos a denunciar o avanço e os impactos da mineração em Minas Gerais; as sucessivas tentativas de privatização do patrimônio público; o desmonte dos serviços públicos; a retirada de direitos da classe trabalhadora; os projetos em disputa nas casas legislativas; as consequências do avanço do conservadorismo, etc.
Também nos desafiamos a ajudar a anunciar o mundo e as relações que queremos construir, a partir da cobertura de experiências positivas construídas pelos trabalhadores em suas mobilizações, ações de solidariedade, reivindicações e pautas políticas.
Para contribuir no debate fraterno de ideias, construímos uma rede de mais de 50 colunistas, entre intelectuais, pesquisadores, parlamentares e lideranças sociais que têm no Brasil de Fato MG um espaço de diálogo sobre mobilidade urbana, economia, lutas populares, educação, saúde, mineração, política, meio ambiente, entre outros temas.
Disputa estratégica
Sabemos que o fortalecimento da comunicação popular é uma necessidade de ordem imediata, pois é essencial para o combate à extrema direita, mas é também de ordem estratégica, pois a disputa ideológica é vital para o enfrentamento à ordem capitalista, racista e patriarcal.
Ao redor de todo o mundo, não houve ainda experiências de transformações radicais bem sucedidas que não tenham dedicado esforços, tempo e recursos para a construção de ferramentas próprias de comunicação, a exemplo da centralidade dada por Lênin à imprensa revolucionária na divulgação das ideias socialistas, durante o processo da Revolução Russa.
“Levemos, portanto, sua causa adiante, apoiando e desenvolvendo unidos o jornal dos operários na capital, o prenúncio da primavera que está por vir, quando toda a Rússia será coberta por uma rede de organizações operárias com jornais de operários”, diz o líder bolchevique.
Também merece destaque a Rádio Rebelde, criada por Fidel Castro e Che Guevara durante a guerrilha em Serra Maestra, que entrou para a história como um dos instrumentos essenciais para a conquista revolucionária do poder em Cuba.
Cenário é desafiador, mas há espaço para avanço
A eleição de Lula (PT) em 2022 abriu uma janela de oportunidades para a esquerda brasileira, que, se souber aproveitá-la, pode acumular forças e se reposicionar na disputa política. Todavia, passados dois anos de gestão, o balanço é de que pouco avançamos, enquanto campo progressista e enquanto governo. A fragmentação da esquerda evidencia que não conseguimos conformar uma frente popular que, atuando no interior da frente ampla, pressione o governo e crie condições sociais para a implementação do nosso programa.
No campo da comunicação, o governo federal segue vacilante e — mesmo após o empenho midiático no golpe contra Dilma Rousseff, na tentativa de desmoralização de Lula e na criminalização do PT — continua financiando os nossos inimigos.
Que vençamos em 2025, para vencermos em 2026
Gramsci também é enfático ao dizer que a classe trabalhadora deve aprender a boicotar a imprensa burguesa com a mesma disciplina que a burguesia boicota os jornais dos operários. Porém, para se ter uma ideia, apenas entre janeiro e outubro do ano passado, a Rede Globo recebeu R$ 177,2 milhões em publicidade da Secretaria de Comunicação (Secom), enquanto os nossos veículos não empresariais enfrentam desafios.
O terceiro governo Lula tem representado a retomada de políticas públicas importantes, como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida (MCMV), e a melhora expressiva de índices econômicos, alcançando em janeiro, por exemplo, a menor inflação registrada desde 1994. Porém, a popularidade do presidente caminha no sentido inverso.
Seria um erro acreditar que o problema do governo federal é apenas de comunicação. Mas também é equivocado negar que a falta de investimento em disputa ideológica é parte do problema.
As movimentações da extrema direita e as fragilidades da frente ampla que conduz o governo – parte dos atores que a compunham já estão pulando do barco – demonstram que a disputa de 2026 não será fácil e corremos o risco de, mais uma vez, termos o nosso país conduzido pelo o que há de pior na política brasileira.
Diante desse cenário, o ano de 2025 precisa significar uma “virada de chave” para a esquerda brasileira, que deve retomar o exercício da unidade, a capacidade de iniciativa política e o amplo diálogo com as massas. Sem dúvidas, o fortalecimento das ferramentas de comunicação popular será essencial, incluindo o sistema Brasil de Fato.
Que vençamos em 2025, para vencermos em 2026. Para que o Brasil de Fato MG siga cumprindo o papel que cumprimos na última década, contamos com o seu apoio.
Por Ana Carolina Vasconcelos, jornalista do Brasil de Fato MG