Desde a semana passada uma febre toma as redes sociais: selfies e momentos pessoais transformados em cenas de anime com aparência semelhante à dos Estúdios Ghibli, gerados por inteligência artificial.
Uma multidão está usando os novos recursos do ChatGPT de geração de imagem, que automatizam o processo, entrando na trend que viralizou. O ritmo de novas pessoas usuárias dessa IA chegou a mais de 1 milhão por hora. Só como comparação, no lançamento, com o fenômeno desse app, ele conseguiu o mesmo número de pessoas em 5 dias.

O que parece inofensivo à primeira vista, uma brincadeira, é, na verdade, parte de uma engrenagem bem mais profunda. Estamos diante de um episódio importante da disputa tecnopolítica global em curso.
Por um lado, a infraestrutura tecnológica proprietária, monopolista, ambientalmente insustentável, e centralizada nas mãos de poucas corporações e fundos do Norte Global. De outro, a ascensão de uma possível nova hegemonia vinda do setor privado da China. E no meio, pessoas usuárias comuns e movimentos de resistência por tecnologias livres, abertas e justas.
ChatGPT, IA generativa, extração e concentração de poder
As ferramentas de IA generativa como ChatGPT foram treinadas com bases de dados imensas, são alimentadas por conteúdos criados por pessoas artistas e trabalhadoras sem qualquer consentimento. Cada imagem “personalizada” é produto de um processo de extração massiva de valor – tanto material quanto simbólico – que se dá sem remuneração justa, nem transparência.
Além disso, o custo energético e hídrico para treinar e operar esses sistemas é altíssimo. O dono do ChatGPT reconheceu que com a febre dos desenhos que os servidores estão literalmente “derretendo” por conta da demanda crescente, o que chegou a forçar a desativação temporária da funcionalidade de gerar desenhos.
Essa febre dos desenhos significa, na prática, consumo intensivo de água potável e energia elétrica para manter data centers em funcionamento e refrigerados – em plena crise climática. Usar IA para gerar imagens “bonitinhas” nesse contexto não é neutro: é compactuar com essa lógica extrativista que afeta diretamente o planeta e especialmente os territórios do Sul Global.
O momento de crise do Vale do Silício
Estamos em um momento delicado de realinhamento tecnopolítico global. A OpenAI (que de open, aberta, não tem nada), responsável pelo ChatGPT, já anunciou seu envolvimento com o setor militar dos EUA. A Meta desmantelou equipes de moderação e verificação de fatos colocando grupos minorizados em maior risco online.
A Alphabet (Google) fez lobby agressivo no Brasil para barrar legislações que regulam plataformas como o PL das Fake News, que busca reduzir a desinformação. Os grandes bilionários do Vale do Silício saíram do armário e agora estão publicamente alinhados à extrema direita, como ficou exposto na presença dos principais na posse de Trump.
A ilusão de que as big techs operam como ferramentas “neutras” já não se sustenta faz tempo. Usar essas tecnologias de forma acrítica hoje, especialmente pagando por seus anúncios e serviços, é fortalecer estruturas que operam diretamente contra os valores progressistas, antirracistas, feministas e ambientalistas.
Colonialismo digital: um novo nome para um velho problema
Chamamos de colonialismo digital a continuidade das formas históricas de dominação e extração (de classe, raça, gênero, espécie etc.) que agora são feitas por meios tecnológicos. Plataformas e sistemas como os de IA extraem dados e riqueza das populações do Sul Global, e concentram suas aquisições nas sedes corporativas do Norte.
Qual é a saída? Não se trata de abandonar a internet ou sair das redes sociais. A influência digital continua sendo uma ferramenta importante para movimentos sociais, campanhas políticas e disputas culturais. Mas é momento de fazer escolhas táticas importantes.
Uso crítico de redes sociais
Não é razoável pagar por serviços dessas empresas (anúncios são até 95% da receita das redes sociais, por exemplo) e ficar atento quando são “gratuitos”. Há sempre algo sendo trocado, nesse caso sua atenção e dados.
É preciso usar com consciência e moderação e entender como essas tecnologias nos viciam e como nosso uso vira lucro para corporações que não têm qualquer compromisso com nossos territórios, nossas lutas ou nossas vidas, reconhecendo o colonialismo digital e suas implicações.
Além disso, é importante exigir novas políticas públicas que acompanhem as inovações, que protejam nossa soberania informacional, gerem justiça algorítmica, protejam o trabalho e conhecimento local.
Precisamos de mais braços para contribuir com projetos de software livre e código aberto, de mais apoio às iniciativas comunitárias, e mais investimento em infraestrutura digital descentralizada e pública.
Há caminhos sendo trilhados – e precisamos fortalecê-los coletivamente. O Brasil já foi potência em software livre, público e aberto e pode voltar a ser. A China, um de nossos principais parceiros econômicos e políticos, vem mostrando alternativas acessíveis e potentes com IA generativa de código aberto, como, por exemplo, com o DeepSeek.
Escolher táticas com visão de longo prazo
Nem toda viralização é vitória. Precisamos avaliar o impacto de nossas ações em termos de sustentabilidade política, não apenas de alcance momentâneo. A cultura de rede pode e deve ser usada para fortalecer nossos projetos – não os deles. Ao contrário do que tem se falado nessa crise, pegando a metáfora da duração do banho não ter impacto real contra a crise climática, em uma onda de atenção nas redes sociais, ações individuais têm impacto real sim. Fazem diferença!
A IA está entre nós e chegou para ficar. O que está em disputa é para quem ela serve – e a que futuro ela nos leva.
* Travesti, não binária e hacker. Especialista em Tecnologia, Software, Política e Diversidade. Atua no front contra a extrema-direita e colonialismo com comunicação popular digital, atingindo milhões de pessoas com seus memes. É da Setorial de Tecnologia do Psol, que ajudou a fundar. Participa da Campanha Internet Legal.
** A campanha Internet Legal é uma frente de luta com mais de 200 organizações em defesa da construção de uma rede soberana, justa e democrática, através da regulação pública e democrática das plataformas digitais, seu modelo de negócios e seus serviços; através de medidas que promovem a soberania digital dos povos e através da criação de instrumentos tecnológicos públicos e sociais que colocam as pessoas e os direitos humanos acima dos interesses econômicos no ambiente digital. Confira o site da campanha: https://internetlegal.org.br/
*** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.
