Um breque nacional está sendo convocado por entregadores de todas as regiões do país para os dias 31 de março e 1º de abril. A greve pretende atingir os principais aplicativos de delivery, como Uber Flash e 99 Entrega, mas tem como alvo central o iFood, hegemônico no mercado.
A mobilização é organizada em grupos de Whatsapp e divulgada por uma campanha nas redes sociais, em páginas como @brequenacionaldosapps. De acordo com os organizadores, ações estão confirmadas em 40 cidades de 18 estados. Entre elas estão Maceió (AL), Manaus (AM), Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), João Pessoa (PB), Natal (RN), Recife (PE), Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Cuiabá (MT), São Luís (MA), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).
A paralisação tem quatro demandas centrais: a taxa mínima de R$ 10 por corrida; o aumento da remuneração de R$ 1,50 para R$ 2,50 a cada quilômetro rodado; o limite de um raio de 3 quilômetros para entregas feitas em bicicleta; e o pagamento integral por corrida mesmo quando pedidos são agrupados na mesma rota.
Em vídeo de convocação que circula pelas redes sociais, imagens de trabalhadores e fotos de mobilizações são acompanhadas de uma narração com voz feminina e a identidade visual do breque, que inverte o logo do iFood para fazer uma cara triste.
“Três anos sem reajuste na taxa mínima. Enquanto isso, o combustível disparou, a manutenção da moto está um absurdo, peça de bicicleta está cada vez mais cara e até quem entrega de carro sente no bolso. Como mantém o veículo rodando? Como bota comida na mesa? A gente exige o mínimo de dignidade”, diz o vídeo, ao afirmar que a remuneração de R$ 10 por entrega não seria um “aumento”, mas a “reposição do que a inflação comeu”.
“Sem isso, não tem como seguir. Não dá para pedalar, rodar ou dirigir de graça enquanto empresas lucram bilhões”, segue o vídeo de divulgação. “E a pergunta que não quer calar: se fomos essenciais na pandemia, por que seguimos invisíveis? Se carregamos comida, remédios, mercado, se facilitamos a vida de milhões de pessoas, por que somos explorados dessa forma?”, questiona a narração: “Mas agora chega, o breque está marcado”.
Jr. Freitas, um dos fundadores da Aliança Nacional dos Entregadores de Aplicativos (Anea), participa da organização do breque na capital paulista, onde um ato está sendo convocado no dia 31 de março às 10h em frente ao estádio do Pacaembu. A ideia é que, em motociata, os trabalhadores se desloquem até a sede do iFood, em Osasco (SP).
“O nosso objetivo é, primeiramente, mostrar a nossa indignação com a exploração feita pelos aplicativos. E por que o iFood? A gente entende que a empresa tem mais de 80% do monopólio do mercado”, explica Freitas.
“Parar um ou dois dias, a gente não consegue dar um prejuízo enorme para a empresa, mas é importante alertar a sociedade que somos uma classe que já vem sofrendo há muito tempo”, defende o entregador.
Mortes decorrentes da precarização
Apenas na capital paulista, segundo a prefeitura, as mortes de motociclistas aumentaram 20% entre 2023 e 2024. Só no ano passado foram 483 óbitos. Para Jr. Freitas, a estatística é “fruto da precarização”. A baixa remuneração, contra a qual o breque se organiza, acarreta, por exemplo, na necessidade de correr e de trabalhar sob exaustão, pontua.
“A gente tem que trabalhar 14 horas para atingir o objetivo que tem. E quanto mais precária fica a taxa, mais a gente tem que trabalhar, mais exposto e em vulnerabilidade a gente fica”, argumenta Freitas.
Na avaliação do entregador, essa será “uma das maiores paralisações” que a categoria já conseguiu organizar. “Desta vez a gente vai firme mostrar pra sociedade, para o poder público, que vem ignorando a nossa situação. Eles sabem do problema, mas não têm interesse em solucionar o problema”, diz Jr. Freitas.
A reportagem entrou em contato com iFood, que afirmou se manifestar apenas por meio da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Abomitec), entidade que reúne empresas de tecnologia. Esta, por sua vez, informou que a renda média dos entregadores “cresceu 5% acima da inflação entre 2023 e 2024”.
“As empresas associadas da Amobitec apoiam a regulação do trabalho intermediado por plataformas digitais, visando a garantia de proteção social dos trabalhadores e segurança jurídica das atividades”, declarou a Associação.
No vídeo de convocatória, os organizadores da greve afirmam que a data não foi escolhida ao acaso: “Primeiro de abril, o dia da mentira, vai ser o dia de desmascarar as mentiras dos aplicativos. Se não tem reajuste, não tem entrega. Agora é luta”.