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Entre tarifas e diplomacia: Lula virou o jogo na negociação com os EUA, mas disputa ainda é longa

Sob a liderança de Lula, o Brasil montou uma defesa eficiente e desbloqueou o jogo, mas ainda haverá muitas rodadas

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Os presidentes dos Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; e dos EUA, Donald Trump
Os presidentes dos Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; e dos EUA, Donald Trump | Crédito: Evaristo Sá e Andrew Caballero-Reynolds/AFP

Diante das agressões, ameaças e imposição de medidas comerciais unilaterais dos EUA, a grande maioria dos líderes dos países atingidos resolveu baixar a cabeça, demonstrar humildade excessiva e, sobretudo, bajular o imperador imaginário do mundo. No caso da China e da União Europeia, ambos têm capacidade econômica e comercial para responder imediatamente à altura. A China o fez; a União Europeia não, em parte por falta de coesão política entre os 27 países e, em parte, pela dependência militar diante da potência russa. 

Mas a China não foi o único país a manter uma atitude firme: o Brasil também o fez. Ou melhor, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o fez, em plena coerência com sua trajetória, ignorando apelos e argumentos para optar por um pragmatismo subordinado de várias partes externas e, provavelmente, também internas ao governo.

Cabe relembrar dois episódios logo em 2003, seu primeiro ano como presidente. Mostrando uma mudança de atitude diante do episódio em que o ministro Celso Lafer tirou os sapatos no aeroporto de Miami no início de 2002, em obediência às regras de segurança, Lula declarou que um ministro que tirasse sapatos em viagem oficial deixaria de ser ministro e negociou isso com os próprios EUA.

No mesmo ano, foi convidado para participar de uma reunião do G8, sentado ao lado de Celso Amorim. Quando Bush entrou na sala, todo mundo se levantou, menos Lula, e por tabela seu ministro, porque ninguém tinha se levantado para ele ou outro líder. Em 2010, participando da cerimônia de novos diplomatas no Itamaraty, ele fez questão de contar essa história em detalhes. 

E, como é conhecido, ao contrário do que se imaginava, a relação entre Lula e Bush fluía, garantindo um respeito mútuo entre os dois países, não obstante as fortes críticas de Lula à invasão do Iraque, à Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a vários outros conflitos de interesses e posições.

Agora, a dúvida era como isso funcionaria com Trump. Uma tarifa nacional de 40%, que elevou o patamar para então mais alta de 50%, com acusações de desrespeito a eleições livres e ao direito à livre expressão, gerou grande pressão. Mas, com a mesma atitude de Lula, ele imediatamente desmascarou a famosa carta de Trump de 9 de julho, que iniciou o tensionamento entre os dois países, como desrespeitosa, mal formulada e ainda com um erro grave ao usar como argumento um suposto superávit comercial do Brasil na relação bilateral.

Foi também com essa postura que Lula não caiu na armadilha de ligar para Trump quando este respondeu a uma pergunta de uma jornalista brasileira, em 1º de agosto, dizendo que Lula poderia ligar para ele quando quisesse. A estratégia de aguardar o momento em que houvesse uma base mínima de respeito mútuo era arriscada diante da imprevisibilidade de Trump e do poder econômico, político e militar dos EUA.

Aparentemente, foi o charme de Lula no breve encontro com Trump nas Nações Unidas, em 23 de setembro, que destravou o impasse. Embora não se deva duvidar da importância da capacidade do presidente brasileiro de envolver e encantar seus interlocutores, o fato de Trump ter avisado que queria trocar algumas palavras com Lula já sinalizava uma abertura, como reação a um conjunto de fatores.

Em primeiro lugar, o sucesso do que pode ser chamado de diplomacia empresarial paralela, que contou também com apoio do governo brasileiro. Isso fez com que, logo de cara, dois terços das exportações estivessem isentos da bombástica sobretaxa de 40%. Um exemplo é a Embraer, que, além de exportar, também importa peças para sua produção dos próprios EUA, gerando lobby dentro do próprio país pela isenção.

Em segundo lugar, ficou evidente que a economia brasileira, junto com políticas certas, tinha capacidade de absorver as sobretaxas efetivamente implementadas por três motivos. Primeiro, porque o Brasil, sobretudo nos primeiros dois governos de Lula, diversificou ainda mais o destino de suas exportações, fazendo com que o comércio com os EUA aumentasse em números absolutos, mas diminuísse de forma expressiva em números relativos. Hoje, os EUA representam 12% do total das exportações brasileiras, contra 24,4% em 2001. Segundo, o agronegócio encontrou, com relativa facilidade, outros mercados, o mesmo vale para alguns produtos da manufatura. Assim, o Brasil registrou aumento das exportações, em particular para China, Índia, México e Argentina, o que elevou o total das exportações.

Terceiro, o governo montou imediatamente um esquema de apoio, sobretudo por meio do Plano Brasil Soberano, para alguns setores específicos atingidos pelas sobretaxas. Dessa forma, as tarifas não geraram pressão para que o Brasil se ajoelhasse aos caprichos do mandatário estadunidense. Na dimensão política, o governo Lula também conseguiu rapidamente tomar a iniciativa.

É importante entender que há método nas loucuras de Trump. Ele, por exemplo, não continua apostando no mesmo “cavalo” se este estiver perdendo, independentemente da afinidade inicial. Lembra-se que a principal acusação que fez a Zelensky era de que ele era um perdedor (looser, como se diz nos EUA), sem cartas na manga. E veja o que ele disse claramente a Milei: se não ganhar as eleições, ele pode rever sua generosidade financeira.

Ao final, qualquer observador percebe que o bolsonarismo achava estar fazendo um golaço ao mobilizar seu grande amigo em Washington, mas, na verdade, perdeu em casa e fortaleceu Lula. Isso criou inclusive um clima no qual a decisão do STF sobre a tentativa de golpe e subversão do Estado Democrático foi vista como parte da defesa da soberania nacional.

E por mais que se possa imaginar que Marco Rubio gostaria de continuar a pauta politizada como parte da ofensiva para reinstalar a Doutrina Monroe na América Latina, e por mais que não seja difícil identificar vários interesses e opiniões no interior do governo Trump, uma vez que ele reorienta a linha, as tropas seguem. É, portanto, plausível que Trump tenha cansado de servir como garoto-propaganda do bolsonarismo, e que a reunião entre Mauro Vieira e Marco Rubio possa ser vista como uma decisão dos EUA de despolitizar a relação, um passo importante para normalizá-la, embora pareça contraditório falar em relações normais com Trump na presidência.

Se a estratégia do governo Lula parece ter dado certo nesta primeira fase do desbloqueio das relações, permanecem duas questões a serem enfrentadas com muita sabedoria. A primeira é que não há como imaginar que os EUA simplesmente voltem ao status quo anterior ao envio da maldita carta e à imposição das sobretaxas, sem que Trump possa postar nas suas redes sociais um ganho real ou imaginário. Cabe agora ao governo apresentar uma pauta positiva que represente ganha-ganha, ou suposto ganho para os EUA sem prejuízo para o Brasil.

No caso dos minerais críticos, em particular as chamadas terras raras, já havia entendimento entre o governo Lula e Biden sobre seu uso para a transição energética, e o banco de desenvolvimento público DFC (U.S. International Development Finance Corporation) financia a empresa estadunidense Aclara Resources, em Goiás. Além disso, a única mina de terras raras em operação, Serra Verde, também em Goiás, é controlada por capital estadunidense por meio das empresas Denham Capital e Energy & Mining Group.

Dentro de um marco de política nacional para os minerais críticos, pode se convidar o capital estadunidense, ao lado de empresas com tecnologia e capital de outros países, como a China, líder nessa atividade. Por coincidência ou não, no mesmo dia em que Vieira se encontrou com Rubio, o governo realizou a primeira reunião do Conselho Nacional de Política Mineral, com a presença de Lula, ocasião na qual foi anunciada a criação de um conselho especial para tratar dos minerais críticos.

A chave aqui é garantir geração de capacidades industriais e tecnológicas no beneficiamento, criando elos de maior valor agregado das cadeias de valor no território nacional. Considerações semelhantes podem ser feitas quanto à instalação de data centers, para os gringos aproveitarem da abundância de energia renovável e de água no território brasileiro. Outras áreas de negociação podem ocorrer no comércio de etanol, para neutralizar o lobby dos produtores estadunidenses. As negociações envolvendo big techs serão mais complexas.

A segunda questão é mais delicada: o Brasil tenderá a fazer tudo o que for possível para separar a pauta comercial das pretensões estratégicas dos EUA, incluindo a atualidade da Doutrina Monroe, que busca cada vez mais estancar e diminuir a presença chinesa no subcontinente. As atividades militares na costa e operações da CIA na Venezuela fazem parte da relação Brasil-EUA e podem causar desestabilizações na região, afetando a segurança nacional.

Embora as relatos sobre a reunião de quinta-feira passada tenham sido genéricas, ficou a impressão que se discutiu apenas questões comerciais. Mas uma análise detalhada da delegação estadunidense revela que, além do Ministro de Relações Exteriores, Marco Rubio, e o Representante para o Comércio (USTR),  Jamieson Greer, participou também o polêmico Michael Jensen, secretário assistente de Defesa para Operações Especiais e Conflitos de Baixa Intensidade.

Pode-se concluir que, sob a liderança do presidente Lula, o Brasil montou uma defesa eficiente e desbloqueou o jogo, mas ainda haverá muitas rodadas. Conseguir separar negociações comerciais das pretensões estratégicas parece o caminho correto, embora difícil, e o Brasil não tem como não ser protagonista na defesa da integridade territorial e da soberania nacional da América do Sul. O tempo clareou, mas trovões são esperados.

*Giorgio Romano Schutte é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UFABC (PRI) e membro do Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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