Durante 25 horas ininterruptas, o senador democrata Cory Brooke usou o púlpito para criticar o governo do republicano Donald Trump e quebrou o recorde de discurso mais longo no Senado dos Estados Unidos. A apresentação de Brooke superou o discurso de Strom Thurmond, da Carolina do Sul, que falou por 24 horas e 18 minutos contra a Lei dos Direitos Civis de 1957.
As regras do Senado são rígidas: o senador não pode se sentar nem fazer intervalos para ir ao banheiro. O único respiro permitido é o da voz, caso outro senador tome a palavra para fazer uma pergunta ao congressista que está no púlpito.”Levanto-me nesta noite porque acredito, sinceramente, que o nosso país está em crise”, disse ontem o senador de Nova Jersey, 55, no início do seu discurso. “Estes não são tempos normais nos Estados Unidos”, acrescentou, com a voz embargada.
Booker, um ex-candidato presidencial, começou a discursar na Câmara às 19h (20h de Brasília) da segunda-feira. Durante horas, atacou as políticas radicais de corte de gastos de Trump, que ao lado de seu principal assessor, Elon Musk, o homem mais rico do mundo, eliminou programas governamentais sem o consentimento do Congresso.
Também disse que Trump ameaça a democracia estadunidense ao acumular cada vez mais poder. “Os americanos de todas as origens enfrentam dificuldades desnecessárias”, lamentou. Além disso, algumas instituições “que são únicas em nosso país” estão sendo atacadas “de maneira imprudente e, eu diria, até mesmo inconstitucional”, avaliou.
“Em apenas 71 dias, o presidente dos Estados Unidos causou grandes danos à segurança dos americanos, à estabilidade financeira e aos alicerces da nossa democracia”, protestou. O congressista expressou preocupação de que Trump desmonte a seguridade social. “Vou lutar pelo seu seguro social”, afirmou Booker. Ele também pediu que os congressistas se unam para bloquear algumas das decisões mais agressivas de Trump.
“Como podem concordar em cortar 800 bilhões de dólares do Medicaid apenas para conceder cortes de impostos (…) que beneficiam desproporcionalmente os mais ricos?”, questionou os republicanos sobre o plano de saúde que atende milhões de americanos de baixa renda.
Se são conservadores cristãos, como podem “prejudicar os mais vulneráveis para beneficiar os ricos e poderosos?”, provocou. “Todos devemos nos levantar e dizer ‘Não’.” “Se você ama o seu próximo, se você ama este país, demonstre esse amor. Impeça-os de fazer o que estão tentando fazer”, afirmou.
Booker retomou o slogan do ex-congressista democrata John Lewis morto em 2020 ao convocar os estadunidenses a criar uma “boa desordem” na sociedade diante das políticas de Trump. Pouco antes de passar a marca das 24 horas, Cory Booker mencionou – com a voz trêmula devido à emoção e ao cansaço – Lewis, seu mentor e figura do movimento pelos direitos civis da década de 1960. Booker encerrou seu discurso às 20h05 (21h05 de Brasília).
O discurso não impediu o Partido Republicano, que tem maioria na Câmara, de realizar votações no Senado, mas serviu de inspiração para os democratas, cuja oposição ao governo tem sido até agora relativamente branda. Como não ocorreu durante a votação de um projeto de lei, tecnicamente o discurso não representou uma obstrução legislativa.No entanto, foi a primeira vez durante o mandato de Trump que os democratas atrapalharam de alguma forma o Senado.
Os congressistas do partido opositor, que estão em minoria tanto no Senado como na Câmara dos Representantes, buscam maneiras de conter os esforços de Trump para reduzir o tamanho do governo, aumentar as deportações de imigrantes e desmontar grande parte das normas políticas do país.
Booker explicou mais tarde como suportou as exigências físicas do longo discurso. “Minha estratégia foi parar de comer. Acho (que) parei de comer na sexta-feira e depois suspendi a ingestão de líquidos uma noite antes de começar”, declarou à imprensa no Capitólio.
O método “teve seus benefícios e também suas desvantagens… diferentes grupos musculares começam a sofrer cãibras pela desidratação”, acrescentou.O gabinete do senador afirmou em um comunicado que ele estava “cansado e um pouco rouco”.
*Com AFP