As novas tarifas impostas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a produtos estrangeiros podem representar um risco econômico para o país norte-americano e desencadear uma guerra comercial, especialmente com a China e a União Europeia. A avaliação é da professora doutora em relações internacionais Ana Carolina Marson, da Escola Paulista de Sociologia e Política (FESP-SP), que concedeu entrevista ao programa Conexão BdF, do Brasil de Fato, nesta quarta-feira (2).
Segundo a especialista, a política de protecionismo econômico do presidente pode ter efeitos negativos internos, contrariando os interesses da própria população estadunidense. “O aço e o alumínio brasileiros já estão sofrendo tarifas de 25%. Ele [Trump] vem promovendo essa política baseado no argumento de que é uma medida para a proteção da indústria nacional, mas existem inconsistências nesse argumento”, explicou Marson. Para ela, os impactos negativos da medida podem ser sentidos rapidamente, já que diversos setores da indústria dos EUA dependem de matérias-primas importadas, que agora terão custos mais altos.
A professora alertou que, ao encarecer a produção industrial, as tarifas podem ainda elevar os preços para os consumidores e pressionar a inflação no país. “Matérias-primas vão ficar mais caras, produtos para consumidores também. Então pode ser um processo complicado internamente para os EUA”, afirmou. Segundo ela, essa política protecionista pode, a curto prazo, elevar o nível de empregos, mas, a médio e longo prazos, gerar uma série de dificuldades econômicas.
Além disso, a especialista chamou atenção para o risco de retaliações comerciais. “Caso os EUA sigam com esse tarifaço e imponham tarifas diretamente a produtos chineses ou da União Europeia, acredito que esses países vão querer retaliar, colocando barreiras tarifárias. Isso pode gerar um aumento da inflação e um possível desabastecimento interno de produtos”, alertou.
O Brasil na disputa comercial
A política tarifária de Trump também atinge diretamente o Brasil, que já sofre com as taxas sobre o aço e o alumínio. Além disso, um documento divulgado recentemente pelo governo estadunidense menciona o país em seis páginas, citando tarifas brasileiras sobre filmes de Hollywood, carnes suínas e o etanol.
Diante desse cenário, Marson defende uma resposta firme do Brasil para proteger sua indústria nacional. “Se o Brasil não tomar uma postura defensiva, nossa indústria pode sofrer bastante. Nosso parque industrial ainda é atrasado em relação aos EUA. Essa defesa do governo brasileiro e o Projeto de Lei da Reciprocidade em tramitação no Congresso são fundamentais para que o Brasil consiga proteger seus interesses no mercado internacional frente aos Estados Unidos”, avaliou.
A especialista destacou que a postura protecionista de Trump não é novidade e já era uma promessa de campanha. No entanto, ela lembra que esse tipo de estratégia econômica pode ter um efeito contrário ao esperado. “Quem votou nele queria que o governo se voltasse para questões internas, mas não com consequências tão severas para a própria população”, concluiu.
Para ouvir e assistir
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