Em um mundo com o debate público marcado por desinformação e estereótipos, a construção de uma comunicação antirracista tem papel cada vez mais crucial. Esse é o ponto chave do novo livro da jornalista Midiã Noelle, lançado em Brasília nesta quarta-feira (2): Comunicação Antirracista: um guia para se comunicar com todas as pessoas, em todos os lugares.
Em entrevista ao Brasil de Fato DF, Midiã falou dos desafios para a comunicação e a democracia em tempos de simbiose entre o humano e a tecnologia. Para a autora, a comunicação só será antirracista de fato, se também for “anti-punitivista, anti-proibicionista e anti-capacitista”.
“Não existe uma outra possibilidade pra gente evoluir enquanto sociedade no Brasil, se não for a partir do enfrentamento ao racismo e do reconhecimento do racismo como grande entrave pra democracia. Praticar a comunicação antirracista é lutar para a efetivação da democracia e o enfrentamento às injustiças sociorraciais”, destaca a jornalista.
O livro é um convite para refletir sobre a comunicação pautada pela justiça racial para além das redações de jornais, nas práticas do dia a dia. “Mais do que nunca a gente está nesse momento de entender que a comunicação antirracista também é combater desinformação, é combater fake news, é fortalecer os direitos das pessoas que são enganadas de forma muito fácil. Eu acho que é um momento estratégico pra gente fazer esse embate”, defende a autora.
Midiã Noelle é jornalista e mestra em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia e fundadora do Instituto Comunicação, Inovação, Raça e Etnia (Commbne). Além do trabalho em redações de jornais, Midiã também já atuou na Organização das Nações Unidas, na construção de políticas públicas e em organizações da sociedade civil, como a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas. Todas essas experiências confluem no conceito de comunicação antirracista que a escritora descreve na obra.

Confira, abaixo, a entrevista completa de Midiã Noelle ao Brasil de Fato DF.
Brasil de Fato DF – Como surgiu a ideia para o livro e como foi o processo de criação?
Midiã Noelle – Tenho 16 anos de carreira na área da comunicação e venho atuando com a pauta da equidade racial há bastante tempo, então desenvolvi uma perspectiva sobre a comunicação antirracista como sendo a possibilidade de uma luta para restituir a humanidade da população negra. Ou seja, a comunicação como essa grande estratégia para restituir o reconhecimento da humanidade da população negra brasileira, a partir da desconstrução desse lugar que a gente teve no processo de escravização de pessoas negras no Brasil.
Ao longo do tempo, trabalhei não só com jornalismo diário, mas também nas Nações Unidas, com midiativismo, movimentos sociais, governo e administração pública. Assim, desenvolvi uma teoria de que a comunicação só pode ser de fato antirracista, se ela for anti-punitivista, anti-proibicionista e anti-capacitista.
Porque você promove uma comunicação antirracista, que garante dignidade às pessoas negras, a partir do campo daquelas pessoas que mais precisam e que enfrentam as intersecções, os encontros e as conexões das desigualdades. Ao longo da minha vida, eu percebi isso nos meus lugares de atuação. Além de trabalhar na construção de políticas públicas, também trabalhei no chão, na rua. Trabalhei com população em contexto de rua durante quatro anos em um programa chamado Corra pro Abraço e depois também trabalhei, ainda no âmbito da política de drogas e da redução de danos, numa organização chamada Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas .
E tudo aquilo que eu já tinha aprendido sobre o racismo ao longo do meu trabalho, consegui entender melhor a partir desses espaços. Porque a gente retratava e contava a vida das pessoas em contexto de rua a partir daquele lugar que elas eram invisibilizadas e a gente trazia essa luz para a visibilização, ou seja, para mostrar que as pessoas em contexto de rua, na Bahia, em sua maioria negras, tinham nome, sobrenome, história e trajetória.
Costuro nesse livro um pouco da história da minha vida, com minha história de trabalho e vou trazendo numa leitura afetuosa, de diálogo, mas também trazendo as muitas referências acadêmicas do meu mestrado em Cultura. Faço essa conexão de cultura com comunicação e educação.
É um livro de fato marcado a partir da lógica do afeto, para que as pessoas, a partir dos oito capítulos possam começar a entender o que é a comunicação antirracista e como que ela se forma, a partir de um olhar ancestral, mas também de um legado familiar, e se encontra nas práticas cotidianas para todas as pessoas, sejam elas profissionalizadas – jornalistas, relações públicas, publicitários – ou não, porque a comunicação serve para todo mundo todos os dias. O estabelecimento da linguagem, da linguística, do diálogo é para todas as pessoas.
O livro pretende ir além das redações de jornais e chegar a toda a sociedade promovendo uma comunicação baseada na justiça racial. O que seria isso?
Vivemos numa sociedade que foi construída numa lógica de objetificação e de coisificação do corpo das pessoas negras. Há mais ou menos 140 anos, mais precisamente há 138 anos, as pessoas negras eram coisificadas, objetificadas. Hoje, conseguimos entender que, a partir da compreensão de que pessoas negras são pessoas, a partir do olhar de que pessoas negras precisam ser respeitadas na sua lógica histórica, na sua base, na sua vida, é muito importante esse reconhecimento da humanidade de pessoas negras a partir da comunicação.
O livro também fala de uma necessidade de ressignificar a produção de informação. Como seria essa ressignificação?
É ressignificar o processo da construção do sentido. Por exemplo se te perguntarem ‘Qual a imagem de uma pessoa acusada de tráfico?’. Há um estereótipo. Quando te perguntarem ‘Qual a imagem de uma pessoa presidente do país?’. Também há um estereótipo. Tudo isso é construção social que se dá a partir da lógica da imagem e da representação, daquilo que a sociedade constrói como o lugar de cada pessoa. Então, a comunicação tem que desfazer isso. Desconstruir uma perspectiva imposta para construir novas narrativas e reconstruir olhares.
É como se a gente descortinasse o nosso nosso olhar. É como se a gente tirasse barreiras do olhar. Costumo dizer que quem entende a comunicação antirracista, é como se tomasse a pílula de Matrix. Porque não existe uma outra possibilidade pra evoluirmos enquanto sociedade no Brasil, se não for a partir do enfrentamento ao racismo e do reconhecimento do racismo como grande entrave para a democracia.
Praticar a comunicação antirracista é lutar para a efetivação da democracia e o enfrentamento às injustiças sociorraciais.
Qual a importância de discutirmos a comunicação antirracista no contexto político atual?
Nunca existiu um momento de trégua. Tem avanços e retrocessos. Estamos vivendo hoje um momento muito impactante, inclusive, por essa questão da regulação das plataformas digitais, o impacto que as plataformas digitais tem no nosso dia a dia. Estamos vivendo a partir de uma nova lógica, a lógica dessa simbiose que temos com as tecnologias.
Mesmo essas questões que estão sendo vivenciadas nos Estados Unidos, e como isso nos impacta globalmente, mais do que nunca as pautas voltadas para fortalecer direitos de pessoas negras, que são essas pessoas que precisam ter também, eu acho importante frisar: um conhecimento maior sobre letramento digital, letramento racial e educação midiática para poder combater a desinformação.
Mais do que nunca a gente está nesse momento de entender que a comunicação antirracista também é combater desinformação, é combater fake news, é fortalecer os direitos das pessoas que são enganadas de forma muito fácil. Acredito que é um momento estratégico para fazermos esse embate.

Serviço
Livro Comunicação Antirracista: um guia para se comunicar com todas as pessoas, em todos os lugares
Autora: Midiã Noelle | Páginas: 192 | Preço: R$ 56,90 | Editora: Planeta