A busca por melhores oportunidades de vida é o que motiva muitos bolivianos a cruzarem a fronteira com o Brasil. Mas a chegada nem sempre é acolhedora. Lizeth Condore e Elias Escobar deixaram a Bolívia através de uma agência de empregos em Cochabamba. Ela, com 19 anos, grávida do primeiro filho. Ele, com 21. Os dois à procura de trabalho. Entraram no Brasil por Corumbá (MS). De lá, seguiram até uma oficina de costura, em Guarulhos (SP) após uma contratação previamente acordada.
Nos primeiros dias, Lizeth conta que foram bem tratados, mas, com o tempo, começaram as violações. “Nos finais de semana não nos deixavam sair. De segunda a sexta, tampouco. Nem sequer nos deixavam ir ao supermercado. E nós queríamos saber onde era a Rua Coimbra porque lá há muitos bolivianos, não é? Mas disseram que não era para ir para lá, que era um lugar ruim”, relembra Condore.
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O casal, que não sabia costurar antes de chegar ao Brasil, passou a ter que fazer mil peças por semana. O empregador também começou a descontar diversos valores dos salários, como as passagens, as taxas da agência de viagem, internet, água e até a luz. Dos R$ 1.500 mensais prometidos no contrato assinado, Lizeth e Elias não recebiam nada.
“Trabalhávamos a partir das 7h. Às 6h30 da manhã, o senhor vinha nos acordar e trabalhávamos até às 23h, meia-noite. Ás vezes até à 1h. Isso já era um trabalho escravo”, descreve Escobar ao Bem Viver na TV, programa do Brasil de Fato.
“Queríamos ir à polícia, mas tínhamos medo porque nós estávamos ilegais, sem documentos”, completa o jovem boliviano.
No entanto, após as dificuldades, o jovem casal encontrou um caminho de esperança no Brasil. Um lugar onde histórias de vulnerabilidade, como a deles, podem ser reconstruídas. Este é o Instituto Linhas Divinas, que, desde 2022, já acolheu 37 vítimas de trabalho análogo a escravidão. O local fica na Vila Prudente, zona Leste de São Paulo.
Elias conta o que mudou. “Não tínhamos liberdade. Digamos que nossa vida era da cama para a máquina, da máquina para a cama. Aqui já podemos ter mais tempo, até para os nossos filhos”, coloca.
O espaço foi idealizado pela empreendedora Maria Nina Siñani. Ao chegar no Brasil, em 2010, a boliviana viveu e trabalhou em condições insalubres por quase um ano até o momento em que conseguiu abrir sua própria oficina de costura, na capital paulista.
Nesse caminho, conheceu outros conterrâneos que passaram por experiências semelhantes. Essa vivência e o desejo de que outras pessoas não sofressem a mesma realidade a motivaram a ajudar.
No princípio, a intenção do instituto era orientar imigrantes em relação à documentação e compartilhar informações sobre cursos e projetos que ofereciam bolsas de estudo. Com o tempo, Nina percebeu a necessidade de incluir o ensino de português e, sobretudo, de oferecer moradia às vítimas de exploração laboral.
“Decidimos trazer as pessoas para morar com nós. Demos moradia e tentamos capacitá-las da melhor maneira. Primeiro, orientando a se documentar, segundo, compartilhando cursos de capacitação e, terceiro, com o idioma, tentando ensinar o pouco que sabíamos do português. Precisávamos curar, sarar aquelas feridas e tentar mitigar aquela dor, aquelas mágoas das pessoas que chegavam”, explica Nina.
Terceira turma
A casa hoje conta com quartos equipados com televisão, geladeira, armários e uma sala onde todos se reúnem para assistir a jogos de futebol, filmes, e interagir.
No momento, está em curso a terceira turma de imigrantes acolhidos. Eles permanecem vivendo e aprendendo no espaço até terem condições de alugar outro local. Cada um permanece em média de seis meses a um ano por ali. Nina conta que o instituto supre lacunas deixadas pela falta de suporte adequado tanto do governo boliviano quanto do brasileiro.
“Se para validar um título profissional demora cinco anos, imagina a pessoa quando chegar ter que gastar quase mil reais para se documentar, então nós corremos atrás disso, tentando fazer com que eles consigam um trabalho para conseguir poupar e pagar essa documentação. Enquanto isso, oferecemos moradia, alimentação e todos os serviços básicos, porque, infelizmente, estamos abandonados pelo nosso governo”, lamenta Nina.
Quebra de esteriótipos
Para Carolina Balthazar, o instituto tem sido importante para recuperar sua autoestima. Ela chegou em São Paulo há quatro anos, após o negócio de venda de sal que tinha na Bolívia falir. Antes de viajar, foi prometido a ela um salário de R$ 2.000. Mas passou um ano trabalhando em uma oficina ganhando cerca de R$ 700 por mês.
Quando engravidou, Carolina conta que o comportamento do empregador mudou drasticamente. Foi afastada da costura e passou a trabalhar até às 3h da manhã em uma cozinha. Com sete meses de gestação, ela e o marido foram expulsos do local sem receber os R$ 7 mil a que tinham direito. Da rua, com todas as malas, os dois foram recebidos no Linhas Divinas.
“Todos são muito bons com a gente. Aqui mudou todo o trato, todo. Aqui minha filha pode brincar, já não está trancada. Minha pequena aqui conhece os outros meninos, as outras meninas. Somos muitos”, conta Carolina.
“Meu desejo é que outros bolivianos conheçam o trabalho da Nina, do instituto. Hoje, desejo que se expanda para todo mundo, que essa casa cresça, porque é muito amável, é muito acolhedor esse lugar. No trabalho, nos entende, se estamos doentes, nos ajuda. Também com os documentos, somos ajudados. Tudo está bem agora, tudo”, completa a boliviana.
A quebra de estereótipos negativos associados aos imigrantes bolivianos é outra das missões centrais do instituto. Para Nina e quem vive por lá, é preciso combater o estigma de que toda a comunidade boliviana é explorada e trabalha com a costura.
“Estamos tentando mostrar que a Bolívia não é apenas a costura. Somas pessoas que temos talentos, profissões, somos pessoas que podemos chegar a qualquer lugar que queremos”, finaliza Nina.
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