CIDADE VULNERÁVEL

Um ano após a enchente em Porto Alegre: o que (não) foi feito?

A tragédia climática de 2024 escancarou a negligência do poder público; hoje, permanece a dor, e as soluções não vieram

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Após a enchente, população deixou recado nos entulhos | Crédito: Foto: Rafa Dotti

Neste mês de maio, Porto Alegre relembra a maior tragédia climática de sua história recente. Há um ano, uma enchente sem precedentes atingiu 46 bairros da capital gaúcha, afetando diretamente mais de 157 mil pessoas. No bairro Sarandi, o mais atingido, aproximadamente 8 mil edificações foram danificadas.

A tragédia vivida pela capital foi apenas parte de um desastre muito maior. Em todo o Rio Grande do Sul, mais de 90% dos municípios foram afetados pelas chuvas intensas de maio de 2024. Cidades inteiras, como Roca Sales, Muçum e Encantado, foram praticamente varridas pela força das águas, com casas destruídas, pontes arrastadas e comunidades isoladas por dias.

O número de mortos superou a marca de 180 pessoas, enquanto milhares ficaram desalojadas. Foi o maior desastre ambiental da história do estado, evidenciando não apenas a vulnerabilidade das infraestruturas urbanas e rurais, mas também o despreparo do governo Leite e dos prefeitos para lidar com eventos extremos cada vez mais frequentes em razão da crise climática.

Um ano depois, a pergunta permanece: o que foi feito desde então para proteger a cidade e sua população?

Sinais ignorados, alertas desprezados

Antes da tragédia, técnicos do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) alertaram sobre o estado precário das casas de bombas de Porto Alegre, fundamentais para escoar a água da chuva. Ignorar esses alertas foi uma escolha do prefeito Sebastião Melo. E as consequências, como sabemos, foram trágicas.

Neste ano, quando a cidade enfrentou mais um episódio de cheias, o prefeito Melo embarcava para a Holanda em busca de inspiração, desprezando mais uma vez o conhecimento técnico e científico que já existia aqui.

Memórias jogadas fora

No Sarandi, Laura, mãe solo, autista e estudante de música, perdeu todos os seus instrumentos. Tentou salvar os brinquedos e as roupas do filho, mas viu suas lembranças serem descartadas junto com móveis e entulhos. E essa é a realidade de milhares de famílias.

Em algumas ruas do bairro, temos um cenário de tristeza com casas condenadas e muitos moradores que vivem há anos tendo que abandonar o pouco que tinham para sempre. Alguns esperam por laudos que nunca chegam. A saúde mental da população está profundamente abalada e há dores que nenhuma reconstrução material apaga, pois está no coração das pessoas.

Falta de preparo, falta de resposta

Na emergência, não havia plano de contingência atualizado. Não haviam abrigos adequados e coisas básicas como água potável. Foi a solidariedade que salvou vidas naquele momento. Trabalhadores informais ficaram mais de 30 dias sem renda. Um caos sem orientação.

E agora, passados 12 meses, praticamente nada mudou. O plano de contingência continua desatualizado. Não há abrigos específicos para mulheres e crianças, a distribuição de água segue precária nas periferias, postos de saúde e escolas seguem sem condições plenas de atendimento, a limpeza de bocas de lobo é insuficiente e o diálogo com as comunidades é inexistente.

O Escritório de Reconstrução do município, criado como resposta institucional à tragédia, pouco, ou nada, entregou de concreto às famílias atingidas. Nem sequer admitir que vivemos uma emergência climática e ter orçamento destinado para a situação, a atual gestão do Melo fez.

A ameaça da privatização e a falta de transparência

Mesmo em meio ao caos que ainda se apresenta em Porto Alegre, a atual gestão quer entregar o Dmae e transformar nossa água em mercadoria para o lucro de alguns. Privatizar a água não resolverá as falhas estruturais do sistema, ao contrário, no modelo que está sendo ventilado pode aprofundar a desigualdade no acesso ao saneamento.

A cidade já tem uma experiência com privatizações. As pessoas sabem que o serviço de energia elétrica piorou com a CEE Equatorial. Até o prefeito sabe, afinal, foi ele que não foi atendido pela empresa quando precisou naquela situação caótica do início de 2024. Se nem o prefeito é bem tratado, quem dirá o restante das pessoas.

Diante desse cenário, a prefeitura deveria consultar, através de um plebiscito, a população sobre o tema e não empurrar goela abaixo, ameaçando nem passar pela Câmara de Vereadores o projeto caso seja necessário, como já afirmou o Sebastião Melo, em algumas entrevistas.

Para que não se repita

A tragédia de 2024 não foi apenas causada por fenômenos naturais. Ela foi agravada pela omissão, pela má gestão e pela recusa em ouvir a ciência. Para evitar que cenas como aquelas se repitam, é preciso modernizar o sistema de alerta e controle de cheias; transformar prédios ociosos em moradias populares; fortalecer a Defesa Civil; ampliar e modernizar a rede de esgoto e drenagem; criar um plano municipal de arborização urbana e jardins de chuva; implementar educação ambiental nas escolas e estabelecer uma política de ar limpo e adaptação climática.

Enquanto isso não acontecer, Porto Alegre seguirá vulnerável, sem planos reais de políticas públicas. E quem mais pagará a conta serão sempre os mesmos: o povo trabalhador da periferia da cidade.

Dos muros, as marcas podem ser apagadas, mas da memória ninguém pode apagar!

*Grazi Oliveira é vereadora de Porto Alegre pelo Psol

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Marcelo Ferreira

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