O presidente de Camarões, Paul Biya, de 92 anos, foi reeleito para um oitavo mandato consecutivo, segundo resultados oficiais divulgados nesta segunda-feira (27).
De acordo com a Comissão Eleitoral Nacional, Biya obteve 53,7% dos votos. O principal adversário, Issa Tchiroma Bakary, ficou em segundo lugar, com 35,19%.
No poder desde 1982, Biya é apontado com um dos ditadores com maior tempo no poder na África, com acusação de fraudes eleitorais consecutivas desde 1982, quando assumiu o poder.
O segundo presidente do país desde a independência, em 1960, tem acumulado casos de repressão à oposição e prisões políticas. Ao longo dos sete mandatos, ele passou a vencer eleições por margens consideráveis e eliminou qualquer barreira para reeleições.
Há mais de 40 anos no poder, Biya é um aliado de Emmanuel Macron no continente africano. O presidente francês ainda não se manifestou sobre o resultado.
Manifestantes mortos após o resultado
A divulgação dos resultados tem provocado manifestações em diversas regiões, especialmente em Douala, a maior cidade do país. Protestos organizados pela oposição foram reprimidos pelas forças de segurança, resultando na morte de quatro pessoas no último domingo (26). Segundo relatos, a polícia teria utilizado munição real para dispersar os manifestantes.
“Neste momento em que o povo soberano voltou a depositar a sua confiança em mim para um novo mandato, os meus primeiros pensamentos vão para todos aqueles que perderam inutilmente a vida, bem como para as suas famílias, em resultado da violência pós-eleitoral”, declarou Paul Biya, em seu primeiro anúncio como suposto presidente.

Críticos do governo afirmam que o sistema político de Camarões permanece profundamente controlado pelo partido governista, com pouca margem para a atuação da oposição e denúncias recorrentes de repressão política e manipulação eleitoral.
Um manifesto da juventude camaronesa amplamente compartilhado nas redes sociais após o anúncio dos resultados, resume o sentimento de revolta. O texto destaca que o levante nas ruas é de um povo que, durante cerca de 43 anos, tem vivido na “sombra” e na “periferia da África”.
“Outros sete anos do reinado de Paul Biya não são sete dias. São sete anos a mais de dor, de desemprego, de pobreza e de esquecimento. Sete anos a mais de corrupção, de um governo octogenário que sequestrou o poder. Sete anos ainda mais devastadores de um regime autocrático”, destacou a nota.
“Camarões é para mim, Camarões é para ti, Camarões é para nós, Camarões é para os camaroneses — não para um grupo de políticos velhos, desgastados, enrugados e retorcidos. Se as urnas não podem decidir o nosso destino, seremos nós, os camaroneses, que devemos fazê-lo. É agora ou nunca”, completa o manifesto.
Além da crise política, o país enfrenta uma grave situação nas regiões anglófonas, onde um movimento separatista mantém confrontos com as forças do governo desde 2016.

Candidato da oposição diz que venceu
Em sua primeira aparição após o anúncio do resultado, Issa Tchiroma Bakary, membro da Frente para a Salvação Nacional dos Camarões (FNSC), denunciou que Paul Biya colocou cinco atiradores snipers nos arredores da sua residência para abrir fogo contra os opositores que se aproximarem do local.
Apesar da truculência, ele pediu para os apoiadores não responderem com violência e nem pegarem em armas. “As pessoas vão vir de todos os lugares. Vamos ser muito mais numerosos”, declarou.
Bakary, que foi ministro de Biya antes de romper com o governo, emergiu como alternativa de mudança, prometendo uma transição de três a cinco anos para reformar o país.

Logo após o pleito eleitoral realizado em 12 de outubro de 2025, ele declarou‐se vencedor da eleição, instando o presidente de longa data Paul Biya, de 92 anos, a reconhecer a derrota e respeitar a vontade popular.
Com a população nas ruas em seu apoio, Bakary afirmou que o resultado era claro e que devia ser honrado, apelando às forças de segurança para lealdade ao país e não àquele que chamou de “regime”.
A oposição chegou a apresentar as atas comprovando uma vitória de Bakary com 54, 8% dos votos, contra 31,3% de Byia.
Presidente do Conselho Constitucional nomeado pelo ditador
O governo do atual presidente, no entanto, rejeitou a declaração de vitória de Bakary, lembrando que, segundo a lei eleitoral camaronesa, apenas o Conselho Constitucional de Camarões pode anunciar oficialmente o vencedor, o que deveria ocorrer até 26 de outubro.
Quem preside o Conselho Constitucional é Clement Atangana, nomeado por Biya após um decreto assinado em 7 de fevereiro de 2018. A criação do órgão está prevista na Constituição de 1996, quando o ditador já estava no poder.

Atangana é visto pela oposição como peça-chave no aparato institucional que Biya controla para resolver disputas eleitorais e constitucionais, dando uma dimensão política à sua função, além da jurídica.
Em agosto de 2025, o Conselho Constitucional excluiu da corrida presidencial Maurice Kamto, líder do Movimento Renascentista Camaronês (MRC), a principal ameaça ao mandato de Paul Biya na época. Acusações de fraude eleitoral durante o pleito também foram ignoradas por Atangana, segundo a oposição.
