Passados nove meses das enchentes e deslizamentos de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, ainda é difícil, para os pequenos agricultores de matriz camponesa e familiar, contabilizar suas perdas. Os danos foram muito além das roças e plantações perdidas, das casas alagadas ou levadas pela correnteza, dos maquinários inutilizados pelo tempo que ficaram submersos, das estradas destruídas e pontes caídas, dos galpões, armazéns, silos, estufas, chiqueiros e aviários perdidos.
Há aqueles que perderam infraestrutura e ficaram com dívidas de financiamentos, os que perderam as referências simbólicas como documentos, lembranças e memórias. Há os que tiveram o seu modo de vida e produção destruídos pela força das águas e, o pior cenário de todos, os que tiveram perdas humanas de familiares e amigos. Há, sim, muitos, que perderam a esperança.

Foi com este cenário que os voluntários da Missão Sementes de Solidariedade iniciaram sua caminhada nos territórios atingidos. Recebendo toda variedade de respostas a cada “Ôh, de casa!” anunciado ao chegar aonde encontravam as pessoas começando a reconstruir suas vidas. Era preciso plantar alguma coisa e, no primeiro contato, a semente partilhada foi apenas de afeto, escuta, atenção e esperança.
A solidariedade ativa viria cerca de mês e meio depois, aí sim em formato de mudas de árvores, sementes de milho, feijão, arroz, hortaliças, ramas de mandioca, mudas de batata-doce e flores. Mas será que essa gente que perdeu tanto, muitos até que perderam tudo, teve força para refazer seus roçados e suas vidas? A resposta já está sendo colhida, já está indo para o prato e para a feira.
BdF foi conferir as sementes germinar

No município de Arroio do Meio, comunidade de Ruy Barbosa, o casal Ivo e Lucila Petry já esperava a chegada da reportagem com feijão no ponto para ser debulhado na base da manguá. O milho-verde, pronto para colheita, estava viçoso, pronto para ir pra feira. O riso fácil do casal de produtores agroecológicos, que há 23 anos se dedicam a produzir alimentos com diversidade e manejo sem utilização de químicos ou venenos, não deixa supor os momentos de sufoco que passaram há pouco meses, quando a água destruiu quase toda a produção e os deixou, inclusive, por dias sem acesso ao caminho que tradicionalmente tomavam para seguir até as feiras onde comercializavam.
O feijão e o milho colhidos pelos Petry já são frutos das sementes recebidas. “Foi muito importante as sementes, mas muito mais os abraços e as palavras que o pessoal trouxe naqueles momentos mais difíceis”, afirma dona Lucila.
A rotina mudou, uma das feiras que faziam em um município vizinho não pudera fazer mais pela dificuldade de acesso ─ a ponte caiu. Mas seguem firmes. “A semente germina, garante o sustento de hoje e vai garantir o plantio de amanhã”, afirma seu Ivo, lembrando que vão reservar uma parte para também compartilhar com quem precisa.

Pouco adiante, ainda em Arroio do Meio, na comunidade de Dona Rita, Dionísio Berch, 85 anos, mostra na casa a marca de onde a água chegou. Não se lamenta das perdas materiais, mas se mostra sentido com a pastagem destruída pelas águas do arroio que transbordou. “Não sobrou nada, para dar de comer pros bichinhos tivemos que correr atrás de comprar feno, isso nunca se viu acontecer por aqui”.

Caminhando na estrada de chão que dá acesso a casa, cercada de árvores antigas, disse ficar aliviado pela água não ter levado embora o arvoredo que plantou há anos. Entre as árvores antigas, de caule grosso e produção frutífera consolidada, vão brotando viçosas as mudas compartilhadas pela Missão Sementes de Solidariedade. “Nos primeiros dias eu fiquei triste, fiquei até meio doente, depois a família e os amigos foram conversando, ajudando a gente a erguer a cabeça e seguir em frente.”
“Os animais é o que a gente sente mais, isso não vai ter como recuperar”

Em Cruzeiro do Sul, na comunidade de São Miguel, dona Rosana Gisch Pereira ainda está com dificuldades. Na propriedade próxima ao rio sobraram da enchente só os pés de cana e bananeiras, o restante foi arrasado. As sementes e os adubos que estavam reservados para o plantio e os animais ─ 15 cabeças de gado leiteiro ─ a enxurrada levou tudo.
“Os animais é o que a gente sente mais, isso não vai ter como recuperar”, lamenta a agricultora. O medo também bate fundo, impedindo a família de voltar ao local. “Agora aqui vai ser só para plantar, porque para morar a gente tem medo que aconteça de novo.”
Apesar da terra agredida pela lama e areia do rio e pelos resíduos da enxurrada, que impedem a brotação adequada do que é plantado, dona Rosana insiste e garante que não vai desistir. “Eu nunca perdi a esperança, tem que olhar pra frente”.
Assim como o milho que vai nascendo sofrido no solo repleto de resíduos, mas vai estendendo as folhas e querendo começar a granar as espigas, ela vai resistindo, insistindo e esperançando “Não sobrou nenhuma rama de mandioca do que a gente tinha aqui, então o que veio da Missão das Sementes foi muito bem-vindo, e eu vou plantar, eu vou insistir.”
“Nós vamos trabalhar e reconstruir de novo”

Na mesma comunidade São Miguel, Valmor Schwingel mostra que da propriedade da família na margem do Rio Taquari restou só a figueira centenária. Casa, animais, lavoura, maquinário, foi tudo levado pela água. Mas ele não reclama.
“Eu não estava aqui na hora, quem estava era meu irmão, e a água o levou junto. Graças a Deus ele foi encontrado vivo, então eu não reclamo do que a gente perdeu, isso nós vamos trabalhar e construir de novo. O importante foi ele ter sobrevivido”, relata, contando que alguns conhecidos próximos não tiveram a mesma sorte.
O milho dos irmãos Schwingel, plantado não faz muito, está crescendo viçoso e se a seca não atrapalhar vai render uma boa colheita. E bem no barranco do rio, simbólica, está a horta semeada com farta variedade de itens. “Vem aqui e vamos colher umas verduras, hoje vocês vão levar pra casa uma feira das sementes que me deram pra plantar”, conta feliz, já passando a faca num maço de cheiro-verde e alcançando para a equipe da Comissão Pastoral da Terra que acompanhava a reportagem na visita.
“O que havia de plantação foi tudo destruído”

Na comunidade de Picada Felipe Essig, município de Travesseiro, os agricultores Sérgio Niedd e Claudio Dedes conduziram uma caminhada pela costa de um arroio tranquilo. Difícil imaginar que aquelas águas rasas e calmas trariam tantos danos às roças, estradas, animais e atingiriam até casas no seu curso. O que havia de plantação foi tudo destruído, muita gente relatou que os animais – tanto gado de leite quanto suínos – se perderam. As marcas no asfalto arrancado em alguns pontos, nos pontilhões reformados ou mesmo reconstruídos permitem imaginar a situação difícil vivida nos dias da enchente.
“Essas sementes chegaram em hora muito boa, pra gente recomeçar os plantios, e são sementes de qualidade, crioulas, é uma coisa muito boa que o movimento fez pelos agricultores”, relata Niedd, mostrando o feijão na roça, farto, bonito, quase pronto para a colheita.
Já Dedes foi mostrar o plantio de milho e valorizar a ajuda recebida. “É um recomeço, muita gente perdeu seus animais, suas máquinas, ferramentas e perdeu também as sementes, as árvores frutíferas que a água levou, aí quando as sementes e as mudas chegaram ajudou muita gente a recomeçar.”
O milho de Dedes já tem destino certo. Uma parte vai ficar para semente a ser compartilhada com amigos que também produzem crioulo. A outra vai para o moinho e, mais tarde, retorna como farinha, para fazer pão de milho e comer junto com os netos.
É preciso fazer mais
Embora a visão dos plantios traga simbolismo forte de reconstrução de roçados e de vidas, os resultados dos formulários preenchidos pelas equipes de voluntários da Missão Sementes de Solidariedade não deixam dúvidas: muito ainda precisa ser feito pelos atingidos e atingidas no RS. A maior parte das ações mais sensíveis não têm como ser atendidas pelo voluntariado. Precisam da participação das prefeituras, e dos governos do estado e Federal.
- Das famílias visitadas pelas equipes da Missão Sementes de Solidariedade, 34% informam precisar de acesso a algum tipo de política pública para moradia (habitação nova, reconstrução ou reforma);
- Apesar disso, apenas 10% das famílias visitadas receberam o auxílio reconstrução do Governo Federal, operado através das prefeituras municipais, 3% esperavam resposta.
- O mesmo índice de 34% indica o percentual de famílias que ainda precisam de algum tipo de linha de financiamento para poder voltar a produzir;
- A formalização e organização de documentos da propriedade é um problema a ser enfrentado ainda por 30% dos pequenos agricultores visitados que sequer possuem a Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) ou Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), que são essenciais para acessar políticas públicas para o setor.
- Quanto ao Cadastro Único dos Programas Sociais (CADÚnico), 39% das famílias estão inscritas, o que favorece a elas o acesso a programas sociais, enquanto as restantes terão maiores dificuldades para o enquadramento.
“Tudo o que você vê de árvores aqui, foi nós que plantamos”

Finalizando a jornada, de volta a Arroio do Meio, agora no Distrito de Forqueta, uma visita para dona Helena Weizennan, que juntamente com o marido e a filha está a frente de um empreendimento de produção agroecológica diversificada de alimentos. “Tudo o que você vê de árvore aqui fomos nós que plantamos”, conta com orgulho, mostrando a unidade produtiva onde os espaços de convívio, fartos em sombra, dividem a atenção dos visitantes com as estufas, hortas, pomares e pequenas roças.
“Nós não passamos por situações mais graves como outras pessoas, tivemos muitas perdas por conta do excesso de água, ficamos sem energia por muitos dias, perdemos produtos, mas na verdade tivemos a oportunidade é de ajudar outras pessoas, inclusive de fazer parte das equipes de voluntários da Missão Sementes de Solidariedade”, conta.
Novamente, como na primeira visita realizada, nos Petry, dona Helena também estava com milho verde no ponto de colher e feijão pronto para a manguá, esperando para o registro. “A gente tem que ser resistente, firme, ter esperança sempre, ser assim como é a semente boa, a semente crioula”, confidenciou num sorriso, na hora da despedida.
No retorno para a redação, uma certeza: há muito a ser feito. Mas uma espécie de multiplicação já começou a acontecer. A multiplicação que se dá através da partilha da semente. Semear é preciso. Esperançar também.
Jornal impresso

Esta reportagem faz parte de edição especial impressa do jornal Brasil de Fato RS sobre a Romaria da Terra. Clique aqui para baixar a edição na íntegra.
