E agora?

Corte de emendas e incentivos fiscais ou novo PL: governo estuda alternativas para derrubada da Taxação BBB

Congressistas entendem que corte nas emendas será "inevitável" por causa da lei de responsabilidade fiscal

Lula disse que se reunirá na semana que vem com Haddad para discutir novas possibilidades – Evaristo Sa / AFP

O governo começou a estudar alternativas para aumentar a arrecadação em 2026 antes mesmo da derrubada da Taxação BBB. A Medida Provisória (MP) 1.303 que pretendia ampliar os impostos sobre bilionários, bancos e bets saiu da pauta da Câmara dos Deputados no dia em que caducou e criou uma lacuna no orçamento de R$ 17 bilhões para o ano que vem. 

Para cumprir a meta fiscal, algumas alternativas foram levantadas pela equipe econômica do governo e por lideranças no Congresso. A primeira delas, e mais polêmica, é o corte nas emendas parlamentares. A possibilidade de cortar o que são hoje as principais ferramentas dos deputados de extrema direita na barganha do Legislativo é visto como um risco por integrantes do governo, mas também como um enfrentamento necessário já que será preciso cortar de algum lado para entrar na meta fiscal em 2026.

A ideia foi aventada pelo líder do Governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT), e endossada por congressistas progressistas. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não colocou essa possibilidade no centro, mas disse que é preciso avaliar essa possibilidade e, principalmente, enfrentar os empresários que fazem lobby contra o aumento nos tributos.

“Vamos avaliar com muito cuidado cada alternativa. Vamos falar sobre os impactos das emendas. Nós sabemos da movimentação de forças políticas para a proteção de privilégios, sobretudo o pessoal da Faria Lima. Vamos apresentar vários cenários possíveis e apresentaremos possibilidades ao presidente para cumprir não só o fiscal, mas para o social”, disse nesta quinta-feira (9).

Para congressistas do governo, o corte nas emendas é importante e agora será “imprescindível”. Sem o aumento na arrecadação para o ano que vem, setores do PT já entendem que é importante “peitar” o Congresso para não ter que cortar verba de áreas importantes como a saúde e a educação. 

Um deles é o deputado Merlong Solano (PT-PI). Integrante da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, ele entende que há um risco político, mas que é importante convocar a população para esse debate e propor outras saídas. 

“O corte de emendas é inevitável. Não dá pra contingenciar recursos deixando R$ 50 bilhões de fora, que é o montante das emendas. Se for deixar emendas de fora, tem que cortar tudo das outras áreas. O governo Lula tem que chamar a sociedade para a discussão política. Há um risco de aumento da polarização e de boicote da oposição”, afirmou ao Brasil de Fato

O governo tem como principal argumento para isso a lei do teto de gastos. A lei que define o limite para as despesas determina que, quando não for cumprida a meta de arrecadação mínima para o ano, haverá um corte linear em todos os setores, inclusive nas emendas parlamentares. 

Um corte acima do previsto na lei seria um enfrentamento que exigiria um esforço político. Para o deputado e relator da Taxação BBB, Carlos Zarattini (PT-SP), fazer uma disputa com o Congresso é uma possibilidade, mas o foco do governo é aumentar a tributação para “quem tem muito”.

“O nosso problema não é brigar com o Congresso, é tirar de quem tem muito. Tem muita emenda no Congresso, mas o nosso problema é tirar recursos dos bancos, bets e bilionários. Não podemos transferir a responsabilidade para a população de sustentar o orçamento. Os bilionários também precisam contribuir”, afirmou ao Brasil de Fato

Na manhã desta quinta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse, em entrevista à Rádio Piatã, da Bahia, disse que vai propor o aumento na taxação das fintechs. 

“Eu volto na quarta-feira [15] para Brasília, aí sim, eu vou reunir o governo para discutir como é que a gente vai propor que o sistema financeiro, sobretudo as fintechs, que tem fintech hoje maior do que banco, que elas paguem o imposto devido a esse país”, disse.

Hoje, as fintechs pagam apenas 9% de taxa sobre os lucros. Um exemplo de fintech que lucra mais que bancos é o Nubank. No segundo trimestre de 2025, a fintech registrou lucro líquido de US$ 637 milhões e receitas recorde de US$ 3,2 bilhões. Para se ter ideia, o Banco de Brasília (BRB), do governo do Distrito Federal, teve lucro de R$ 208,3 milhões no mesmo período. 

As fintechs são empresas de inovação que usam a tecnologia para oferecer serviços financeiros digitais. O argumento do governo é que elas não pagam taxas na proporção doi tamanho que têm. 

Nova tentativa 

O Brasil de Fato ouviu de deputados da base do governo que uma alternativa é insistir em um novo Projeto de Lei (PL) com tópicos da MP que foi reprovada. A tributação sobre investimentos em criptomoedas e casas de apostas, além das fintechs, são algumas delas. A ideia é não só tentar aprovar trechos importantes, como também “ratificar” a prioridade dos deputados em proteger o setor financeiro em detrimento do povo. 

Outra saída é reduzir os incentivos fiscais para diferentes setores da economia. Em setembro de 2024, foi aprovada a prorrogação da desoneração da folha de pagamentos para 17 setores da economia. A ideia de congressistas é que esses setores tenham a tributação ampliada ou que se retome a cobrança para ampliar a arrecadação.

“O governo propõe 10% de redução dos incentivos fiscais. Eu defendo que sejam para todos os setores em uma redução gradativa linear com 10% de cortes, R$ 800 bilhões em cortes nos incentivos. Já seria uma ajuda na estabilidade fiscal. Isso está ajudando a lucratividade dos setores e não está garantindo empregos”, afirmou Solano.

O próprio aumento no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) por decreto também é uma possibilidade ventilada. 

Governadores no alvo

Antes mesmo da apreciação da MP na Câmara, integrantes do governo criticaram a articulação de governadores da extrema direita para derrubar a medida. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, criticou a postura de opositores na discussão. De acordo com ela, a medida beneficia o povo brasileiro e o boicote de lideranças como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), são “contra o Brasil”. 

Já o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT), disse que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), estava ligando para deputados e senadores para derrubar a MP, o que considera um “movimento covarde”.

Nesta quinta, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), fez um aceno para o chefe do executivo de São Paulo e disse que, mesmo com a postura do governador, seguirá ajudando o Estado de São Paulo, “assim como fizemos até aqui”. 

Editado por: Luís Indriunas

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