O Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em Porto Alegre, recebe a partir deste sábado (5) a exposição Kya – Tramas, Teias e Redes Guarani Mbya e Jurua, aberta ao público com entrada gratuita até agosto de 2025. A mostra propõe um mergulho nas conexões entre arte, espiritualidade e resistência dos povos originários, reunindo obras e experiências de artistas indígenas e não indígenas.
Com curadoria do artista e pesquisador Lucas Icó, a exposição é fruto de uma construção coletiva com o grupo de Artistas e Artesãos da Tekoa Anhetengua, da Lomba do Pinheiro, zona leste de Porto Alegre. “Kya”, palavra guarani que significa “rede” ou “teia”, simboliza os encontros e intercâmbios de saberes entre diferentes mundos.
A exposição inclui redes artesanais confeccionadas com fibras naturais de guajuvira e algodão, fruto de oficinas de tecelagem ministradas por Rubén Franco com participação de tecelões guarani e jurua. Também apresenta esculturas em barro que representam animais da mata, murais feitos com pigmentos naturais da terra, fotografias de Vherá Poty com o fotógrafo gaúcho Danilo Christidis e instalações audiovisuais a partir do média-metragem Guata (2022), com direção de Jorge Morinico e João Maurício Farias, que trata do caminhar como prática existencial e cosmopolítica dos Guarani.

Arte contra o apagamento
Enfermeira, artesã e pesquisadora da mostra, Araci da Silva destaca o papel da arte guarani como forma de resistência e educação. “A arte é um instrumento importante para reafirmarmos nossa identidade e lutar contra a discriminação e a tentativa do apagamento cultural. Ela tem sido usada como uma ferramenta educativa para promover o respeito e a compreensão das culturas originárias.”
Araci enfatiza ainda o simbolismo espiritual presente nas obras da exposição, como os “bichinhos de madeira” produzidos pela comunidade Mbya. “Nossa arte é repleta de significados espirituais e corpos, muitas vezes representando mitos, rituais e a relação com a natureza… Sabíamos que a flora e a fauna iriam perecer e que muitos de nossos filhos não iriam chegar a conhecer os animais que existiam na terra, então surgiu a produção dos bichinhos de madeira que fazemos para mostrar os animais existentes antes de sua extinção.”
Outro tema central abordado na mostra é a valorização do sagrado feminino por meio do artesanato indígena. Segundo Araci, o simbolismo das cestas guarani revela a diversidade dos corpos e a origem da mulher segundo a cosmologia Mbya. “O valor simbólico das cestas está conectado com a história da criação das mulheres no mundo. Deus Nhanderu criou as mulheres a partir de um cesto… As cestas são de todas as cores, etnias e formas: altas, baixas, gordas, magras e até grávidas, como as cestas ‘barrigudinhas’.”
Mostra traz diversas atividades
A exposição é resultado de uma trajetória iniciada em 2020 com o grupo da Tekoa Anhetengua e se integra à pesquisa de doutorado de Lucas Icó no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Ufrgs. Durante o período da mostra, o público poderá participar de rodas de conversa, oficinas, visitas mediadas e outras atividades formativas.
Kya – Tramas, Teias e Redes Guarani Mbya e Jurua também oferece um espaço de consulta a referências bibliográficas e um mapeamento interativo da cidade como território indígena, conduzido por Laercio Karaí, João Maurício Farias e Guilherme Maffei. Um catálogo será lançado ao final da exposição, reunindo registros das experiências vividas.
Mais do que exibir obras, Kya propõe um gesto de escuta, respeito e coexistência entre diferentes modos de vida, convidando o público a reconhecer e valorizar a presença viva dos povos originários nos territórios urbanos. Com entrada franca, a exposição pode ser visitada a partir do dia 5, de segunda a sexta, das 9h às 18h, na Av. Osvaldo Aranha, 277 – Campus Centro, até 8 de agosto.
