Massacre

Corpos estirados, aulas suspensas e filas no IML marcam dia seguinte à chacina policial no Rio

'Polícia é motor de violência no Rio', diz especialista sobre operação que pode ter deixado mais de 130 mortos

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Moradores da Penha recuperaram 60 corpos em área de mata após operação, além do balanço oficial que contabiliza 64 mortes
Moradores da Penha recuperaram 60 corpos em área de mata após operação, além do balanço oficial que contabiliza 64 mortes | Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Moradores do Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, passaram a madrugada desta quarta-feira (29) em áreas de mata identificando e carregando corpos deixados após a megaoperação policial que matou 64 pessoas na véspera. Mais de 60 corpos que não constam no balanço oficial de mortes foram retirados da mata por moradores e deixados na Praça São Lucas, na Penha, para reconhecimento das famílias. Estudantes de escolas da região estão sem aula às vésperas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e famílias seguem em busca de informações sobre parentes no Instituto Médico Legal (IML) e no prédio do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), onde são feitas as identificações das vítimas.

Para Carlos Nhanga, coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado, o cenário é de “morte, terror e impacto mental”. “Está longe de ser uma situação normal, está longe de ser uma situação aceitável. Como as crianças e os adolescentes caminham pelas ruas e se deparam com 60 corpos estirados numa praça, como se não fosse nada? Isso é exatamente o retrato da política de segurança pública do Rio de Janeiro”, afirmou ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Nhanga ressaltou que “as forças policiais são o motor da violência armada no Rio de Janeiro”. Um terço dos tiroteios mapeados no Grande Rio pelo Instituto Fogo Cruzado envolvem as forças policiais e mais da metade das mortes por armas de fogo monitoradas ocorreram durante a atuação da polícia no estado. “Essas operações possuem como indicadores de sucesso justamente as mortes, as apreensões de armas e drogas, e não consideram pacientes do hospital Getúlio Vargas que não tiveram atendimento porque uma dezena de corpos entrou e tomou todo o aparato”, criticou.

O especialista classificou a ação como uma “chacina” e “a maior mancha de sangue da história do Rio de Janeiro”, e cobrou explicações do governo estadual tanto a respeito das vítimas contabilizadas, quanto dos corpos que “não receberam o devido socorro e não tiveram sequer uma perícia”. “Está tudo muito nebuloso ainda. As famílias estão no IML, na porta de hospitais, no Detran em busca de respostas. É preciso reconhecer o caos que foi essa operação e os impactos que ela causou em toda a cidade”, defendeu.

Ele destacou que, historicamente, operações desse tipo não trazem resultados concretos, apenas repetem um padrão de violência. “Há anos, moradores de Jacarezinho varriam as ruas de sangue. O que melhorou desde então? Absolutamente nada”, aponta. Ele cita que o Comando Vermelho (CV), alvo também desta última operação, continua atuando nas mesmas áreas e recorda que o Estado brasileiro já foi condenado pela Corte Interamericana por violações de direitos nas chacinas de 1994 e 1995. “Não são impactos novos, é um cenário que se repete”, analisou.

Para o coordenador, é possível adotar um modelo de segurança pública que considere a importância da vida das pessoas, “mas precisa de vontade política para isso”. “Vimos uma grande operação em São Paulo contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), com investigação e inteligência, que enfraqueceu o braço financeiro da facção sem produzir esse tipo de tragédia. A operação dessa facção [CV] não gira em torno da favela. É mais do que necessário e urgente pensar em outras vias”, exemplificou.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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