ideias insurgentes

A comunicação em tempos de guerra: por que nossas universidades precisam disputar o imaginário

A guerra no Oriente Médio não é apenas um conflito territorial: é também uma guerra de versões e de invisibilizações

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Homens palestinos caminham por uma rua estreita passando por prédios destruídos em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, em 11 de junho de 2024 | Crédito: Eyad BABA / AFP

Na condição de Coordenador Regional da Intercom Nordeste, tive a honra de dar as boas-vindas ao Congresso Regional Nordeste da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, realizado neste mês de junho, em Fortaleza. A ocasião, marcada pelo reencontro presencial e pela vibração de ideias insurgentes, foi mais do que um evento acadêmico: tratou-se de um chamado à lucidez coletiva em tempos de guerra simbólica, disputas geopolíticas e manipulação sistemática do imaginário social.

O tema que norteou o congresso – (Re)pensar a Comunicação: Ensino, Pesquisa e Extensão – soou como um grito ético diante da banalização das narrativas que sustentam o sofrimento humano. É impossível ignorar, por exemplo, que neste exato momento se desenrola diante dos nossos olhos, com a cumplicidade dos algoritmos e das diplomacias ocidentais, um genocídio do povo palestino na Faixa de Gaza. A guerra no Oriente Médio não é apenas um conflito territorial: é também uma guerra de versões, de enquadramentos, de invisibilizações. Uma guerra que se estende até o campo da comunicação, onde a escolha de palavras, imagens e silêncios não é neutra, mas sim profundamente política.

É neste cenário que lanço meu novo livro, Comunicação em disputa: a luta pelo imaginário da América Latina na Era Trump. A obra busca analisar como o campo comunicacional latino-americano foi (e continua sendo) tensionado por forças transnacionais que operam pela desinformação, pela erosão da esfera pública e pela reconfiguração do consenso através da digitalização da política. A partir da ascensão de governos autoritários e de estratégias algorítmicas que operam o engajamento pelo ódio, a comunicação torna-se o centro da disputa sobre o que é real, o que é legítimo e quem tem o direito de narrar o mundo.

É por isso que as universidades públicas, sobretudo no Nordeste, têm um papel estratégico neste debate. São nesses espaços que florescem as pesquisas comprometidas com a verdade, com a justiça social e com a denúncia das desigualdades midiáticas. São os discentes, pesquisadores e pesquisadoras que desafiam os monopólios da representação e constroem novas epistemologias da imagem, da palavra e do afeto.

A polarização política que atravessa o Brasil e o mundo não é apenas uma questão de opinião – é uma engenharia de comunicação operada por think tanks, plataformas digitais e grupos de interesse que trabalham cotidianamente para moldar o senso comum. Diante disso, defender uma comunicação comprometida com os direitos humanos, com a paz e com a pluralidade de vozes é uma forma de resistência, mas também de reexistência.

O Congresso Intercom Nordeste 2025 foi a materialização desse compromisso: com a crítica, com a formação cidadã e com o direito à comunicação como dimensão essencial da democracia. Precisamos ampliar essas trincheiras nos nossos currículos, projetos de extensão e nas conexões internacionais de solidariedade.

O momento exige coragem epistêmica e responsabilidade política. Não basta formar comunicadores tecnicamente hábeis. É preciso formar sujeitos capazes de intervir no mundo – e de disputar os sentidos que o estruturam. Afinal, como nos lembra Paulo Freire, “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. E hoje, mais do que nunca, esse mundo é um campo em disputa.

*Richard Santos é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), coordenador do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, e atual Coordenador Regional da Intercom Nordeste. É autor dos livros “Maioria Minorizada” e “Comunicação em Disputa – A luta pelo imaginário da América Latina na Era Trump” (2025).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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