O nível dos reservatórios que abastecem a região metropolitana de São Paulo encontra-se abaixo do registrado no final de 2013, ano que antecedeu a seca histórica de 2014 e 2015. Em 31 de dezembro daquele ano, o Sistema Cantareira operava com 27,3% de sua capacidade, conforme dados da Sabesp, a empresa de saneamento do estado.
Atualmente, o índice está em 23,4%, considerado “muito preocupante” pelo gerente de água da The Nature Conservancy (TNC) Brasil, Samuel Barreto. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele explica que a situação é resultado de uma combinação de fatores que vão além da falta de chuvas.
“O sistema Cantareira perdeu mais de 70% da sua cobertura florestal original com o crescimento desordenado das cidades. Isso, somado ao aumento do consumo e aos impactos das mudanças climáticas, explica esse cenário. Mesmo que chova dentro das médias históricas, ainda vamos chegar ao próximo ano com níveis preocupantes”, diz.
O governo paulista anunciou, na última sexta-feira (25), um plano emergencial de restrição no abastecimento que pode reduzir o fornecimento de água entre 8h e 16h, como forma de evitar que os mananciais atinjam o “volume morto”. Para Barreto, medidas estruturais devem acompanhar as ações imediatas.
“É fundamental pensar não só em grandes obras, mas também na recuperação de córregos, mananciais e bacias hidrográficas. A água não vem da torneira, ela vem de um manancial. Se a bacia está saudável, a gente tem mais segurança hídrica”, defende.
O especialista também critica o alto índice de desperdício. Segundo ele, São Paulo perde cerca de 29% da água tratada, enquanto em algumas regiões do país as perdas chegam a 70%. “É inadmissível perder em média 40% da água. É algo que precisa ser prioridade zero porque afeta a economia, os ecossistemas e a vida de todos”, aponta.
Crise climática amplia risco hídrico
Barreto ressalta que a crise hídrica não é um problema isolado de São Paulo, mas um fenômeno nacional. Ele destaca o desmatamento da Amazônia e do Cerrado como fatores centrais na redução das chuvas e na alteração do ciclo das águas. “Se continuarmos degradando esses biomas, o risco de racionamentos até 2050 é real”, alerta.
O gerente da TNC defende que a adaptação às mudanças climáticas passa pelo uso racional e pela conservação da água. “Se a mitigação das mudanças climáticas é carbono, a adaptação é água”, resume.
Periferias devem ser prioridade
Com o plano de racionamento em curso, Barreto destaca a necessidade de atenção especial às periferias, onde muitas residências não têm caixa d’água. “São as populações mais vulneráveis que sofrem mais. É preciso planos de contingência para garantir o abastecimento dessas áreas. E não podemos esquecer dos grandes usuários: a prioridade deve ser o abastecimento doméstico”, indica.
Para ele, enfrentar o problema também passa por uma mudança cultural. “Não é possível mais ver gente varrendo calçada com água. Precisamos de uma nova atitude diante desse bem que é fundamental para a vida”, acrescenta.
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