FALTA ELETRICIDADE

Inércia do poder público mantém a população do Haiti sem luz em pleno século 21

Progressivo abandono das estruturas desde 2022 deixou país sem eletricidade

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Banca vende placas solares simples nas ruas da cidade de Hinche, região central do Haiti | Crédito: Cha Dafol

Às 19 horas, o sol se esconde no horizonte montanhoso do Haiti e a noite cai num piscar de olhos. Seja no campo ou na cidade, a iluminação pública é escassa ou inexistente. Na escuridão, as pessoas vão se recolhendo para dentro das suas casas e apenas alguns quiosques, bares ou bancas de comida, mantêm esparsas luzes acesas por algumas horas, mantendo vivo o espaço público.

Não é apenas a iluminação da rua que falta: é a luz em si. O Haiti completa o primeiro quarto do século 21 praticamente sem acesso à energia elétrica para a população. Isso quer dizer que a maioria das casas não tem geladeira, nem máquina de lavar – aliás, o próprio acesso à água é precário. Sob o calor tropical, as escolas funcionam sem ventilador, não existe trabalho “home office” e a televisão nunca chegou a se tornar um meio de comunicação de massa. E sair à noite para tomar uma cerveja gelada não é tão simples quanto parece.

Na capital, Porto Príncipe, a situação estava um pouco melhor, até cinco meses atrás. Existia um sistema de energia pública que chegava a funcionar algumas horas por dia, permitindo, pelo menos, carregar baterias ou ligar uma geladeira. Mas a usina que o alimentava ficava em Mirebalais, cidade onde, desde o início de abril, gangues criminosas têm desencadeado uma violência extrema contra a população.

Em protesto para exigir do Estado mais segurança, os próprios habitantes do lugar invadiram e desativaram a central elétrica. Em vão: não obtiveram nenhuma resposta por parte dos poderes públicos e o povo, a grande vítima da insegurança, acabou ficando também sem energia.

Uma história mal contada

Caminhando na zona rural do pequeno município de Ranquitte, localizado na região norte do país, surpreende a presença de postes de luz, com toda a instalação necessária para levar a energia até o centro da cidade. “A gente já teve luz! Tinha corrente até dentro das casas, funcionando normalmente”, lembra o pastor de uma igreja local, que não quis se identificar. “Uns três anos atrás, começou a falhar, até parar de vez. E nunca mais voltou.”

Ranquitte faz parte dos oito municípios atendidos pela central elétrica de Saint Raphaël, a vinte quilômetros de distância. Buscando na internet, a única informação que se encontra sobre a usina, além da capacidade produtiva, é o anúncio da sua inauguração, em maio de 2021, na gestão do ex-presidente Jovenel Moïse. Não há notícia na imprensa nacional sobre alguma falha que possa ter dado no sistema nos últimos anos e não há registro de qualquer interrupção do serviço.

Indagados sobre o acontecimento, a população da cidade responde com ironia e resignação. Contam que, alguns meses depois do assassinato do presidente Moïse, que ocorreu em julho de 2021, a central, assim como boa parte do aparelho estatal, simplesmente caiu em abandono. Na época, quando começou a faltar luz, pensavam que seria passageiro, assim como a crise política do país. Mas, desde então, nada mudou.

O caso da usina de Saint Raphaël é espelho do que ocorre em diversas partes do país: as instalações elétricas existem, mas as usinas estão desativadas e sem previsão de volta – mesmo em regiões não diretamente afetadas pela violência das gangues. Não há como desvincular essa situação do assassinato do presidente Moïse: a generalização do acesso à energia elétrica havia sido um tema central da sua campanha e uma construção significativa do seu mandato, sendo depois negligenciada pelos poderes que lhe sucederam.

Mas a falta de energia elétrica no Haiti antecede a crise política dos últimos anos. Analistas apontam a apropriação do aparelho estatal por uma elite que nunca se preocupou em desenvolver o país para melhorar a vida da população. “O estado não tem nenhum plano para garantir a luz 24 horas para a população”, resume ao Brasil de Fato Reyneld Sanon, jornalista em Porto Príncipe.

Por trás do descuido, dominam historicamente, segundo ele, os interesses particulares e financeiros dos dirigentes. “Nas últimas décadas, o que o Estado mais tem feito é comprar energia do setor privado. E isso se torna ferramenta de corrupção”, explica ele.

“Muitas vezes, o dono da companhia elétrica é amigo de quem está no poder. Ou então a pessoa que está no poder é acionista da companhia contratada.” Neste sentido, o sucateamento deliberado das estruturas estatais seria decorrente desta mesma lógica: “Quando o governo deixa uma usina pública ser destruída, é uma maneira de enriquecer o setor privado”, conclui Sanon.

O jogo do setor privado

No fim, de norte a sul do país, o que salta aos olhos é a desigualdade social e energética. Nos bairros mais abastados, nas sedes e embaixadas, nos hotéis de luxo e nas residências da elite, geradores a gasolina ou sistemas avançados de energia solar mantêm uma perfeita aparência de normalidade. Ninguém diria que, a poucos quilômetros de lá, crianças têm que bombear a água do poço com a força dos braços.

Nas calçadas dos bairros populares, camelôs vendem inúmeras gambiarras importadas para a população: lâmpadas carregáveis ou pequenas placas solares portáteis, de qualidade e durabilidade duvidosas. Em toda esquina, quiosques e pequenos comércios oferecem o serviço de carga de celular a preço irrisório. Porque, apesar de tudo, o uso do celular é generalizado no país e a cobertura da internet é bastante boa, contando com antenas alimentadas por energia solar.

De maneira geral, ter acesso a uma rede elétrica que permita sustentar alguns aparelhos domésticos é um sinal de ascensão social para uma família. Em alguns centros urbanos, multinacionais já tomaram as rédeas do atendimento à população – através de licitações ou micro concessões do Estado. Mas na maior parte do território, a única solução continua sendo a instalação particular de placas solares – um investimento de cerca de R$ 5 mil para uma casa simples, até vinte vezes mais para instituições como centros culturais, escolas ou hospitais. Veja exemplo abaixo desse segundo tipo:

Por trás desse fenômeno, quem lucra são as empresas fornecedoras e importadoras desses materiais. Quem perde é o projeto de um estado soberano, capaz de promover o desenvolvimento territorial e providenciar serviços básicos à população.

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