Nas últimas semanas, Rússia, Ucrânia e EUA realizaram os maiores avanços em termos de negociações para pôr um fim à guerra. Em conversações paralelas entre os dias 23 e 25 de março, na Arábia Saudita, as partes chegaram a acordo sobre um cessar-fogo de ataques a infraestruturas energéticas e uma trégua no Mar Negro para garantir a segurança das exportações comerciais.
No entanto, a Rússia e a Ucrânia já fazem acusações mútuas de violação da trégua, e o processo para uma paz plena ainda está muito longe de ser alcançado devido às profundas divergências entre os dois países. Nesta terça-feira (1º), o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, informou que foi entregue ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao conselheiro de Segurança Nacional do presidente dos EUA, Donald Trump, Mike Waltz, e à ONU, uma lista de alvos que a Ucrânia atacou desde o início da trégua parcial entre Moscou e Kiev.
Lavrov disse que, em uma reunião com membros do Conselho de Segurança da Rússia, o ministro da Defesa russo, Andrei Belousov, informou a Vladimir Putin que o lado ucraniano não está observando a moratória, e as instalações de energia russas têm sido alvo de ataques “todo esse tempo, talvez com uma pausa de um ou dois dias”.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, por sua vez, também acusou o lado russo de realizar ataques em diversas regiões da Ucrânia com 1.310 bombas aéreas guiadas, mais de mil drones de ataque e nove mísseis de vários tipos, incluindo balísticos. Ele acrescentou que Kiev espera uma reação dos EUA e da Europa aos ataques da Rússia.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o diretor do Instituto Ucraniano de Política, Ruslan Bortnik, afirmou que a realização de conversações para buscar uma resolução para a guerra é um caminho positivo, mas as dificuldades refletem a grande incompatibilidade entre as partes.
“As negociações começaram com os detalhes mais simples, com acordos sobre comércio e sobre os grãos, acordos que já aconteceram em 2022 e 2023, ou seja, é uma das questões mais fáceis entre a Rússia e a Ucrânia. Isso quer dizer que pela frente temos ainda muitas rodadas de negociações sobre outras questões mais difíceis. Em cada rodada, ainda será discutido um cessar-fogo pleno, o controle territorial, o futuro político da Ucrânia, desarmamento, garantias de segurança. Essas rodadas serão muito mais difíceis e haverá um risco maior de rompimento das negociações”, alertou o analista.
Essa incompatibilidade e fragilidade nas negociações foi exposta quando, por exemplo, no dia 27 de março, o presidente russo voltou a colocar em xeque a legitimidade do governo de Volodymyr Zelensky. Segundo Putin, atualmente não está claro para a Rússia com quem do lado ucraniano seria possível assinar acordos. Nesse contexto, Putin chegou a sugerir que uma “administração internacional temporária” poderia assumir o controle na Ucrânia, sob comando da ONU e dos EUA, por exemplo, para que sejam realizadas eleições no país.
A posição de Vladimir Putin gerou irritação na Casa Branca, causando a primeira crítica aberta do presidente dos EUA, Donald Trump, ao líder russo desde que retornou à presidência. Durante o fim de semana, Trump elevou o tom ao se referir a Vladimir Putin, dizendo estar “muito irritado” com a declaração do russo. O chefe da Casa Branca chegou a ameaçar Moscou com novas sanções sobre o petróleo russo se não for possível chegar a um acordo para pôr um fim à guerra da Ucrânia.
Apesar dos ruídos com Washington e acusações de violações dos acordos entre Moscou e Kiev, as partes ainda mantêm abertas as janelas de negociação. É o que destacou o chanceler russo, Serguei Lavrov, nesta terça-feira, informando que já foi marcada uma nova rodada de negociações.
“Não quero fazer previsões, mas vemos progresso emergente e o desejo de nossos parceiros americanos de remover esses obstáculos completamente inaceitáveis ao trabalho normal de diplomatas nas capitais uns dos outros do ponto de vista da prática diplomática”, disse Lavrov após a reunião do Conselho de Segurança.
‘Janela’ para alívio das sanções
Outro ponto que dificulta uma resolução no curto prazo e, ao mesmo tempo, pressiona EUA e Ucrânia por concessões, são as condições que o Kremlin vem estabelecendo para firmar os acordos.
No mesmo dia em que foi anunciada a trégua no Mar Negro, Moscou deu ênfase ao fato de que o acordo entre a Rússia e os EUA sobre a retomada da iniciativa de grãos do na região só entrará em vigor após o levantamento das restrições de sanções ao Rosselkhozbank (Banco Agrícola Russo) e outras organizações financeiras envolvidas no comércio de alimentos e fertilizantes.
Para o cientista político Ruslan Bortnik, tanto a Rússia como a Ucrânia têm interesse na trégua no Mar Negro para libertar as exportações agrícolas, importantes para a economia de ambos os países, mas o analista observou que Moscou também se utiliza das negociações como instrumento político para derrubar as sanções ocidentais.
“Em primeiro lugar, [o objetivo] é aumentar o lucro via comércio internacional, em segundo lugar, a Rússia utiliza essas negociações como uma tentativa de ser um instrumento para abrir uma janela no ‘muro das sanções’, exigindo a retirada de sanções de parte de bancos russos, retornando-os ao sistema de transações internacionais Swift, exigindo a retirada de restrições a parte da frota comercial marítima russa, limitações ao mercado de seguros russo que corresponde aos seguros destas mercadorias”, explica.
Bortnik aponta que, com a trégua marítima, a Rússia pode retornar de maneira mais segura a Frota Russa do Mar Negro às suas bases na Crimeia, caso esse acordo comece a funcionar. Atualmente, uma parte significativa dessa frota foi transferida temporariamente da Crimeia, onde estas navegações eram alvos atingíveis de ataque dos sistemas de mísseis ucranianos e de drones aéreos, para portos do Cáucaso. “Por isso as vantagens potenciais desse acordo são bem maiores para a Rússia do que para a Ucrânia”, completou Bortnik.
Já a Ucrânia, de acordo com o cientista político, aposta justamente na incompatibilidade dos interesses de Moscou e Washington e no desgaste nas relações entre os dois países como uma forma de reaproximar a Casa Branca a Kiev.
“A Ucrânia aposta no fato de que as condições russas não serão aceitas pelos EUA e que esse acordo não funcione, e, pelo contrário, deteriore as relações entre a Casa Branca e o Kremlin, entre Trump e Putin, e que, por fim, deve trazer Trump para o lado da Ucrânia, voltar ele do posto de mediador para o de aliado da Ucrânia”, completa.