O analista geopolítico Arturo Hartmann avaliou, durante o programa Conexão BDF, do Brasil de Fato, nesta quinta-feira (3), que a expansão da ofensiva de Israel na Faixa de Gaza tem um componente fundamental além das questões militares: a sobrevivência política do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Israel anunciou recentemente a ampliação dos ataques terrestres no enclave palestino, justamente após um período em que parecia haver a possibilidade de um cessar-fogo. Para Hartmann, pesquisador do Centro Internacional de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Federal de Sergipe (CEAI-UFS), a escalada militar não pode ser dissociada dos interesses pessoais de Netanyahu.
“O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu precisa mostrar vitórias políticas e não pode permitir que avancem os processos de corrupção contra ele. Ele leva adiante um genocídio, mas é questionado internamente por outras questões: se os ataques a Gaza cessarem, isso se torna um problema para ele”, afirmou o especialista.
Desde que voltou ao cargo em 2022, Netanyahu tem sido alvo de protestos e críticas dentro de Israel. Sua gestão tem sido marcada por tentativas de reformar o sistema judicial para enfraquecer órgãos que poderiam responsabilizá-lo criminalmente. Ao manter a ofensiva militar, ele consegue manter a narrativa de “governante forte” e mobilizar apoio de setores conservadores e ultranacionalistas.
“Há a normalização da política israelense de extermínio em massa como estratégia de Estado. Isso ocorre tanto pelo projeto expansionista de Israel quanto pelos desafios políticos imediatos de Netanyahu. Ele utiliza essa ofensiva como tática para se manter no poder, pois, sem ela, sua carreira pode sofrer um grande impacto, inclusive dentro da própria política israelense”, reforçou Hartmann.
A estratégia de Netanyahu também passa por alianças internacionais. Ele busca apoio de governos de extrema direita, como o do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, que se opõe à Corte Penal Internacional e rejeita punições contra Israel. Ao mesmo tempo, conta com o financiamento militar dos Estados Unidos para sustentar a ofensiva.
Cessar-fogo mais distante
A escalada militar das últimas semanas mostra que Israel não está disposto a aceitar um cessar-fogo. De acordo com Hartmann, uma das razões para o Hamas ter recusado a contraproposta israelense nas negociações de paz foi o fato de que, mesmo durante as tratativas, Israel manteve e ampliou suas operações militares.
“O governo israelense apresenta uma proposta de cessar-fogo enquanto engasga militarmente o território palestino. Isso não atinge apenas o Hamas, mas toda a população palestina, que já enfrenta graves problemas de acesso a comida e outros suprimentos básicos”, afirmou.
Na madrugada desta quinta-feira, ao menos 62 palestinos foram mortos em novos bombardeios. Desde a escalada dos ataques, em outubro de 2023, mais de 32 mil palestinos já foram assassinados, a maioria mulheres e crianças, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
Destuir o Hamas é inviável
Apesar das declarações do governo israelense sobre a destruição total do Hamas, especialistas apontam que isso não é possível na prática.
“Estudos sobre guerrilhas mostram que destruir o Hamas é inviável”, afirmou Hartmann. “O grupo elabora sua organização geográfica de forma a fragmentar e distribuir seus membros, justamente para evitar ser dizimado por uma força militar muito maior.”
O pesquisador destacou que, por trás da retórica israelense de erradicar o Hamas, há outro objetivo real do governo de Netanyahu. “O que Netanyahu realmente quer não é destruir apenas o Hamas, mas acabar com qualquer resistência palestina”, observou.
Apoio internacional e impunidade
Mesmo com denúncias de crimes de guerra e genocídio, Israel segue recebendo apoio político e financeiro de potências ocidentais, em especial dos Estados Unidos. “Genocídio é crime, ocupação militar é crime. Mas Israel leva adiante esses crimes há anos sem ser sancionado. Pelo contrário: eles são financiados, especialmente pelos EUA, mas também pela comunidade internacional de alguma forma”, afirmou o pesquisador.
Segundo Hartmann, a aplicação do direito internacional depende de vontade política. Ele comparou a falta de sanções a Israel com a forma como outros países são punidos. “Se querem punir o Irã, como os EUA fazem, criam sanções. Com Cuba, é de um jeito; com Irã e Rússia, de outro; com países africanos, outro ainda. Mas nada acontece com Israel”, destacou.
A Hungria, governada pelo ultradireitista Viktor Orbán, tem sido uma das vozes mais ativas na defesa de Israel e na recusa de qualquer punição internacional. “O que Orbán faz é rejeitar a legitimidade da Corte Criminal Internacional. Existe uma luta retórica no campo da política, porque, apesar das normas internacionais, a punição de Israel entra no cerne do problema geopolítico global”, afirmou Hartmann.
Anexação de territórios é ilegal
Os territórios palestinos ocupados por Israel, tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, são reconhecidos como ocupação militar ilegal pelo direito internacional. A Convenção de Genebra proíbe a anexação de territórios por conquista, uma norma que Israel tem ignorado desde 1967. “Israel não pode anexar territórios pela força, isso é proibido pelo direito internacional. Mas, para que essa regra seja aplicada, é preciso haver vontade política para sancionar Israel – o que não acontece”, afirmou Hartmann.
Enquanto Netanyahu mantém sua ofensiva, países como a África do Sul tentam responsabilizar Israel por genocídio na Corte Internacional de Justiça. No entanto, aliados estratégicos de Tel Aviv continuam bloqueando ações efetivas contra o país.
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