Poucas minisséries atraíram tanto o olhar do público nos últimos meses quanto a produção da Netflix Adolescência. O sucesso não é por acaso: a trama britânica chama atenção para a radicalização de jovens no ambiente online, com foco em comunidades misóginas.
A produção conta a história de um adolescente de 13 anos, Jamie Miller (Owen Cooper), acusado de assassinar uma colega de escola, Katie Leonard. Um dos termos apresentados na série é incels, que faz uma referência aos celibatários involuntários (do inglês involuntary celibates), que culpam as mulheres por não terem uma vida sexual satisfatória.
Neste universo, propaga-se a teoria 80/20, em que 80% das mulheres sentiriam atração por apenas 20% dos homens, deixando os outros sem oportunidades de satisfação amorosa. Na minissérie, Katie Leonard, antes de ser assassinada, comenta em uma foto no perfil de Jamie Miller no Instagram um emoji que faz referência aos incels.
A linguagem e a dinâmica dessas comunidades, no entanto, parecem ser de outro planeta quando os pais, os educadores e os investigadores tomam conhecimento do caso. É o filho do investigador Luke Bascombe (Ashley Walters) que chama a atenção do pai para o que se passa no mundo online. “Não está indo bem porque você não está entendendo. Você não está lendo o que eles estão fazendo, o que está acontecendo”, diz o filho ao investigador.
O professor de filosofia e doutor em educação Renato Levin-Borges afirma que a minissérie levanta o debate sobre um assunto pouco trabalhado, mas que ocorre há tempos: a radicalização de jovens nas redes sociais por meio do contato a teorias da extrema direita.
“O ataque nas escolas é um efeito de vertentes que compõem o grande guarda-chuva da extrema direita (…), que dá respostas rápidas e violentas de reafirmação de um mundo construído, mas que é defendido algo natural, a partir de ideias do que é ser homem e mulher. A extrema direita, com esse apelo a uma reestruturação de um mundo conhecido e simples, seduz esses jovens”, afirmou o professor ao Brasil de Fato.
Levin-Borges também destaca o papel das big techs no processo de radicalização dos meninos e jovens. “As big techs são redes proprietárias, ou seja, elas têm acionistas, elas não têm interesse com o bem-estar de sociedade nenhuma”, aponta. “A arquitetura do X, por exemplo, privilegia o ódio. O ódio te faz ficar mais tempo dentro da rede. Quanto mais tempo você está na rede, mais patrocinadores querem estar na rede.”
Confira a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato: A minissérie ‘Adolescência’ mostra um desconhecimento por parte da sociedade no geral, incluindo pais, escola e policiais, sobre o que é falado e fomentado no universo das redes sociais. Pode-se dizer que ainda é um tema novo?
Renato Levin-Borges: O desconhecimento da sociedade em relação às interações e ao modo com que os jovens têm constituído o pertencimento nas redes sociais tem nos afetado enquanto sociedade no geral, órgãos públicos, pais, autoridades e professores. A série está levantando um tema novo para o debate público, que a gente desconhece quase em absoluto, mas que já ocorre há um tempo.
Para os jovens, é uma camada de realidade nesse trânsito entre estar na escola e esse âmbito mais íntimo de pertencimento, que são essas comunidades nas redes sociais. E aí a série vai abordar isso em relação a um tipo de comunidade misógina que é bastante preocupante e que cresceu muito nos últimos anos por conta da internet e das redes sociais.
Um dos pontos da trama é a exclusão do personagem principal em relação a outros estudantes. Como isso leva esses jovens a se identificarem e criarem esse sentimento de pertencimento em outro local, que, no caso, é esse universo online da misoginia?
Há alguns alguns fatores que contribuem com isso. O espaço do colégio tem uma potencialidade tóxica historicamente. A interação a partir do xingamento, do que hoje a gente conhece por bullying, sempre esteve presente. Só que a gente tem vetores que tornaram isso mais dramático e que levam a consequências violentas como a minissérie retrata.
Tem um o fator que na minha análise é inescapável, que é um isolamento produzido por um sistema econômico político e social, que é o capitalismo neoliberal ou ultraliberal, que leva à competição. Isso tem impacto nos adolescentes de modo muito dramático, porque eles estão constituindo a identidade e a noção de onde eles pertencem no mundo.
Outro fator é que essa geração retratada na minissérie passou pela pandemia de covid-19, ou seja, por aquele isolamento, passando muito mais tempo nas redes sociais. O TikTok, por exemplo, se tornou o aplicativo mais baixado do mundo e mais famoso na faixa etária dos nove aos 17 anos em meados de março de 2020. Então, a socialização passou a ser mais forte na relação por dispositivos conectados à internet.
Esse conjunto cria uma potencialização: esses jovens estão se sentindo isolados, passaram por um isolamento, têm dificuldade de socializar muitas vezes, e o ambiente escolar muitas vezes é tóxico.
E aí entra o bullying?
Eu chamo atenção que muitas vezes há uma resposta automática de que o bullying é o centro disso. Na verdade, em muitos casos de ataques por adolescentes radicalizados, esses jovens não sofreram bullying, mas até mesmo perpetraram bullying. Por que eu falo isso? Porque isso vai criando um estigma no jovem que já sofre bullying. Eles passam a ser vistos como suspeitos, ou seja, uma dupla violência. E esse é um ponto importante.
O bullying tem um papel muitas vezes nessa radicalização. Mas os jovens chegam nessas comunidades, principalmente, a partir da dificuldade de se encaixar em algum lugar. Todos nós queremos ser aceitos, é algo do ser humano, e na adolescência isso é latente. Esses jovens não encontram caminhos de pertencimento a comunidades saudáveis e acabam encontrando grupos constituídos em torno de discursos e de práticas violentas que atentam contra as mulheres e outras minorias.
Quer dizer, o fundo é a dificuldade do pertencimento e uma era de isolamento e de competição de uma geração que cresceu tendo que viver na pandemia e que obviamente teve efeitos de dificultar a socialização dessa juventude. Por isso que eu falei que são vários fatores. Eles acabam potencializando o espaço da escola que tem alguma toxicidade tradicionalmente, mas essa é uma geração que está enfrentando isso com outros vetores que potencializam respostas muito problemáticas, como a minissérie acaba demonstrando.
Um ponto importante é a questão do neoliberalismo e da competitividade. Queria que você falasse um pouco sobre esse papel do neoliberalismo nesse processo.
O primeiro ponto é que o capitalismo, e o capitalismo neoliberal, que é uma etapa contemporânea – até tem autores e autoras que já falam em capitalismo ultraliberal – é uma nova modulação do capitalismo que começa a partir dos anos 70, sobretudo, que se intensifica e ganha novas roupagens. O que a gente precisa saber é que isso não é somente um sistema econômico, mas um sistema subjetivo e afetivo.
O capitalismo, em todas suas formulações, é um modo de formar mentalidades e circuitos de afetos, ou seja, vai formar o que a gente valoriza ou não. Nesse sentido, o neoliberalismo constrói a ideia de cada um por si e da meritocracia. Isso é muito violento, principalmente com jovens vulneráveis, porque entende que a culpa por determinado fracasso é individual.
A individualização do padecimento que é produzido socialmente, economicamente e politicamente vai recair nos ombros do indivíduo. Isso tem, obviamente, um impacto muito grande para esse jovem que está crescendo. Ele se reconhece como aquele que está sozinho, abandonado e que, se ele é um fracasso, a culpa é toda dele.
A extrema direita parece conseguir se apropriar desses sentimentos muito bem. Qual é a relação desse segmento da sociedade com a ideia de red pill e incels?
O ataque nas escolas é um efeito de vertentes que compõem o grande guarda-chuva da extrema direita, que são os grupos que a gente chama de aceleracionistas, que reconhecem o mal-estar no mundo e não têm o que fazer a não ser precipitar o colapso da sociedade. Estamos falando de uma estrutura filosófica e intelectual por trás disso.
A extrema direita dá respostas rápidas e violentas de reafirmação de um mundo construído, mas que é defendido algo natural, a partir de ideias do que é ser homem e mulher. A extrema direita, com esse apelo a uma reestruturação de um mundo conhecido e simples, seduz esses jovens.
A extrema direita organiza um mundo que, para muitos, é difícil de ler, tem muitas mudanças, uma emergência de identidades, de pautas e de modos de ser que em alguma medida desestruturam o mundo que a extrema direita vende: um mundo extremamente organizado, fácil e simplista. Isso tem um apelo, evidentemente, sobre jovens que querem se orientar no mundo, mas que não conseguem lê-lo, que sofrem. Aí vem a extrema direita e diz: “A culpa é de A, a culpa é de B”. Isso tem um apelo afetivo e subjetivo muito grande para esses jovens.
E, nesse universo, o que são os red pills e os incels?
A gente tem um guarda-chuva conceitual maior que é o masculinismo, ligado à machosfera. É uma expressão que vem dos Estados Unidos, do começo dos anos 2000, com a popularização da internet, que trata da esfera de sites, blogs e canais que propagam a misoginia.
Mas o que é o masculinismo? É um sistema de crença que postula uma dominação masculina natural e a própria construção do que é ser homem, como esse sujeito viril que usa violência, mas que isso foi perdido e degenerado.
Essa é sempre a estrutura do pensamento da extrema direita. A contemporaneidade é sempre o tempo da degeneração, é sempre um sintoma da destruição. E os masculinistas, como parte desse grande caldo que a gente pode chamar de extrema direita, reconhecem que o mundo, por causa do acesso a direitos pelas minorias, se degradou.
No caso dos red pills, são esses homens que acreditam que a sociedade foi virada de cabeça para baixo, com a predominância e a dominação das mulheres e opressão dos homens. O incel é aquele sujeito que não consegue ter relações com uma mulher porque não são tidos como atraentes e que culpam as mulheres por isso. Eles entendem que as mulheres são interesseiras e que elas são causadoras do grande mal. Por isso eles estão nesse grande guarda-chuva do masculinismo.
Me parece que o epítome dessa confluência entre a extrema direita e a machosfera é o Elon Musk, dono do X. Qual é o tamanho das big techs nesse problema?
Elas têm um tamanho enorme, do tamanho da fortuna deles. As big techs são redes proprietárias, ou seja, elas têm acionistas, elas não têm interesse com o bem-estar de sociedade nenhuma. Ao mesmo tempo, elas não se responsabilizam por nenhum tipo de moderação de seus conteúdos para dar conta de uma sociedade mais saudável. Isso porque o que engaja é o ódio. A arquitetura do X, por exemplo, privilegia o ódio. O ódio te faz ficar mais tempo dentro da rede. Quanto mais tempo você está na rede, mais patrocinadores querem estar na rede.
E aí a gente tem a contraparte que é a sociedade. A sociedade está sofrendo as consequências das redes que não têm responsabilidade nenhuma com a legislação do país e com o bem-estar social de modo mais amplo, mas elas precisam em alguma medida ser responsabilizadas.
Então a regulamentação não é censura. Isso é inclusive uma pauta alimentada pelas próprias redes em conluio com a extrema direita. As big techs têm um papel fundamental tanto na radicalização dos jovens quanto num projeto global da extrema direita, que eu poderia chamar de uma internacional neofascista.
Em 2023, houve uma onda de ataques seguidos em escolas do Brasil, o que levou o poder público a tomar algumas medidas que parecem surtir efeito. Como você avalia a atuação do governo e o que pode ser feito para lidar com esse problema?
O que me parece que mudou não foi a radicalização de jovens. O que mudou foi entendimento das autoridades. Eu tenho que citar o ótimo trabalho feito nesse programa governamental federal, o Escola Segura. A Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) aprenderam muito mais como é a dinâmica da circulação de informações e de incitação à ação de ataques às escolas. Então, o trabalho preventivo melhorou muito a partir desse programa do governo Escola Segura, com as autoridades conseguindo cada vez mais monitorar e prevenir.
Isso não significa que não há ainda esses processos de radicalização e nem de tentativas de ataques. E aí como cessar isso? É um trabalho que cabe à sociedade, mas que passa também pela regulamentação das mídias. É um trabalho que, de um lado, tem que ser um trabalho pedagógico no sentido mais amplo de reeducação da sociedade, de trabalhar com esses jovens, de trabalhar saúde mental desses jovens, mas por outro lado passa por um trabalho de prevenção e de responsabilização dessas redes que possibilitam trocas de informações e radicalização de jovens.
Tem mais alguma coisa que você gostaria de falar que a gente não abordou?
A gente também tem que, em alguma medida, tomar cuidado para não criminalizar esses jovens, porque é um modo de se comunicar e de produzir identidade na internet. Não é porque um jovem usa determinados emojis que ele está numa comunidade radicalizada. Isso não significa de antemão que ele faz parte disso. É um modo de se constituir nesse mundo que é mediado pelas redes sociais.
A gente precisa ampliar nosso conhecimento sobre esses símbolos, mas sobretudo ampliar os espaços de pertencimento e acolhimento saudáveis sem julgamentos morais. Quando a gente começa a ter um olhar de vigilância e moralidade, os jovens tendem, obviamente, a se fechar dentro dessas comunidades. E aí é um problema.
Por isso a importância de uma escola atenta a isso e com profissionais treinados.
A formação de professores é fundamental porque o professor e a professora muitas vezes são os primeiros a notar os sinais, que às vezes passam batido pela família por uma série de questões.
Então preparar educadores não é preparar como a extrema direita quer, levando armas para uma sala de aula, com posição bélica de vigilância. Isso vai produzir o efeito oposto. Preparar educadores é ter um olhar atento e saber endereçar esses jovens sempre com a perspectiva de ter políticas públicas e grupos multidisciplinares de psicólogos e terapeutas das mais variadas ordens que possam acolher esse jovem e dar conta dos motivos que levam ele a se radicalizar.