A história oficial do Brasil tem o costume de relegar ao esquecimento aqueles que ousaram desafiar os poderosos. Entre esses nomes está João Alfredo Dias, conhecido como Nego Fuba, um líder camponês cuja trajetória de luta foi brutalmente interrompida pelo golpe militar de 1964. Sua história, no entanto, permanece viva na memória das comunidades camponesas e deve ser resgatada para que possamos compreender a força e a importância dos movimentos sociais no campo.
Nascido em 1932, em Sapé (PB), Nego Fuba era um homem negro, sapateiro e enfermeiro, mas foi como líder das Ligas Camponesas que se tornou uma figura central na organização da luta pela reforma agrária na Paraíba. A sua atuação política ocorreu em um cenário de grande concentração fundiária e exploração dos trabalhadores rurais, muitos deles negros e descendentes de escravizados.
A luta de Nego Fuba pela terra e pela justiça social estava intrinsecamente ligada à questão racial, pois a estrutura agrária brasileira sempre foi marcada pelo racismo e pela exclusão da população negra do acesso à terra e à cidadania plena.
Os pais de Nego Fuba viveram nas terras da Taboca, em Sapé, que pertenciam ao latifundiário Renato Ribeiro Coutinho, um dos grandes proprietários de terra da região. A área era marcada pelo domínio dos latifúndios e pela exploração dos trabalhadores rurais, que viviam sob um regime de opressão e submissão. O próprio Nego Fuba cresceu em meio a esse ambiente de desigualdade extrema, o que moldou sua consciência política e seu engajamento nas Ligas Camponesas.
A história desse líder camponês também reflete o sofrimento racial vivenciado por sua família. Marina sofreu perseguições por ser irmã de Nego Fuba. Após o assassinato do irmão, ela enfrentou ainda mais discriminação e hostilidade em Sapé, o que a obrigou a se mudar para o Rio de Janeiro em busca de condições de vida dignas e oportunidades que lhe eram negadas em sua terra natal.
Junto a outros líderes, como Pedro Fazendeiro e João Pedro Teixeira, Nego Fuba ajudou a fundar a Liga Camponesa de Sapé em 1958. A sua sapataria transformou-se em um espaço de encontro e articulação, onde discursos inflamados despertavam a consciência de trabalhadores explorados pelo latifúndio. A capacidade de mobilização e oratória o tornou uma referência política para os camponeses, resultando na sua eleição para vereador em Sapé, com uma votação expressiva.
O mandato de Nego Fuba foi um símbolo da força dos trabalhadores do campo na luta institucional, demonstrando que as Ligas Camponesas não eram apenas um movimento de protesto, mas também uma força política organizada que buscava mudanças concretas.
Um exemplo emblemático desse fenômeno é o mapa eleitoral para vereador do município de Sapé na eleição de 1963. Dos 24 candidatos, 12 eram do Partido Social Democrático (PSD) e 12 da União Democrática Nacional (UDN). Dos 5.597 votos totais, 3.208 foram para a UDN e 2.307 para o PSD. O mais interessante é perceber que o quarto vereador mais votado do município foi João Alfredo, candidato pela legenda partidária do PSD, obtendo 400 votos, representando 7,43% do total. Para contextualizar, o candidato mais votado, Pedro de Sousa Coutinho, apoiado pelo latifúndio, conquistou 450 votos.
A eleição de João Alfredo como o quarto vereador mais votado sinaliza a força e a resistência dos movimentos populares e das aspirações por justiça social
Esses resultados eleitorais revelam o apoio significativo que figuras como João Alfredo, representante de um espectro mais à esquerda, podiam angariar. O fato de um candidato como Nego Fuba, com uma plataforma política de esquerda, ter obtido uma boa porcentagem dos votos para vereador mesmo com as forças opostas representadas pelos candidatos do latifúndio, mostra o contexto histórico que empurrava trabalhadores comuns na busca por transformação e mudança da realidade desigual em um momento único da história brasileira.
Por isso, vale considerar não apenas os resultados quantitativos da eleição, mas é preciso de antemão entender o significado simbólico e político dessa vitória. A eleição de João Alfredo como o quarto vereador mais votado, mesmo diante de oposição poderosa que utilizava da violência como regra, sinaliza a força e a resistência dos movimentos populares e das aspirações por justiça social e transformação social em um período de profunda transformação política no Brasil.
As páginas da história brasileira evidenciam que o mandato de João Alfredo não pôde ser cumprido, isso porque ele foi cassado com o golpe empresarial-militar de 1964, evento que aconteceu dois meses depois da sua posse em janeiro de 1964.
A influência de Nego Fuba ultrapassou as fronteiras do Brasil. Ele viajou por Cuba, União Soviética, Tchecoslováquia e China entre 1961 e 1963, estabelecendo contatos com lideranças do movimento comunista internacional. Essa atuação fez com que o regime militar o visse como uma ameaça e o incluísse na lista dos primeiros a serem perseguidos após o golpe. A repressão não tardou: Nego Fuba foi preso em 1964 e levado para o 15º Regimento de Infantaria do Exército, localizado na cidade de João Pessoa, onde permaneceu detido. No dia 2 de abril daquele ano, foi libertado, mas nunca mais voltou para casa.
Segundo a Comissão Estadual da Verdade da Paraíba, Nego Fuba foi sequestrado e assassinado sob ordens de latifundiários locais, que viam sua atuação como uma ameaça direta aos seus interesses. Tornou-se, assim, a primeira vítima da ditadura militar na Paraíba. Antes de sua execução, ele deixou registrado seu compromisso com a luta: “Se me cortarem em cinquenta pedaços, serão cinquenta pedaços de um comunista.”
A fatídica noite que se estendeu por duas décadas revelou-se fatal para João Alfredo. Apesar de ter conseguido escapar do cerco militar, refugiando-se em um sítio localizado no município de Guarabira (PB), propriedade de Dr. Alceu, um médico associado ao Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (Samdu), sua liberdade foi de curta duração.
Ao utilizar uma ambulância como meio de fuga, Alfredo foi interceptado por um comboio militar durante sua tentativa de evasão. Os médicos presentes na ambulância conseguiram dissuadir a intervenção militar ao afirmarem que o paciente transportado era uma mulher grávida prestes a dar à luz. Esse relato foi narrado por Marina Dias durante seu depoimento à Comissão Estadual da Verdade. A sorte de Alfredo viria a se esgotar dois dias depois, quando foi capturado pelas forças militares.
As circunstâncias de sua morte ilustram o caráter violento e seletivo da repressão. Nesse sentido, compartilho da análise de Dreifuss (1987), que observa: “O veredicto das urnas mostrava que a população brasileira, quando consultada, apoiava uma combinação de reformas populares sociais, de desenvolvimento nacionalista e de austeridade e eficiência administrativas.” O assassinato de Nego Fuba foi um recado claro à luta camponesa: a ditadura não hesitaria em recorrer ao terror para desmontar os avanços conquistados pelas Ligas Camponesas e seus aliados.
*Ítalo Aquino é professor de história, doutorando na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Pesquisa as relações de trabalho no campo brasileiro, especialmente na Paraíba no período de 1958-1964.
**Este texto foi baseado em um outro artigo, publicado em livro, que também é de autoria de Ítalo Aquino. Acesse aqui.
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
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