Após quase um ano da enchente de 2024, Canoas ainda não apresentou soluções concretas para as famílias atingidas. Antiga moradora do bairro Rio Branco, Milene Bertol, 38 anos, mãe solo de três filhos, perdeu sua casa no desastre e desde então segue vivendo em Centros Humanitários de Acolhimento (CHAs) do município.
De julho a dezembro de 2024, esteve no CHA Recomeço e, com o fechamento do local, foi transferida para o CHA Esperança, onde mora há quatro meses. No entanto, esse espaço também está prestes a ser desativado, deixando-a sem perspectiva de moradia. Enquanto isso, Milene aguarda o cumprimento da promessa da Prefeitura Municipal de Canoas e do governo do estado sobre a entrega de casas provisórias e definitivas.

No dia 12 de fevereiro, a prefeitura de Canoas anunciou a construção de 58 habitações no bairro Estância Velha. Nesta quarta-feira (2), a equipe do Brasil de Fato RS visitou o local para verificar o andamento das obras. Conforme a apuração, as unidades já estão montadas e mobiliadas, contendo itens essenciais como cama, roupeiro, sofá, mesa, pia, fogão, geladeira e banheiro completo. Apesar disso, Milene Bertol denuncia que nenhuma das famílias que aguardam moradia no CHA foi contatada para se mudar para as residências.
Além disso, o local da construção das habitações enfrenta problemas de segurança. Embora tenha a presença de um ônibus da Guarda Civil Municipal de Canoas, não há monitoramento contínuo, permitindo livre acesso ao espaço. Não há sequer tapumes delimitando o entorno da construção.
Algumas das unidades estão, inclusive, com fechaduras abertas e vidro de janela quebrado, o que aumenta o risco de furtos e invasões. “Até marca de pé no chão tem. Vão esperar o quê? Alguém invadir pra depois mandar as famílias pra cá?”, questiona Milene.
O sentimento de abandono por parte do poder público é constante entre os atingidos. “Aqui em Canoas tu não ganha nem provisória nem definitiva. O prefeito, tu nem sabe por onde ele anda. Parece que não existe prefeito, não existe governador. Estamos nesse abandono há quase um ano e nenhuma posição, nenhum retorno”, desabafa.
Para Milene, mesmo sem a garantia de uma moradia definitiva, as casas provisórias ainda seriam um avanço em relação aos CHAs. “Eu prefiro até vir para cá do que estar em um Centro Humanitário, porque é um espaço privado da gente. É um banheiro que só a tua família vai usar, tu vai fazer a tua comida. Não é nosso, mas é mais reservado”, explica.
No CHA, a rotina é regrada e limita a autonomia das famílias. “É muito ruim tu ter que compartilhar banheiro, não ter a possibilidade de fazer a comida que quer comer. Tem horário. Se teu filho quiser comer fora do horário, tu não pode dar porque não é tua casa. Minha menina chega com fome da escola e não pode lanchar porque já passou o horário do lanche.”
O BdF RS entrou em contato com a prefeitura de Canoas e o governo do estado para esclarecer quais são os impedimentos para que as famílias que vivem no CHA sejam realocadas para as casas provisórias, além de questionar quais medidas estão sendo adotadas para garantir a segurança no local. A Secretaria Estadual de Habitação e Regularização Fundiária (Sehab) enviou uma nota. O espaço permanece aberto para a posição da Prefeitura Municipal de Canoas.
Leia na íntegra a nota da Secretaria de Habitação e Regularização Fundiária (Sehab)
“Os módulos habitacionais já foram instalados no terreno, e, no momento, a infraestrutura necessária está em processo de implementação. A Prefeitura é responsável por serviços como energia elétrica, saneamento (fossa e filtro) e rede de abastecimento de água. Somente após a conclusão dessa etapa, as casas serão mobiliadas e as chaves entregues às famílias designadas. A seleção das famílias beneficiadas é de competência da Prefeitura. Quanto à segurança do local, a Sehab informou que essa também é uma responsabilidade municipal. A secretaria afirmou não ter recebido relatos de depredação até o momento, mas solicitou ao secretário municipal de Habitação de Canoas uma atualização sobre possíveis ocorrências.”
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