A Rocinha, na zona sul do Rio, é o bairro com mais casas em perigo de serem atingidas por deslizamentos devido a chuvas extremas. São pelo menos 11 mil domicílios. Desses, 1,4 mil em risco muito alto, o que combina fatores ambientais e sociais.
Os dados foram revelados na última quarta-feira (2) no estudo inédito Rio 60° C, desenvolvido pela Ambiental Media em parceria com o grupo de pesquisa RioNowcast+Green, do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Pela primeira vez, o índice combina dados de suscetibilidade a deslizamentos e inundações com indicadores socioeconômicos para mapear a vulnerabilidade a chuvas fortes no município do Rio. Os dados foram organizados em duas camadas de indicadores principais: suscetibilidade ambiental e vulnerabilidade socioeconômica.
Quase 600 mil casa na cidade do Rio – 20% do total de residências – estão localizadas em regiões de alta vulnerabilidade para desastres em chuvas extremas. Dessas, 142 mil apresentam vulnerabilidade muito alta, sendo 131 mil para inundações e 10 mil a deslizamentos.
Segundo o Serviço Geológico Brasileiro (SGB), 18% do município está em área com algum risco de deslizamento. Para desastres relacionados a esse fenômeno, o estudo Rio 60° C aponta 70 mil moradias em situação de alta vulnerabilidade.
No complexo de favelas Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, em Copacabana, 3 mil moradias (62%) estão em alta vulnerabilidade a esse fenômeno, 899 em muito alta. Na zona norte, a Mangueira soma 1,6 mil residências em áreas de risco.
Já Morro dos Prazeres, no maciço da Tijuca, o índice aponta 532 domicílios – 31% do total – em alta vulnerabilidade, dos quais 222 em muito alta. Em 2010, uma chuva causou deslizamentos que mataram 34 pessoas.
Chuvas extremas e inundações
O índice, que leva em conta indicadores socioeconômicos e de risco geológico, aponta que há 530 mil domicílios em locais de alta vulnerabilidade para inundações. De toda a área do município, 24% está sob perigo elevado ou médio desse evento.
O rio Acari corta as zonas oeste e norte da cidade até se juntar ao rio Pavuna e formar o São João do Meriti, que deságua na baía de Guanabara. No seu percurso, corta bairros e favelas como Acari, Pavuna e Irajá, na zona norte.
As fortes chuvas de janeiro de 2024 resultaram na morte de quatro pessoas e danificaram pelo menos 20 mil casas nos três bairros. Mais de 12 mil pessoas tiveram que deixar suas casas em todo o estado devido às chuvas de janeiro de ano passado.
Segundo a pesquisa Rio 60º C, Acari, Pavuna e Irajá somam 31,3 mil residências em alta vulnerabilidade para inundações, sendo 7,5 mil delas em muito alta.
Outros bairros que mais sofrem historicamente com enchentes são o loteamento Jardim Maravilha, em Guaratiba, com 61% das residências em alta vulnerabilidade; o Complexo da Maré, no Parque União; e em Sepetiba. O projeto chama atenção para a zona oeste, onde não há sirenes de alerta para chuva forte ou risco de deslizamentos e muitos vivem em encostas.
Para reduzir o impacto das chuvas extremas – cada vez mais frequentes – o projeto Rio 60º C propõe uma série de medidas para reduzir os riscos de desastres na cidade. Entre elas, a instalação de estações meteorológicas e pluviômetros para antecipar as tempestades, criação de parque alagáveis, sistemas de drenagem, arborização, dragagem dos rios e ampliação do sistema de sirenes de alerta.
Em todo o estado do Rio, em torno de 3 milhões de pessoas foram impactadas por tragédias climáticas, entre 2020 e 2023, segundo a Casa Fluminense. O número inclui 140 mortes, 1.942 enfermos, 8.813 desabrigados, 145.077 desalojados e 229 desaparecidos. Em perdas materiais, 94.919 unidades habitacionais foram danificadas e outras 887 destruídas, um prejuízo estimado em R$ 1,1 bilhão.