A peça Júpiter e a Gaivota – É Impossível Viver Sem o Teatro, que está na Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba, propõe uma releitura feminista de A Gaivota, clássico do russo Anton Tchekhov. A montagem da Cia. Setor de Áreas Isoladas, de Brasília, amplia o protagonismo feminino e questiona relações de poder, sendo alvo de censura na Rússia de Vladimir Putin.
Na trama original, escrita em 1895, a jovem Nina é comparada a uma gaivota livre, até ser destruída por um homem. Para a dramaturga e diretora Ada Luana, essa dinâmica ainda ecoa na sociedade atual. “Na minha versão, as personagens femininas crescem e, em muitos momentos, roubam o protagonismo dos homens”, afirma. “Quis tirar a rivalidade de cena e buscar elos de sororidade. O final está diferente: não se pode dizer que as mulheres terminam felizes, mas pelo menos estão livres.”
O “Júpiter” do título faz referência ao poder patriarcal, um dos eixos críticos da peça. Outra inovação é a inserção de monólogos inspirados em autoras como Virginia Woolf e Hélène Cixous, cuja obra O Riso da Medusa (1975) questiona a hegemonia masculina na literatura. “Foi desafiador reescrever Tchekhov. Tive medo”, confessa Ada Luana, que já havia trabalhado em uma releitura de As Três Irmãs. “Para nós, mulheres, é ainda mais difícil mexer em um clássico, porque escrevemos a partir de uma tradição totalmente masculina.”
A montagem estreou no Teatro Alexandrinsky, em São Petersburgo, o mesmo onde Tchekhov apresentou A Gaivota pela primeira vez, em 1896. A recepção da releitura, no entanto, foi conturbada. Ada Luana conta que um jornalista a submeteu a uma sabatina, questionando por que havia transformado os homens da peça em “maus-caráteres” e por que usava Tchekhov para falar de feminismo. “Acho que o Trigorin era o ídolo dele”, ironiza a diretora. “Tudo o que fiz foi colocar uma lente de aumento sobre aquelas relações.”
A peça também enfrentou censura por uma cena de nudez e pelo figurino, considerado inadequado pelas autoridades russas, sob a justificativa de que violava uma lei contra “apologia ao transgênero”. A tradução precisou atenuar referências a genitais femininos em um dos monólogos. “Apesar de tudo, mulheres vinham falar comigo depois das apresentações”, conta Ada Luana. “As funcionárias do teatro também ajudavam da forma que podiam. Eu sabia que estavam se arriscando ali.”
Apresentada por Petrobras, Sanepar, Caixa e prefeitura de Curitiba, a Mostra Lucia Camargo integra a 33ª edição do Festival de Curitiba, que ocorre de 24 de março a 6 de abril, com cerca de 350 atrações em mais de 70 espaços da capital paranaense e região metropolitana.
Serviço
Júpiter e a Gaivota – É Impossível Viver Sem o Teatro
Datas: 3 e 4 de abril
Horário: 20h30
Local: Teatro Guairinha – Curitiba (PR)
Ingressos: De gratuitos a R$85,00 (+ taxas)
Classificação: 16 anos
Duração: 210 min (com intervalo de 15 min)