ARTE E RESISTÊNCIA

Há quase meio século, Ói Nóis Aqui Traveiz faz do teatro uma ferramenta de ativismo político e social

Tribo de Atuadores criou linguagens que marcaram a cena brasileira: teatro de rua e teatro de vivência

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Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz acumula diversos prêmios de teatro | Crédito: Foto: Divulgação/Ói Nóis Aqui Traveiz

Você está no Pelourinho, em Salvador, ou na praça da Sé, em São Paulo, e se depara com um teatro de rua contando a história de Carlos Mariguella. Ou no centro de Porto Alegre, sobre os brasileiros que desapareceram ao lutar contra a ditadura militar, ou ainda sobre a destruição de Canudos e a luta pela terra no Brasil.

Quem sabe vai assistir uma peça e se vê dentro do cenário interagindo com os personagens. Um teatro intenso, com cenografia marcante e personagens que te olham nos olhos. É a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, grupo de Porto Alegre que há 47 anos une arte e ativismo político para a transformação social.

Criado em plena ditadura, em 1977, cruzou décadas e se tornou referência estadual e nacional no teatro de rua, no teatro de vivência e na formação de novos atores. Um dos fundadores do Ói Nóis, o atuador Paulo Flores explica que desde a origem o grupo busca romper com o teatro tradicional.

Paulo Flores conversando com turma de formação de atores | Crédito: Foto: Alexandre Garcia

“Todo o aspecto artístico é construído coletivamente pelos atuadores, que a gente se autodenomina, que é uma palavra que para nós tem o sentido da fusão do artista com o ativista político”, explica.

Prossegue contando que o grupo desenvolveu linguagens representativas para a cena do teatro brasileiro. “Um deles, que está na origem do grupo, é o teatro de vivência, onde o espectador não apenas assiste o desenrolar, o desenvolvimento de cenas, de imagens, mas participa, está envolvido dentro da cenografia. Então é como se fosse um grande ritual onde todos compartilham aquela experiência. A outra é o teatro de rua, que o Ói Nóis foi um dos pioneiros no nosso país, com o teatro de rua contemporâneo.”

Ao recordar as décadas de trabalho do grupo, a atuadora Tânia Farias destaca a repressão sofrida no início da companhia. O que acabou forjando a linguagem teatral que hoje é reconhecida no país. O grupo já recebeu prêmios como o Shell de teatro 2025, o Milú Villela/Itaú Cultural 2022, diversos Açorianos e a Ordem do Mérito Cultural 2015, concedida pela Presidência da República.

“O Ói Nóis foi uma série de vezes pra rua, tentando levar o exercício cênico, essas formulações teatrais para o espaço público, e teve uma série de repressões, porque ainda era ditadura, os primeiros momentos em que Ói Nóis foi, e a persistência do Ói Nóis em voltar para a rua, mesmo que na vez anterior os atores foram presos, os bonecos foram destruídos. Esse retorno às ruas, ele forja o teatro de rua do Ói Nóis aqui no Rio Grande do Sul”, relembra.

Tânia Farias mostra fotos e relembra a trajetória da tribo | Crédito: Foto: Alexandre Garcia

Escola de teatro popular

Não bastou ao Ói Nóis apenas fazer teatro. A ferramenta social começou a ser expandida, inicialmente com oficinas abertas. Depois com a Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo, em Porto Alegre, que já formou gratuitamente centenas de atuadores e atores, e muitos outros grupos teatrais.

Tânia Farias começou no teatro ainda na época das oficinas e nunca mais deixou o grupo. “Tu entra através de uma oficina, tu te envolve com um grupo, tu permanece aqui, vira atuadora do grupo e daqui a pouco tu também tá dando uma oficina gratuita. E tu segue alimentando essa ideia de uma aprendizagem solidária. Em 2000, eu já era uma atuadora do Ói Nóis e, junto com o Paulo, com a Clarice Falcão, nós criamos a Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo”, afirma.

Confira a reportagem em vídeo, veiculada no programa Bem Viver:

Paulo Flores reforça a vocação pedagógica do grupo, que além das aulas em sua sede também desenvolveu formação teatral em diversos bairros periféricos de Porto Alegre.

“É uma característica que leva o Ói Nóis, quando constitui a Terreira da Tribo, que é o espaço desde 1984, que a gente denomina o nosso espaço como Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. A gente ofereceu as mais diversas oficinas até chegar no ano 2000 e constituir a Escola de Teatro Popular, que continua com essa dinâmica de oficinas, tanto aqui na nossa sede, a Terreira da Tribo, como também em bairros populares”, diz o atuador.

Superando desafios em comunidade

A história do grupo foi atravessada por momentos desafiadores. Primeiro a pandemia, interrompendo trabalhos presenciais por dois anos. Depois a enchente de 2024, que inundou a sede. “A Terreira ficou um mês embaixo dessa lama toda, onde a gente perdeu um enorme número de materiais da cena, desde equipamentos de iluminação, elétricos, como material cênico mesmo.Nós tivemos uma grande perda do nosso acervo”, comenta Paulo Flores.

Segundo Tânia Farias, a enchente foi quando o grupo achou que ia deixar de existir. “Quando a gente entrou na Terreira, primeiro de junho do ano passado, em 2024, e viu a Terreira como estava, com… aquilo tudo. Era muita coisa que tinha virado pasta”, recorda.

A atuadora conta que o Ói Nóis recebeu grande apoio quando as águas baixaram. “Quando a gente entendeu, ‘olha, a água tá baixando, provavelmente daqui a X dias a gente vai poder entrar’, a gente marcou um grande ato político. A gente disse ‘olha, quem quiser vir com a gente, a gente não quer abrir essa porta sozinho’. E a comunidade veio com a gente. E a comunidade veio com a gente, muito potente, sabe?”

Início da limpeza pós-enchente na antiga sede foi feita junto de apoiadores | Crédito: Foto: Divulgação/Ói Nóis Aqui Traveiz

Museu da Cena

Com uma nova sede reaberta no mesmo bairro ─ na avenida Pátria, 98, São Geraldo ─ um ano depois da enchente, o grupo retomou os trabalhos culturais e pedagógicos e também a eternização da sua memória. Prepara o Museu da Cena, que já conta com repositório digital e neste ano vai ganhar espaço físico, em salas cedidas pela Superintendência do Patrimônio da União no centro de Porto Alegre.

“A gente vai levar pra lá esse acervo de figurinos, máscaras, adereços, tudo que cabe nesse elevadorzinho e nessa escadaria e nas salas, a gente vai levar pra lá. E vai continuar o trabalho de triagem, conservação, registro, catalogação e alimentação do repositório digital, vai ser tudo feito lá”, explica Tânia Farias.

Teatro: arte fundamental

Rumo aos 50 anos, o Ói Nóis está cheio de projetos e quer cada vez mais ser comunidade, construir junto do seu público, mantendo vivo o entendimento de que o teatro promove consciência e transformação social.

“O exercício de olhar o ser humano, que a gente não faz mais, porque a gente está totalmente virtualizado, faz com que o teatro se torne cada vez mais fundamental. Porque a gente faz esse exercício de estar presencialmente diante do ser humano e fazer um exercício generoso”, analisa Tânia Farias.

Paulo Flores complementa lembrando que a arte é um elemento transformador. “E o teatro, por ser a arte talvez mais objetiva, que pode falar mais diretamente sobre as questões sociais, acredito que tem um compromisso muito importante nessa transformação.”

Editado por: Katia Marko

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