O presidente chinês Xi Jinping afirmou na segunda-feira (27) que o Palácio Museu deve seguir o princípio de que “as relíquias culturais pertencem ao povo e servem ao povo, e trabalhar mais arduamente para proteger, restaurar e fazer bom uso das relíquias culturais”.
A declaração foi feita durante visita à exposição “Um Século de administração: da Cidade Proibida ao Palácio Museu”, que marca o centenário da instituição fundada em 10 de outubro de 1925.
A mostra reúne 200 peças, com obras-primas de caligrafia, pinturas, bronzes e artefatos de jade, documentando o desenvolvimento do museu.
Até setembro deste ano, a China tinha registrado 7.046 museus, dos quais 6.444 (91%) têm entrada gratuita. Os ingressos ao Palácio Museu variam de 10 a 60 yuans, o equivalente a R$ 7,50 a R$ 45. Para comparação, o preço mais barato para entrar no Louvre de Paris é de €22, cerca de R$138.
O Palácio Museu é o nome oficial do lugar historicamente conhecido como Cidade Proibida, um grande conjunto arquitetônico murado situado no centro de Pequim, que serviu como palácio imperial da China por quase cinco séculos, de 1420 a 1912.
Após a expulsão do jovem ex-imperador Puyi da Cidade Proibida em 1924, pelo senhor de guerra Feng Yuxiang, a Cidade Proibida com todas suas relíquias foi aberta ao público em 10 de outubro de 1925.
Cem anos depois, o Palácio Museu administra mais de 1,86 milhão de relíquias culturais distribuídas em 25 categorias, que abrangem toda a história da civilização chinesa desde o período Neolítico até o final da Dinastia Qing.
Durante a visita, Xi destacou que o Palácio Museu deve servir como “importante base educacional para fomentar o patriotismo e janela importante para o mundo entender melhor a civilização chinesa e a nação chinesa”.
Sistema de conservação
O modelo de preservação desenvolvido pelo Palácio Museu ao longo de um século representa uma síntese única entre tradição e inovação. Segundo Qu Feng, diretor do Departamento de Conservação e Restauração de Relíquias Culturais, o sistema atual opera em três frentes integradas: pesquisa tecnológica, restauração prática e padronização de métodos. Este último ponto significa que para cada peça, em função do tipo de material, da época, do nível do dano, entre outros fatores, é elaborado um plano específico de restauração.
A instituição conta com 150 profissionais distribuídos em 12 oficinas especializadas, que trabalham com pinturas, cerâmicas, metais, relógios antigos, entre outros artefatos. O museu possui mais de 20 laboratórios dedicados à análise de materiais e controle ambiental. Cinco técnicas de restauração desenvolvidas no museu foram reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial Nacional da China, enquanto três receberam status de Patrimônio Imaterial de Pequim.
A correspondência do Brasil de Fato na China visitou as instalações do Palácio Museu e entrevistou diversas autoridades especialistas em diferentes campos de conhecimento.
A coordenadora do Grupo de Restauração de Pinturas e Caligrafias do Departamento de Preservação e Restauração, Ma Yue, explica que a técnica utilizada pela equipe foi incluída em 2008 na lista do Patrimônio Cultural Imaterial Nacional. “Nossa equipe tem 16 pessoas, todas herdeiras desse projeto de patrimônio. Dessas, quatro são ‘herdeiros representativos’ da técnica”, afirma. O sistema de transmissão de conhecimento opera através do modelo mestre-aprendiz, garantindo a continuidade de métodos que remontam à Oficina Imperial da dinastia Qing.
Formação e desafios técnicos
O processo de formação de um restaurador completo no Palácio Museu exige entre cinco e sete anos de capacitação, chegando a uma década para especialização plena. Kong Yanju, vice-diretora do Departamento de Conservação e Restauração do Patrimônio Cultural no museu, conta que os estagiários começam pelas tarefas mais simples, passando de dois a três anos apenas estudando técnicas artesanais básicas como escultura em jade e pintura, além de se familiarizarem com os materiais.
“Para restaurar relíquias de forma totalmente independente, leva até sete anos”, explica Kong. Ela ressalta que os cursos universitários chineses relacionados à preservação de patrimônio cultural têm formação predominantemente teórica, com parte prática limitada, já que as universidades raramente têm acesso a relíquias reais para treinamento.

O princípio orientador do trabalho, segundo Kong, é “preservar ao máximo as informações originais da peça, fazendo apenas intervenções moderadas de manutenção, proteção e reparo”. Durante a restauração, a equipe avalia caso a caso se adesivos tradicionais ou modernos são mais adequados, optando frequentemente pelos tradicionais quando a relíquia é frágil ou exige compatibilidade extrema.
Inovação na preservação de acervos históricos
A complexidade do trabalho varia conforme o tipo de relíquia. O chefe da Equipe de Restauração de Relíquias Culturais Mecânicas, Qi Haonan, explica que o museu possui mais de 1.500 relógios em seu acervo, dos quais cerca de 200 ainda precisam de restauração urgente. “Quanto mais mecanismos o relógio tem –sistemas de transmissão, autômatos –, mais complexo fica”, afirma Qi.
Quando falta uma peça original, a equipe utiliza documentos históricos ou relógios similares já restaurados como referência, empregando scanners 3D e réplicas digitais para recriar as partes faltantes. “O verdadeiro desafio é o ajuste”, explica Qi. “Você limpa, monta tudo direitinho, mas na hora de testar, o relógio não marca as horas certinho. Aí tem que desmontar o mecanismo de novo, ajustar a posição de cada engrenagem milimetricamente, até que tudo funcione em perfeita sincronia”.
A diretora do Departamento de Monitoramento do Patrimônio Mundial, Di Yajing, destaca a mudança de paradigma na abordagem preventiva. “Diferente da restauração emergencial tradicional, hoje controlamos riscos mínimos para manter a saúde das estruturas com intervenções mínimas”, afirma. O trabalho preventivo invisível garante que os pátios tenham pisos nivelados, sem ervas daninhas nos telhados ou solo, e sem alagamentos durante a chuva, explica a diretora.

Marcos históricos e modernização
O sistema de recuperação e conservação do Palácio Museu passou por diferentes etapas desde sua fundação. Em 1952, foi criado o Grupo de Restauração de Relíquias, expandido em 1954 com a incorporação de artesãos talentosos, incluindo herdeiros das técnicas da Oficina Imperial da dinastia Qing. Em 1962, foi criada a Fábrica de Restauração e Reprodução de Relíquias, com especialidades que incluíam a restauração de pinturas, metais, madeira e relógios antigos.
A década de 1980 marcou o início do intercâmbio internacional para adoção de técnicas avançadas. O marco mais recente foi em 2016, com a inauguração do novo complexo de restauração, que reuniu análise técnica, prevenção e métodos inovadores.
Em 2024, o departamento foi dividido em Ciência e Tecnologia e Conservação e Restauração, consolidando o sistema tripartite atual.
Patrimônio de valor inestimável
A coleção do Palácio Museu apresenta características únicas. Segundo Qu Feng, mais de 90% das peças são classificadas como relíquias preciosas, formando uma “pirâmide invertida” devido à origem nobre do acervo, que provém principalmente da corte imperial. As relíquias estão vinculadas a eventos históricos decisivos, figuras influentes ou avanços tecnológicos e artísticos, carregando valor histórico, técnico e estético excepcional.
Entre as obras restauradas ao longo das décadas estão peças emblemáticas como: o pergaminho “Passeio da Primavera” do artista Zhan Ziqian, da época da Dinastia Sui (581 a 618); o pergaminho “Cinco Touros“, da Dinastia Tang , de Han Huang (que viveu entre 723-787); e o Trono da Suprema Harmonia, da Dinastia Ming (1368-1644). Anualmente, o museu restaura mais de 300 relíquias e desenvolve cerca de 30 projetos de pesquisa.
Em julho de 2024, o Eixo Central de Pequim foi incluído na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. O Palácio Museu, que já era reconhecido como Patrimônio Mundial desde 1987, passou a ser tanto um patrimônio independente quanto um dos 15 elementos constitutivos desse eixo.
Perspectivas para o segundo centenário
Kong Yanju reflete sobre a importância do trabalho de preservação para a identidade cultural chinesa. “Enquanto preservamos esses objetos históricos, também pesquisamos suas técnicas tradicionais e mantemos viva a essência que essas relíquias representam”, afirma. “Isso é importante tanto para nosso próprio aprendizado quanto para guiar os jovens. Nos permite entender melhor nosso passado, reconhecer o esplendor de nossa cultura e fortalecer nossa confiança cultural”.
Di Yajing enfatiza a dimensão nacional do trabalho de preservação. “Nosso presidente disse uma vez que proteger o patrimônio cultural é, na verdade, proteger as raízes da nossa própria nação”, afirma. “Se a herança cultural desaparecer, nossa cultura desaparecerá. Nesse sentido, para nós, proteger o patrimônio é proteger a nós mesmos, é proteger o nosso próprio povo”.
