Abrindo o carnaval de rua de São Paulo, o bloco afro Ilú Obá de Min sai da praça da República na noite desta sexta-feira (28), celebrando seus 20 anos de existência e louvando a mestra Girlei Miranda, uma de suas fundadoras.
Feminista e antirracista, o bloco é composto por cerca de 400 mulheres entre a bateria – com alfaia, xequerê e agogô –, o corpo de dança – que inclui brincantes com pernas de pau – e o coro de vozes. Além do cortejo desta sexta, a agremiação volta às ruas do centro de São Paulo no domingo (2).
Seguindo a tradição de reverenciar mulheres negras inspiradoras, neste ano o enredo é “Girlei Luiza Miranda – tambores sempre tambores”. Aos 63 anos, Gigi, como é chamada, é consagrada como percussionista, diretora musical, educadora, palhaça, artista e precursora do ensino dos toques dos tambores em São Paulo. Antes dela, o Ilú homenageou Elza Soares, Marielle Franco, Lia de Itamaracá, Sueli Carneiro, Nega Duda, Leci Brandão e Carolina Maria de Jesus, entre outras.
“Para a gente é uma grande felicidade poder levar esse espetáculo, essa ópera de rua gratuita para a cidade. Que é construída durante seis meses de processo e oficinas gratuitas para essas 400 mulheres”, afirma Daiane Pettine, diretora executiva do Ilú Obá de Min.
“Feminagear Girlei Luiza Miranda, a mestra das mestras, é trazer luz e colocar em evidência todas as artistas negras mais velhas que contribuíram e contribuem para a cultura deste país”, salienta Pettine, diretora da série Atunko Ilú Obá de Min.
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Em uma tradução do iorubá com licença poética, Ilú Obá de Min significa “mãos femininas que tocam para o rei Xangô”. A ideia foi dada por Beth Beli em novembro de 2004, quando ela, Girlei, Nega Duda e Adriana Aragão fundaram o bloco com a proposta inédita em São Paulo de um coletivo composto por mulheres.
Foi então que há duas décadas o Ilú tomou as ruas do centro da capital paulista pela primeira vez, com cerca de 50 mulheres. O tema do primeiro carnaval do bloco foi a Rainha Nzinga. Vinte anos depois, a agremiação é oito vezes maior.
“Temos muito que comemorar, penso e observo que no mundo ainda não existiu um trabalho que una cerca de 400 mulheres negras soando seus tambores para quem ainda insiste em ‘dormir’. E se depender de todas nós, continuaremos festejando as nossas conquistas e nosso bem viver”, declarou Beth Beli em nota.
O grupo sem fins lucrativos se define como um “ecossistema afrocentrado” e uma “irmandade que valoriza as mais velhas como protagonistas” de suas ações.
“Buscamos preservar as tradições afro-brasileiras, promover a conscientização sobre a história e as contribuições dos povos negros, e fomentar o poder político das mulheres negras em todas as esferas da sociedade. Vislumbramos – e já vivemos – um futuro em que a cultura negra seja reconhecida, valorizada e celebrada em todas as suas manifestações”, se descreve o Ilú, que tem como base musical ritmos do candomblé, afoxé, jongo, maracatu, boi e ciranda.
Os batuques de Girlei Miranda
A “feminageada” deste ano nasceu em janeiro de 1962 na Casa Verde, em um dia de samba e feijoada na casa dos seus pais, que desde cedo a introduziram no universo da escola Unidos do Peruche. Girlei cresceu em uma casa na Brasilândia com três cômodos de tábua e um quintal grande com animais, árvores frutíferas e rodas de samba. No rádio se ouvia Jorge Ben, Alcione, Ângela Maria, Ataulfo Alves.
Foi em casa, em um dos dias em que amigos do pai se juntavam na sua oficina de funilaria para batucar e compor, que Girlei se encantou pela forma como um deles rodava um pandeiro rosa na mão. Tempos depois, ela ganharia um parecido de seu pai.
“Resolvi começar a frequentar a Unidos do Peruche, a escola dos meus pais. Me colocar ali. Por outro lado, comecei a me encontrar com pessoas do movimento negro, que era muito forte em São Paulo. Nas reuniões tinha música, e eu comecei a ter meu pandeiro comigo, e a desempenhar músicas que eram palavras de ordem na época. No espaço da Unidos do Peruche, eu podia juntar esse pessoal do movimento negro, e fazer a música. Comecei a sacar que a música era esse elemento que podia juntar. O movimento negro me deu esse start, essa visão do meu lugar, do que eu quero”, conta Miranda, no seu relato ao Museu da Pessoa.
“O instrumento, a música, o som dos tambores, começaram a fazer sentido na minha vida, porque eu comecei a usá-los para resolver minhas amarguras, minhas indecisões”, narra Girlei, que já rodou o mundo como diretora musical de espetáculos.
Já com larga experiência no bloco afro Ori Axé, um dia Beth Beli vira para Gigi e diz “Estou querendo montar um grupo. Vamos?”. Tendo como referências blocos afros da Bahia, como Ilê Aiyê e Muzenza, pensaram “por que não fazer um negócio desses em São Paulo?”, conta Miranda, na entrevista ao Museu.
“Com tanta referência musical, as nossas culturas afro-brasileiras, o sincretismo. A gente tinha muita responsabilidade com o Ori Axé, ali tocavam juntos homens e mulheres. Mas no mesmo dia, na casa da Beth na Eduardo Prado, ela fez uma pesquisa e veio com esse nome, Ilú Obá De Min. E a gente começou a chamar as meninas do Ori Axé para compor”, pontua Girlei Miranda: “Não esperávamos que as pessoas fossem nos acompanhar da forma que acompanharam, fossem acreditar na proposta”.