O vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, falou com exclusividade ao Brasil de Fato nesta sexta-feira (10) e disse estar contra a premiação da opositora venezuelana María Corina Machado, laureada pelo comitê com a mesma premiação.
“Eu não estou de acordo, porque esse é um prêmio para neutralizar a situação na Venezuela”, disse Esquivel ao BdF. O arquiteto e ativista de direitos humanos ainda mencionou as relações de Machado com o governo dos Estados Unidos e disse que a venezuelana “não trabalha pela paz”.
“Além disso, Corina Machado é parte da política dos EUA contra o governo venezuelano. [Ela venceu] não porque ela fez um trabalho a favor da paz e do povo venezuelano. Isso me preocupa, que o Comitê Nobel tenha tomado essa decisão”, disse.
Esquivel relembrou que Machado “até pediu a entrada de tropas norte-americanas na Venezuela” e alertou para a escalada do governo de Donald Trump contra Caracas.
“Neste momento, essa situação se agrava porque os EUA estão ameaçando a soberania deste país. Com isso, Corina Machado vai seguir pressionando não para democratizar a situação da Venezuela, mas para responder aos interesses regionais e latino-americanos dos EUA”, afirmou ao Brasil de Fato.
O Nobel da Paz também se posicionou contrário a outros laureados, citando o ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger.
“Eu não estou de acordo com tudo o que o Comitê Nobel faz. Quando eles deram o prêmio Nobel da Paz a Henry Kissinger, quando ele foi o responsável pelo golpe de Estado contra Salvador Allende, como também a outros candidatos que o Comitê Nobel considerou”, disse.
No entanto, Esquivel fez um apelo para que o impacto do prêmio mude a atuação de Machado. “Isso vai depender um pouco de Corina Machado. Se ela estará a serviço dos povos ou a serviço dos interesses dos EUA”, disse.
“Agora que ela tem o Nobel da Paz, ela deve trabalhar pela paz e pela unidade do povo e não contra da paz.”
Adolfo Pérez Esquivel venceu o Prêmio Nobel da Paz de 1980 por sua atuação no apoio a perseguidos de ditaduras militares na América Latina e pelo ativismo pela Não-Violência Ativa como instrumento de combate a autoritarismo.
Da paz?
Oriunda de uma das famílias mais poderosas do setor privado da Venezuela, Machado venceu o Prêmio Nobel da Paz de 2025. A decisão surpreendeu o mundo político da Venezuela, já que a ex-deputada tem um longo currículo de apoios a golpes de Estado, sanções econômicas e até intervenções armadas contra o país.
Além disso, ela apoiou as recentes mobilizações de tropas estadunidenses no mar Caribe e os ataques a embarcações supostamente vinculadas ao narcotráfico que o governo Donald Trump vem realizando.
“Não resta outra opção a não ser forçar a saída de tal regime”, disse Machado durante uma videoconferência na Assembleia das Nações Unidas realizada em setembro.
