Está em andamento, nas periferias de Fortaleza, uma grande ação promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento Brasil Popular e Levante Popular da Juventude. Intitulada Mãos Solidárias, a iniciativa tem como objetivo alfabetizar jovens e adultos, especialmente pessoas idosas que não tiveram ou perderam a oportunidade de continuar os estudos e se alfabetizar ao longo da vida. Para essa tarefa revolucionária, o grupo está aplicando o método cubano “Sim eu posso”, de caráter alfanumérico, que já alfabetizou quase 11 milhões de pessoas em mais de 30 países. Na capital cearense, já estão em funcionamento 150 turmas, distribuídas em mais de 65 bairros, cada uma alfabetizando de 15 a 25 educandos.
A alfabetização de jovens e adultos é um tema complexo, tão invisibilizado quanto os motivos que a tornam necessária. Nos grandes centros urbanos, é preciso considerar alguns pontos. Antes de tudo, compreender quem são os sujeitos a serem alfabetizados, quais os motivos que os impediram de estudar na idade regular e qual o seu contexto sociocultural e histórico.
No caso de Fortaleza, pesa o histórico das migrações vindas do interior do Ceará. Apesar de parecer distante, esse processo é recente e ainda marca a vida de muitos educandos, sobretudo em bairros como Barra do Ceará, Grande Pirambu e outras áreas periféricas. Nessas regiões, os migrantes enfrentaram subemprego, precarização do trabalho, descaso do poder público e uma economia paupérrima — situação de subcidadania.
O perfil predominante dos educandos revela pessoas de baixa renda, com idade média entre 40 e 70 anos, que frequentaram pouco ou nada a escola. Não há grande diferença entre homens e mulheres quanto à quantidade, mas os motivos do abandono escolar variam conforme o gênero. O resultado, contudo, é comum: uma considerável massa de pessoas em vias de alienação. Em Fortaleza, esse grupo corresponde a cerca de 5,6% da população (IBGE, 2022).
A proximidade cultural entre a capital e o interior tem favorecido a aplicação de práticas da pedagogia do Movimento Sem Terra, bem como adaptações ao método, como os Círculos de Cultura – contribuição da Pedagogia Freireana. A periferia de Fortaleza carrega no seu cotidiano as marcas do interior e do campo. Essas raízes aparecem nas tradições, nos costumes e na memória coletiva das comunidades, constituindo um patrimônio cultural que serviu de base para a elaboração de estratégias pedagógicas voltadas à alfabetização no contexto urbano da capital, tendo em vista as relações dialéticas entre campo e cidade.

Partindo dessa análise histórica, é que podemos entender os fatores geradores dos principais desafios da Jornada de Alfabetização. Entre os principais entraves, o primeiro é o reconhecimento da própria condição de analfabetismo. Esse processo exige que a pessoa tome consciência da necessidade de se educar e, ao mesmo tempo, tenha a coragem de admitir sua situação diante dos outros. Isso exige coragem, pois, em nossa sociedade, ainda persiste uma percepção que culpabiliza o indivíduo, gerando vergonha e sentimento de incapacidade. Essa vergonha não é apenas individual, mas fruto de uma construção social que associa falta de escolaridade à inferioridade e ao fracasso.
Frantz Fanon, em seus escritos sobre a desumanização e a internalização da opressão, mostra como os sujeitos oprimidos muitas vezes incorporam os estigmas que lhes são impostos, passando a enxergar-se pela lente do opressor. Assim, o analfabeto, em vez de compreender sua condição como resultado de processos históricos e sociais de exclusão, tende a sentir culpa e vergonha pessoais. Essa vergonha revela como a dominação não se dá apenas pela privação material, mas também pelo controle simbólico e psicológico, produzindo feridas profundas na autoestima e na identidade do sujeito.
É esse fator que explica o curioso fato de muitas vezes não percebermos a presença de pessoas em situação de analfabetismo em nosso convívio. São parentes, amigos e vizinhos que tiveram negado um direito tão básico: o de aprender a ler e escrever na idade certa. O analfabetismo foi e ainda é uma triste mancha em nossa história, que, enquanto sociedade, temos sistematicamente ignorado.
Neste sentido, o analfabetismo é resultado das condições socioeconômicas nas quais essas pessoas estavam inseridas. Tal falha do Estado nunca foi corrigida; preferimos jogar para debaixo do tapete essa vergonhosa mancha.
Outra dificuldade enfrentada tem origem em um problema latente em nossos territórios: a presença do crime organizado. Para além do déficit educacional, a jornada revelou a disputa constante pelo território. O próprio termo “território” não se refere apenas a um espaço geográfico, mas está intrinsecamente ligado às relações de poder, posse, soberania e a aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais. Esse poder está em permanente disputa. Bairro a bairro, rua a rua, a periferia é disputada. Não foram raros os casos de turmas impedidas de utilizar determinada escola por ela estar localizada em uma rua dominada por outra facção. A população periférica vive sitiada em seu próprio bairro — ou até mesmo em sua própria rua. Como consequência, enfrentamos a dificuldade de encontrar locais adequados para as turmas, o que impôs sérias limitações.
Diante disso, foi necessário criar alternativas: turmas em associações, centros comunitários, instituições religiosas e até mesmo nas casas de alfabetizadores. Essa foi a resposta popular diante de um cenário tão adverso.
Apesar das dificuldades, a disposição em iniciar essa jornada não faltou. Ainda há um longo caminho a trilhar, e esperamos não apenas alfabetizar jovens e adultos nos mais diversos bairros de Fortaleza, mas também transformar as bases sociais desses territórios. Como disse Paulo Freire: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. É com essa convicção que a Jornada de Alfabetização almeja concretizar grandes transformações em Fortaleza.
*Igor Cordeiro, coordenador de turma da Jornada de Alfabetização de Jovens e Adultos nas Periferias, Mãos Solidárias – CE e militante do MST.
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** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
