As tarifas recíprocas anunciadas por Donald Trump nesta quarta-feira (2) não terão tantos impactos no Brasil quanto na China e na União Europeia, de acordo com a avaliação de especialistas. Produtos brasileiros serão taxados em 10%, enquanto China e Europa serão tarifadas em 34%.
“Seremos ricos novamente, mais do que qualquer outro país. Hoje, colocamos os EUA em primeiro lugar”, justificou Trump, ao anunciar as medidas.
“O Brasil foi menos penalizado se a gente for pensar na proporção com outros”, diz Juliane Furno, economista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A economista atenta para a forma como os cálculos foram apresentados pelo presidente estadunidense, comparando-os a uma “conta de padaria”. “Não se faz conversão cambial assim. Precisa, no mínimo, testar várias hipóteses de impacto”, pondera.
“Inclusive, isso deve ter sido fruto até de algum entendimento entre as diplomacias, que nos últimos dias se reuniram bastante”, completa Weslley Cantelmo, doutor em economia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
José Luis Oreiro, economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), considera a possibilidade de uma guerra comercial entre as potências. “Ontem a Úrsula von der Leyen, que é presidente da Comissão Europeia, disse que ia retaliar. Então, agora é aguardar o posicionamento da União Europeia”, lembra Oreiro.
Os Estados Unidos têm vantagem nas relações comerciais com o Brasil, com um superávit de mais de US$ 58 bilhões no comércio de bens e serviços entre 2019 a 2024.
Ao estabelecer a reciprocidade, o presidente estadunidense ignora o acordo estabelecido pela Organização Mundial de Comércio (OMC), pelo qual os países emergentes devem ser compensados com taxas menores.
“Ele está tratando da mesma forma países que têm uma situação estrutural totalmente diferente”, ressalta Maurício Weiss, economista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O economista avalia que nos países emergentes, como o Brasil, a reciprocidade não deve ser aplicada no mesmo nível de alíquota. “Porque realmente já está mais alta e pode tentar aumentar mais, mas é difícil essa reciprocidade, porque a taxa já está nesse patamar mais alto, que não é a situação dos países desenvolvidos”.
Consequências para o Brasil
Desde 12 de março, os EUA passaram a cobrar tarifas extras sobre a importação de aço, alumínio e outros metais. A medida afeta diretamente o Brasil, segundo maior fornecedor de aço para o país de Trump, exportando para lá cerca de 18% de todo metal que as siderúrgicas brasileiras produzem.
Agora, com a tarifa de 10% aplicada para os produtos brasileiros, o setor exportador pode levar mais um golpe. “Porque o Brasil exporta muito aço, muitos componentes do consumo intermediário das indústrias para os Estados Unidos. Então é uma tarifa menor, mas numa proporção muito maior de bens. O Brasil não tem uma pauta exportadora muito diversificada”, pondera Furno. Muitos produtos exportados pelo Brasil tinham taxa zero.
Reação oficial
Uma nota conjunta entre o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços lamentou a decisão do governo dos EUA e disse que o governo brasileiro buscará defender os interesses de produtores nacionais.
“O governo brasileiro lamenta a decisão tomada pelo governo norte-americano no dia de hoje, 2 de abril, de impor tarifas adicionais no valor de 10% a todas as exportações brasileiras para aquele país. A nova medida, como as demais tarifas já impostas aos setores de aço, alumínio e automóveis, viola os compromissos dos EUA perante a Organização Mundial do Comércio e impactará todas as exportações brasileiras de bens para os EUA”, diz o texto.
“Em defesa dos trabalhadores e das empresas brasileiros, à luz do impacto efetivo das medidas sobre as exportações brasileiras e em linha com seu tradicional apoio ao sistema multilateral de comércio, o governo do Brasil buscará, em consulta com o setor privado, defender os interesses dos produtores nacionais junto ao governo dos Estados Unidos”, segue a nota.