DESPEJO ZERO

Família quilombola enfrenta nova ameaça de despejo em Foz do Iguaçu (PR)

Prefeitura reativa ação de reintegração em território reconhecido pela Fundação Cultural Palmares

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Defensoria pede indenização de R$ 10 milhões | Crédito: Foto: Bruno Soares

Um território reconhecido oficialmente como quilombo urbano pela Fundação Cultural Palmares (FCP) voltou ao centro de uma disputa judicial em Foz do Iguaçu. Sob comando do prefeito general Silva e Luna, a Procuradoria Geral do Município (PGM) tenta retomar a posse da área ocupada há 35 anos pela família Santos, na Vila C, região norte da cidade, sob alegação de que o terreno pertenceria ao município.

O pedido de reintegração de posse, protocolado em 2018 e suspenso durante tratativas de mediação, foi reativado neste semestre pela PGM. O processo, que tramita na Comissão de Soluções Fundiárias do TJ-PR, interrompeu o diálogo entre os órgãos envolvidos e levou a Defensoria Pública do Estado a pedir indenização de R$ 10 milhões por danos morais coletivos e individuais.

A área, conhecida como Horta do Seu Zé e Dona Laíde, foi certificada pela Fundação Cultural Palmares em novembro de 2024, após estudos da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) confirmarem que os moradores são remanescentes do Quilombo Apepu, de São Miguel do Iguaçu. Em dezembro, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) abriu o processo administrativo 54000.169774/2024-69, para regularização fundiária do território.

“Aqui o trabalho nunca para”

Entre canteiros, açudes e árvores frutíferas, Maria Serrate dos Santos, 55, filha dos fundadores José João e Laíde Rufino dos Santos, mantém o cultivo iniciado pelo pai em 1989. “Eu venho todo dia pra cá, faça chuva ou faça sol. Tudo foi feito no braço: drenagem, canais, plantio. A única máquina que a gente tem é a roçadeira”, conta orgulhosa.

A rotina é compartilhada com a mãe, Dona Laíde, 80, que ainda coordena as tarefas da horta. “Aqui o trabalho nunca para. Acordo cedo, cuido das mudas, trato das galinhas e vejo se a água tá correndo direito. É assim desde o tempo do seu Zé”, diz, enquanto caminha pela roça.

A família Santos reúne mais de 65 descendentes diretos de Dona Laíde e Seu Zé. São 10 filhos biológicos, dois de criação, 26 netos e nove bisnetos espalhados entre Foz do Iguaçu e municípios vizinhos. Parte dessa geração permanece na horta do quilombo, cuidando da terra que sustenta a memória da família.

No terreno, o grupo mantém o cultivo de hortaliças e frutas, a criação de pequenos animais e ações contínuas de preservação ambiental. O trabalho inclui o plantio de espécies nativas, a recuperação das margens do Córrego Brasília e o manejo das nascentes que alimentam o curso d’água, responsável por chegar ao Canal da Piracema, dentro da Itaipu Binacional.

Tradição e conhecimento

O espaço também funciona como campo de pesquisa e memória. Estudantes de biologia, engenharia e arquitetura da UNILA realizam atividades de extensão, oficinas de plantio sustentável e registram a história da comunidade. “Todo mundo que vem aqui quer ouvir a história, entender de onde a gente veio. Isso tudo fica documentado”, explica Maria.

Mesmo com a certificação federal, a Prefeitura sustenta que o território está inserido em uma unidade de conservação, o Parque Córrego Brasília, e deve permanecer sob domínio público. Já o INCRA defende a recategorização da área para Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), formato que permite a permanência de comunidades tradicionais e mantém o repasse do ICMS Ecológico ao município.

A Fundação Palmares recomendou que o caso seja remetido à Justiça Federal, por envolver direitos de comunidades quilombolas e atos de órgãos da União.

Por meio de nota, a Prefeitura de Foz afirmou que, em parceria com a Itaipu Binacional, realocou 25 famílias que viviam no entorno e que apenas oito permanecem na área. O município diz aguardar intimação judicial para responder à ação da Defensoria.

Apoio

Após a reativação do processo, a causa ganhou apoio de instituições regionais e nacionais. A UNILA, o Parque Nacional do Iguaçu, a Federação das Comunidades Quilombolas do Paraná (Fecoqui-PR) e o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz divulgaram notas em defesa da permanência da comunidade.

Editado por: Ana Carolina Caldas
Sindicalizadas/os no SISMUC

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