“O Bioma Pampa é uma das regiões do planeta que mais sofre e sofrerá com as mudanças climáticas. É a porta de entrada para os contrastes físicos entre as massas de ar tropicais e polares.” Esta foi uma das principais afirmações dos professores Jefferson Cardia Simões e Francisco Eliseu Aquino na palestra de abertura do 13º Fórum Internacional do Meio Ambiente (Fima), promovido pela Associação Rio-grandense de Imprensa (ARI) no Memorial da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, na manhã desta quarta-feira (26).
Conforme os dois pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) que estiveram na base Comandante Ferraz, de pesquisa científica na Antártida, é necessário se criar uma governança de resiliência na região, sob pena dela ser totalmente inviabilizada nas próximas décadas.
Jefferson Cardia Simões disse que “até 2030 teremos temperaturas máximas diárias cada vez mais altas, dias cada vez mais quentes e ondas de calor”. E que “a solução é uma atitude de resiliência climática que pode ser definida como a capacidade de um sistema socioecológico para absorver tensões e manter a sua função face às tensões externas impostas pela mudança climática e adaptar-se, reorganizar e evoluir para configurações mais desejáveis que melhoram a sustentabilidade do sistema, deixando-o melhor preparado para impactos futuros nas mudanças climáticas”.

Ele explicou ainda que o papel da Antártida no sistema clima está interligada com processos que ocorrem em latitudes menores, em especial com a atmosfera sul-americana e os oceanos circundantes. “Antártida é tão importante quanto os trópicos no sistema ambiental global. É um laboratório natural para monitorar as mudanças ambientais globais.”
Segundo ele, a região do Pampa está situada entre três fatores de aceleração do processo de aquecimento global: o oceano Atlântico Sul, o Continente Antártico e o oceano Pacífico. “Se a previsão para o Brasil é perder 11 milhões de hectares de terras agricultáveis nos próximos anos, a região Sul será a que mais sofrerá.”
O professor Francisco Eliseu Aquino, por sua vez, relatou suas pesquisas e citou pelo menos cinco teses de doutorado orientadas por ele na Ufrgs que tratam do problema e constatam a aceleração das mudanças nos últimos tempos. Disse que os eventos extremos de cheias e estiagens como os que ocorreram em 2023 e 2024 estão cada vez mais próximos uns dos outros e que a ação humana é a principal responsável pela sua ocorrência.
No encerramento de sua palestra, Aquino afirmou que a ciência do clima, a partir de estudos dos eventos recentes, já atribuiu e identificou as principais condições presentes e futuras que favorecem eventos meteorológicos e climáticos extremos, como calor extremo, quase todos os estudos sobre eventos de calor extremo indicam influência humana; seca, cerca de metade dos estudos sobre a seca mostram uma influência humana significativa; chuvas extremas, um número menor, mas crescente, de estudos sobre chuvas extremas detecta sinal humano; os rios atmosféricos e as ondas de calor desempenham um papel fundamental na organização do ambiente atmosférico gerador de eventos extremos no Pampa como estiagens, ondas de calor, fumaça, tempestades, frentes de rajada, sistemas convectivos.
Cerimônia de abertura
A cerimônia de abertura do 13º Fima ocorreu logo após um café da manhã com produtos do Pampa, oferecido pelo curso de Gastronomia da Universidade Regional da Campanha. Além do presidente da ARI, José Nunes, estiveram na mesa o presidente da Assembleia Legislativa do RS, o deputado Pepe Vargas, a representante do Ministério Público Estadual, a procuradora Ana Marchezan, a diretora da Secretaria Estadual do Meio Ambiente Cátia Gonçalves, e pela Prefeitura de Porto Alegre, representando o prefeito Sebastião Melo, o secretário de Comunicação Luiz Otávio Prates.
Também estiveram presentes a vice-presidenta do Tribunal de Justiça do Estado, Rosmari da Silva, a superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Rio Grande do Sul, Diara Sartori, o representante da Associação do Ministério Público, o doutor Fernando Andrade Alves, o responsável pela Área do Meio Ambiente da Companhia Rio-grandense de Saneamento (Corsan), Otávio Augusto Passaia, e pelo Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae) Carlos Eduardo da Silveira.
Em suas saudações, quase todos ressaltaram a importância de haver mais cuidado com o meio ambiente e urgência da proteção do Bioma Pampa. O presidente da ARI, José Nunes, por sua vez, disse que provavelmente esta edição do Fima é um dos maiores eventos da entidade em suas nove décadas de existência. “E quero lembrar que foi o nosso antigo presidente Ercy Pereira Torma, que em 2003, deu início ao Fórum. E ao longo dos anos, os dirigentes que o sucederam, foram fortalecendo o evento, ampliando os debates e o número de participantes”.
Com o tema central “Bioma Pampa: Clima, Conservação e Atividades Econômicas”, o fórum segue nesta quinta-feira (27). Confira a programação.
