A agricultura familiar no Rio de Janeiro tem um papel importante na produção de alimentos, embora pequena se comparada a outros estados. Para mudar esse cenário, o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Osvaldo de Oliveira, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), localizado em Macaé, na região norte fluminense têm investido em um alimento essencial no prato dos brasileiros: o feijão.
A produção do PDS é agroecológica e destinada não apenas ao consumo das 63 famílias que vivem no PDS, mas também para feiras, mercados, cozinhas solidárias, além de ser levada para famílias em vulnerabilidade, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), em que o governo compra a produção para destinar a famílias necessitadas e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), destinado a merenda escolar de escolas públicas.
“A revitalização das roças de feijão é um trabalho hercúleo em um cenário no qual há desincentivos de todos os lados aos produtores”, comenta a pesquisadora na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Denise De Sordi. Para ela, a diminuição do consumo desse alimento de alta qualidade nutricional por parte dos brasileiros tem múltiplos fatores, entre eles a dificuldade de produção, variação de renda da população e facilidade no acesso de alimentos ultraprocessados. Se na década de 1960 o brasileiro consumia 23 quilos de feijão por ano, em 2024, essa quantidade caiu para 13 quilos. Os dados são de uma pesquisa da Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa) e divulgados no começo de outubro. Ao mesmo tempo, os estoques do alimento no Estado do Rio de Janeiro seguem zerados desde 2012.
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A colheita em 2025 ganhou um impulso com a parceria realizada com a prefeitura para o empréstimo de máquinas durante a colheita, com isso há perspectivas de aumento de produção, que este ano alcançou mais de quatro toneladas. A dificuldade do plantio e colheita sem maquinário específico é um dos gargalos que fazem com que a produção de feijão fique limitada e dificulte a implantação de uma cadeia produtiva de maior porte, conta a dirigente estadual do Movimento Eró Silva. No entanto, a colheita deste ano trouxe novas perspectivas. “O assentamento está pensando em ampliar por conta das redes de comercialização das quais estão fazendo parte e por terem assinado novos contratos do PAA [Programa de Aquisição de Alimentos]”, conta Silva. O assentamento produz o feijão Karukango, semente crioula que foi batizada em homenagem a um importante liderança quilombola na região.
“A colheita manual faz parte da produção da agricultura familiar campesina em alguns momentos, mas sua aplicação está amplamente relacionada à ausência de subsídios e acesso a insumos, portanto, não pode ser romantizada em nenhuma medida. É um processo que leva ao burnout no campo, acarretando condições de saúde, desgaste físico e emocional e impossibilitando, em termos mais gerais, a ampliação da produção”, explica De Sordi.
Importância do acesso ao crédito
Denise De Sordi indica que a falta de editais e investimentos destinados à agricultura familiar e pequenos produtores é uma questão a ser considerada. “A concorrência a editais para fornecimento de alimentos via PAA e PNAE parece estratégica no sentido de tornar possível o escoamento da produção, já que o acesso a maquinários e outros se daria por programas de créditos e subsídios do governo federal, atualmente voltados para a grande produção”, avalia.
Ela acrescenta que se não há crédito para a produção desses alimentos, ainda que se incentive o consumo, não haverá produto disponível para as famílias, em especial as de renda mais baixa. “Há um processo de empobrecimento no campo que é impulsionado por essa quebra da produção que irá ecoar no espaço urbano também. Os produtores deixam de produzir e as pessoas nas cidades deixam de ter o alimento saudável disponível”. A pesquisadora incorpora ainda um terceiro fator, que é a renda das famílias que podem não ter acesso a água potável e ao gás de cozinha para o preparo do alimento.
E as consequências para esta falta de incentivo não se dá apenas para a população consumidora, mas também para os produtores. “Isso é muito sério, pois provoca uma quebra intergeracional de saberes, experiências, modos de vida e possibilidade de estabelecimento no campo enquanto possibilidade de se constituir uma vida digna e saudável”, conclui.
