IMPACTO SILENCIOSO

Megaoperação no Rio tem reflexos na saúde mental e vida social de milhares de pessoas

Deputada Lilian Behring (PCdoB) defende que presença do Estado nas favelas deve ser com oportunidades, não com violência

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Moradores da Penha recuperaram 60 corpos em área de mata após operação, além do balanço oficial que contabiliza 64 mortes
Moradores da Penha recuperaram 60 corpos em área de mata após operação, além do balanço oficial que contabiliza 64 mortes | Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

O Rio de Janeiro amanheceu nesta terça-feira (28) sob o som de tiros, sirenes e medo. Mais de sessenta mortes, vias bloqueadas, ônibus incendiados, transporte interrompido, escolas e unidades de saúde paralisadas. A cidade parou. Mas, para quem vive nas comunidades onde essas operações acontecem, o medo não é novidade. Ele é um velho conhecido que volta, de tempos em tempos, para lembrar que o Estado ainda está mais presente com armas do que com políticas públicas.

Como deputada e profissional da saúde, não consigo dissociar o que aconteceu da dimensão humana, daquilo que vai além dos números frios e das manchetes: o impacto na saúde mental, emocional e social de milhares de pessoas. Falo de famílias inteiras que se escondem dentro de casa, de crianças que aprendem a reconhecer sons de fuzil antes de aprender a ler, de profissionais que saem para trabalhar sem saber se conseguirão voltar. Falo também das equipes de enfermagem, médicos, socorristas, assistentes sociais, que seguem atuando — mesmo em meio ao caos — porque a vida das pessoas depende disso.

Essas trabalhadoras e trabalhadores da saúde estão na linha de frente não apenas contra a doença, mas contra o medo, o estresse e o trauma. São profissionais que, além de cuidar do corpo do outro, precisam lidar com o impacto psicológico de atuar em áreas de risco, com deslocamentos impossíveis, com a insegurança que atravessa o caminho até o hospital ou a unidade de saúde. A saúde mental desses profissionais — e de toda a população — é ferida diariamente quando o Estado falha em garantir o mínimo: o direito de viver sem medo.

O bem-estar biopsicossocial, conceito fundamental da saúde integral, pressupõe equilíbrio entre corpo, mente e contexto social. E é justamente o contexto que tem sido sistematicamente negligenciado. Como falar em saúde quando a comunidade vive em estado permanente de tensão? Quando o tiroteio interrompe o atendimento? Quando o transporte não chega, a escola fecha e a equipe de enfermagem não consegue prestar assistência porque a região está sitiada?

O que vimos nesta terça-feira é o retrato de algo que adoece e que não resolve. Ocupação deve acontecer com vida. E ocupar com vida significa presença do poder público de forma contínua e estruturada: com escolas funcionando, com postos de saúde equipados, com cultura, lazer, moradia digna e oportunidades. Significa garantir políticas de prevenção à violência e de promoção da saúde mental. Significa olhar para as causas e não apenas para as consequências.

A ausência do Estado em suas funções básicas abre espaço para o avanço da violência, e quem paga o preço é a população — sobretudo a mais pobre, a mais vulnerável, a que mais precisa de proteção. Quando o poder público se faz presente apenas por meio da repressão, ele deixa de ser instrumento de cuidado e se transforma em agente de adoecimento.

Precisamos ocupar, como eu disse, as comunidades com vida, com políticas públicas, com serviços de qualidade. Precisamos valorizar e proteger os profissionais que permanecem firmes, mesmo diante da barbárie, cumprindo o papel mais nobre do serviço público: cuidar de gente. E precisamos, sobretudo, garantir que o direito à saúde — física, mental e social — seja respeitado como um compromisso de Estado, e não como uma promessa distante.

O Rio precisa de mais oportunidades. De ocupações humanas. E, enquanto profissional de saúde e deputada estadual, seguirei defendendo uma ocupação com a vida — porque cuidar é resistir. E resistir, nesse contexto, é reafirmar o valor da vida em meio à política da morte.

*Lilian Behring é deputada estadual (PCdoB-RJ), enfermeira, defensora da saúde pública e da dignidade profissional.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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