“Nós tínhamos que trabalhar às quatro horas da tarde, combatendo a super iluminação que havia em Santa Luzia. Eu já tinha sentido o problema três anos antes, quando fui fazer uma reportagem em Olho D’água, na Serra do Talhado, e quando revelei as fotografias, senti o excesso de luz” – Trecho de uma fala de Linduarte Noronha ao Jornal A União/ Correio das Artes sobre o processo de produção das fotografias de Aruanda (1960).
A luz da cidade de Santa Luzia, na Paraíba, se espalhou pelo cinema e pela fotografia: Aruanda completa 65 anos e resplandece novamente, de 3 a 6 de outubro, na edição do 2ª Festival Talhado no Cinema/Cinema no Talhado.
O evento, organizado pela Ong Café Cultura em parceria com a secretaria municipal de cultura, incorpora oficinas de roteiro, captação e edição, visitas ao quilombo do Talhado e a coincidência com o Tope do Juiz, manifestação de mais de 150 anos que ocorre no dia 4 de outubro.

A mostra privilegia documentários e produções locais e regionais, com exibição de Aruanda, de Linduarte Noronha, e debates que apontam para a preservação e valorização da memória cultural do território.
“Celebrar os 65 anos de Aruanda é, para nós, reconhecer que aquele filme projetou Santa Luzia no mapa do cinema brasileiro e ajudou a moldar uma linguagem estética que dialoga com o Cinema Novo. Não se trata apenas de uma sessão de cinema: é um reencontro entre a cidade, o quilombo e a memória viva que ainda pulsa no Talhado, um lugar que merece ser visto e ouvido por quem trabalha com imagens e com história. Por isso juntamos oficinas, visitas e mostras; queremos que jovens e quilombolas possam produzir e contar suas próprias histórias a partir de ferramentas técnicas e políticas. É uma celebração, mas também um gesto político de reafirmação de existências que foram historicamente marginalizadas”, declarou Carmélio Reynaldo, um dos organizadores do evento.
Ele acrescentou que o festival não se limita a rememorar a obra de Linduarte Noronha, mas busca unir memória, formação e protagonismo das comunidades. Segundo Reynaldo, essa é uma maneira de transformar a celebração em ação cultural e educativa no território, abrindo espaço para que novas gerações deem continuidade a um legado de resistência e criação.
Programação e logística
O festival começa na sexta-feira (3) com oficinas de roteiro e captação de imagem e som na sede da Ong Café Cultura – Centro de Ciências e Artes Ernani da Veiga Pessoa – e segue com mostra de filmes, lançamento de edital e apresentações musicais. No sábado (4) a programação integra o Tope do Juiz pela manhã, passeio por pontos de memória na cidade à tarde e solenidade de abertura à noite.
Já no domingo (5) há visita ao quilombo do Talhado com exibições e rodas de conversa; na segunda-feira (6) oficinas de edição e interpretação, culminando em sessão de encerramento. Entre os títulos previstos para exibição no quilombo estão Aruanda; Talhado, de Aderivaldo Nóbrega; Talhado: Arte e Resistência, de Laena Antunes; Rita, Preta da Paraíba, de Diovanne Filho; Céu, de Valtyennya Campos Pires; e produções escolares como Vidas de Aruanda, da Escola Carrossel de Santa Luzia, PB.
“Fizemos a curadoria com a intenção explícita de que a programação converse com o território: nem tudo será exibido em salas frias; parte do festival acontece no quilombo, na rua, em encontros com moradores, para que o público veja o filme e também entenda o lugar que inspirou Aruanda. As oficinas preparam alunos e moradoras para registrar o Tope do Juiz e transformar esse material em documentário curto, edição e debate. É aposta em formação e em circulação de saberes; queremos que a experiência seja prática e transformadora”, destaca Reynaldo.
Ele ainda explicou que a programação prioriza ações presenciais no território e atividades formativas que gerem material audiovisual produzido localmente.
O quilombo do Talhado e o Tope do Juiz
A relação entre cinema e Santa Luzia remonta à chegada de Linduarte Noronha em 1957, quando veio cobrir o Tope do Juiz para o jornal A União e conheceu o quilombo da Serra do Talhado. O Tope do Juiz é uma manifestação ligada à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e possui origem em um incidente histórico cuja celebração extrapolou gerações: a festa é repetida há mais de 150 anos e constitui marca identitária da cidade. O quilombo do Talhado, no alto da serra, manteve práticas culturais, religiosas e modos de vida que foram registrados por Noronha e tornaram-se objeto de preservação simbólica com Aruanda.
“Quando falamos da história do Tope do Juiz e do quilombo, falamos de processos longos: são séculos de memória, de resistência e de modos de vida que insistem em existir apesar da invisibilização. Linduarte chegou atraído por essa manifestação e entendeu que ali havia uma narrativa que o cinema precisava guardar. Hoje o festival retoma esse fio histórico e faz a ponte entre memória, documentação e criação contemporânea, abrindo espaço para que as juventudes locais participem desse processo de registro e interlocução”, explica Reynaldo.
Ainda segundo Reynaldo, o festival pretende reforçar a relação entre memória histórica e produção cultural contemporânea, recuperando e ampliando narrativas locais.
Aruanda: o filme, sua importância nacional e local
Aruanda, lançado em torno de 1960 por Linduarte Noronha, é um documentário etnográfico que retrata o cotidiano e as celebrações do quilombo do Talhado, aproximando-se de uma estética que privilegiava a imagem como testemunho social. A obra ganhou reconhecimento por críticos e cineastas e é citada como referência por figuras ligadas ao Cinema Novo, que viram em Aruanda uma alternativa autoral e comprometida com a realidade nordestina da época.
Nacionalmente, o filme é lembrado por sua linguagem sensorial e narrativa que dialoga com os anseios estéticos e políticos das décadas seguintes; localmente, Aruanda se transformou em um símbolo de identidade para Santa Luzia. O filme não apenas documentou o quilombo do Talhado, mas deu a esse território uma visibilidade cultural e histórica que antes não existia. Ao ser reconhecido nacionalmente, o documentário projetou a cidade e a comunidade quilombola, resgatando uma memória que estava invisível e reafirmando o valor cultural da região.
“Aruanda não ficou apenas como registro: tornou-se parâmetro estético e político. Quando os cineastas do Cinema Novo apontaram para o filme, foi porque viram ali um modo de filmar que não se limitava à reprodução, mas construía sentidos. Para Santa Luzia, Aruanda foi a primeira vez que a cidade e o Talhado foram apresentados para além das fronteiras locais; foi a fundação de uma imagem coletiva que hoje celebramos com cuidado e responsabilidade. Nosso festival quer não apenas exibir o filme, mas discutir o que ele significa para as estéticas do cinema brasileiro e para a comunidade que nele aparece”, conclui Reynaldo que é escritor, jornalista e professor aposentado da UFPB.
Para ele, o festival é uma ação que visa reapropriar Aruanda como patrimônio vivo, discutindo sua estética e suas implicações sociais junto à população local.
Linduarte Noronha e o legado artístico e político
Linduarte Noronha, paraibano, jornalista e cineasta, dedicou parte de sua obra à documentação de comunidades e práticas populares nordestinas. Seu trabalho é lembrado tanto pela sensibilidade diante das imagens quanto pela postura crítica frente às desigualdades que observou. Ao registrar o quilombo do Talhado, Noronha não apenas produziu um documentário: deixou um legado,influenciando gerações de realizadores e pesquisadores interessados em cinema, antropologia e história cultural.
“Linduarte foi, antes de tudo, um interlocutor: sua câmera procurava ouvir e devolver. Seu legado está na forma de ver o outro sem exotizar, de reconhecer o sujeito histórico e político que existe nas comunidades. Este festival é uma homenagem que pretende seguir esse gesto: não romantizar, mas dialogar, produzir conhecimento e fortalecer processos culturais que têm continuidade nas mãos das próprias comunidades”. Reynaldo acrescenta que a homenagem a Linduarte busca manter viva a ética do cineasta e a prática de escuta e parceria com o território.
Visita ao quilombo e oficinas
A visita ao quilombo do Talhado, prevista para o domingo (5) integrará exibições, rodas de conversa, apresentação musical e um almoço comunitário. As oficinas realizadas nos dias anteriores prepararão registros em áudio e imagem do Tope do Juiz, que serão editados na oficina de edição do dia 6, e exibidos em sessões públicas. A proposta é que todo o material produzido se incorpore a um acervo local e a projetos de formação continuada.
“Queremos que a visita ao quilombo seja um intercâmbio real: não é só levar plateia para ver; é trazer equipamentos, formação e depois devolver para a comunidade um resultado concreto – curtas, registros e trocas. A ideia é que os jovens e as lideranças locais saiam com ferramentas, com imagens e com narrativas que possam usar para Educação, memória e mobilização. É assim que entendemos cultura: como processo que transforma e permanece”, explica Carmélio Reynaldo. Ele destaca que a expectativa é gerar conteúdo audiovisual produzido pela própria comunidade, além de fortalecer as redes locais de memória e cultura.
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