O Rio de Janeiro amanheceu nesta terça-feira (28) sob o som de tiros, sirenes e medo. Mais de sessenta mortes, vias bloqueadas, ônibus incendiados, transporte interrompido, escolas e unidades de saúde paralisadas. A cidade parou. Mas, para quem vive nas comunidades onde essas operações acontecem, o medo não é novidade. Ele é um velho conhecido que volta, de tempos em tempos, para lembrar que o Estado ainda está mais presente com armas do que com políticas públicas.
Como deputada e profissional da saúde, não consigo dissociar o que aconteceu da dimensão humana, daquilo que vai além dos números frios e das manchetes: o impacto na saúde mental, emocional e social de milhares de pessoas. Falo de famílias inteiras que se escondem dentro de casa, de crianças que aprendem a reconhecer sons de fuzil antes de aprender a ler, de profissionais que saem para trabalhar sem saber se conseguirão voltar. Falo também das equipes de enfermagem, médicos, socorristas, assistentes sociais, que seguem atuando — mesmo em meio ao caos — porque a vida das pessoas depende disso.
Essas trabalhadoras e trabalhadores da saúde estão na linha de frente não apenas contra a doença, mas contra o medo, o estresse e o trauma. São profissionais que, além de cuidar do corpo do outro, precisam lidar com o impacto psicológico de atuar em áreas de risco, com deslocamentos impossíveis, com a insegurança que atravessa o caminho até o hospital ou a unidade de saúde. A saúde mental desses profissionais — e de toda a população — é ferida diariamente quando o Estado falha em garantir o mínimo: o direito de viver sem medo.
O bem-estar biopsicossocial, conceito fundamental da saúde integral, pressupõe equilíbrio entre corpo, mente e contexto social. E é justamente o contexto que tem sido sistematicamente negligenciado. Como falar em saúde quando a comunidade vive em estado permanente de tensão? Quando o tiroteio interrompe o atendimento? Quando o transporte não chega, a escola fecha e a equipe de enfermagem não consegue prestar assistência porque a região está sitiada?
O que vimos nesta terça-feira é o retrato de algo que adoece e que não resolve. Ocupação deve acontecer com vida. E ocupar com vida significa presença do poder público de forma contínua e estruturada: com escolas funcionando, com postos de saúde equipados, com cultura, lazer, moradia digna e oportunidades. Significa garantir políticas de prevenção à violência e de promoção da saúde mental. Significa olhar para as causas e não apenas para as consequências.
A ausência do Estado em suas funções básicas abre espaço para o avanço da violência, e quem paga o preço é a população — sobretudo a mais pobre, a mais vulnerável, a que mais precisa de proteção. Quando o poder público se faz presente apenas por meio da repressão, ele deixa de ser instrumento de cuidado e se transforma em agente de adoecimento.
Precisamos ocupar, como eu disse, as comunidades com vida, com políticas públicas, com serviços de qualidade. Precisamos valorizar e proteger os profissionais que permanecem firmes, mesmo diante da barbárie, cumprindo o papel mais nobre do serviço público: cuidar de gente. E precisamos, sobretudo, garantir que o direito à saúde — física, mental e social — seja respeitado como um compromisso de Estado, e não como uma promessa distante.
O Rio precisa de mais oportunidades. De ocupações humanas. E, enquanto profissional de saúde e deputada estadual, seguirei defendendo uma ocupação com a vida — porque cuidar é resistir. E resistir, nesse contexto, é reafirmar o valor da vida em meio à política da morte.
*Lilian Behring é deputada estadual (PCdoB-RJ), enfermeira, defensora da saúde pública e da dignidade profissional.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
