Há meses circula um meme em que mães começam ditados populares desconhecidos pelos filhos e filmam os complementos: “Quem vê cara não vê…”, instiga uma mãe. “Costas?” responde uma criança. As respostas fazem mais sentido do que as dadas (ou não) pelas prefeituras e governo do estado de São Paulo às ondas de calor anunciadas pelos meteorologistas.
Quem espera calor extremo se prepara com… Ar-condicionado? Borrifadores de água? Projetos de desconcretização de espaços? Ações de restauração de ecossistemas para frear a mudança climática? Estudantes de várias cidades de São Paulo não encontraram nada disso no início do ano letivo. Por inação de do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e companhia, eles se depararam com salas com os velhos ventiladores quebrados e até escolas sem bebedouros.
Eventos extremos estão sendo previstos há décadas diante da contínua destruição dos ecossistemas. Não são poucas e novas as recomendações para as escolas se adequarem às mudanças climáticas. Nos últimos anos, o alerta é para mitigar os efeitos e adaptar os espaços e atividades. Quando a onda de calor veio com o início do ano letivo, no entanto, o sol escaldante foi “tapado com peneira”.
Familiares de cidades do litoral paulista denunciaram que crianças tiveram insolação dentro das salas de aula. Na capital, a União Municipal do Estudantes Secundaristas (Umes) chamou as escolas de “Sauna de Aula”, postando nas redes sociais uma série de fotos de janelas ruins, ventiladores quebrados, bebedouros que não funcionam, além de tetos caindo.
“Saunas de aula” também é o nome que o pesquisador Jhonatan Almada deu para um relatório sobre climatização de salas de aula que fez a partir dos microdados do Censo Escolar de 2023. O documento mostra São Paulo com o pior índice nacional no assunto: enquanto a média do país é de 34% das salas de aula com equipamentos para conforto térmico, a rede estadual paulista tinha 2,7% das salas com ar-condicionado ou climatizador e a rede municipal de educação apenas 0,9%.
Diante da insalubridade, muitas escolas optaram por outro velho ditado conhecido: “toma que o filho é teu” e mandaram crianças e adolescentes de volta para casa. O diretor do Centro Paula Souza, responsável pelas Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) deu sinal verde para que as aulas voltassem a ser online, como se estivéssemos outra vez em meio a uma epidemia contagiante e a questão requeresse isolamento, em vez de investimento. Desta vez, não havia lockdown para que as famílias pudessem estar em casa e, em pleno primeiro mês em que se comemorava a proibição dos celulares nas escolas, estudantes foram assistir aula pela tela. Claro, ninguém é tão ingênuo a ponto de esperar que cada uma destas crianças e adolescentes tenham em casa o ambiente climatizado que o governo não foi capaz de providenciar nas escolas.
Sobra a desigualdade de sempre: um ou outro vai dar um pulo na piscina ou curtir um ar-condicionado individual, alguns vão passar o mesmo calor, aprendendo à distância e sem supervisão, e muitos enfrentarão um calor maior ainda em casas sem equipamento adequado tanto para se refrescar quanto para estudar.
Em pleno ano da COP (Conferência das Partes) no Brasil, a cidade e o Estado mais ricos do país começaram o ano letivo dando uma péssima lição sobre como negociar as responsabilidade diante das mudanças climáticas.
*Cinthia Rodrigues é mãe de estudantes de escola pública, especialista em Educação Social e mestranda em Educação pela USP, cofundadora da Quero na Escola e coautora do livro “21 histórias de estudantes que mudaram a escola”.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a linha editorial do Brasil de Fato.