121 mortos

Chacina no RJ: pesquisador defende afastamento de governador, secretário e policiais para perícia independente

Para André Rodrigues, guerra às drogas reprime negros nas favelas; ele vê caso como “mais triste depois da escravidão”

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Familiares identificam corpos trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro | Crédito: Tomaz Silva /Agência Brasil

O coordenador do Laboratório de Estudos sobre Política e Violência da Universidade Federal Fluminense (UFF), André Rodrigues, afirmou que o governador Cláudio Castro (PL), o secretário de Segurança Pública, Victor Santos, e os policiais envolvidos na Operação Contenção, realizada nesta terça-feira (28) no Rio de Janeiro, devem ser afastados de seus cargos e investigados por uma perícia independente. A ação deixou pelo menos 121 mortos e 113 pessoas presas, segundo as Polícias Civil e Militar.

“Em lugar nenhum do mundo democrático uma operação dessa ocorre e, no dia seguinte, o secretário de Segurança Pública e o governador continuam em seus cargos normalmente. Esses agentes precisam ser investigados e, para serem investigados, precisam ser afastados”, declarou ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Rodrigues defende que as apurações sejam conduzidas fora do controle das corporações policiais. “Quem tem que ser investigado agora é a Polícia Civil e a Polícia Militar, o secretário de Segurança Pública e o governador do estado, por uma perícia independente”, afirmou. “Uma perícia operada pela mesma corporação que desempenhou esses atos, e cujo chefe deu as declarações que deu na coletiva de ontem, é uma perícia completamente posta em suspeição”, acrescentou.

Em coletiva de imprensa nesta quarta (29), o governador Cláudio Castro classificou a ação como um “sucesso” e reconheceu apenas os quatro policiais mortos como vítimas. No mesmo dia, o secretário Victor Santos afirmou que a operação “foi o maior baque que o Comando Vermelho já tomou, com perdas de armas e lideranças”, apesar de admitir que ela não alcançou seu principal objetivo: a prisão de Edgar Alves Andrade, conhecido como Doca da Penha ou Urso, uma das lideranças da facção.

Para o pesquisador, apenas uma perícia autônoma pode garantir justiça às vítimas. “A perícia independente é o elemento mais fundamental da possibilidade de estabelecimento de justiça sobre esse tipo de caso”, indicou. Ele destacou ainda o papel do Supremo Tribunal Federal (STF) na fiscalização de operações no Rio de Janeiro, em razão da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) das Favelas, que estabelece medidas para reduzir letalidade em operações policiais na capital.

Uma investigação federal foi realizada quando houve a Chacina do Pan, em 2007. Na ocasião, 19 pessoas foram mortas durante uma operação no Complexo do Alemão. O relatório de perícia independente apontou que 73% dos corpos tinham marcas de tiros na cabeça e nas costas, caracterizando execuções sumárias e arbitrárias no caso.

Rodrigues também cobrou que a Defensoria Pública garanta o atendimento e o acesso a informações para os familiares das vítimas. “A Defensoria precisa assegurar que o Ministério Público vai acompanhar caso a caso e que essas pessoas vão ter uma resposta”, disse.

‘Dia mais triste da história do Brasil depois da escravidão’

André Rodrigues classificou a ação policial como “o evento mais triste da história moderna brasileira”. “Depois do evento da escravização colonial, foi o dia mais triste da nossa história. É isso que a polícia e o governo do Rio de Janeiro promoveram”, denunciou. Na sua avaliação, “a guerra às drogas é um belo pretexto para a repressão violenta das populações faveladas, da população negra brasileira.”

O pesquisador destacou que Estado brasileiro constrói um “inimigo público” que recai sobre jovens negros das favelas, enquanto os verdadeiros operadores do tráfico internacional seguem intocados. “Na favela não tem fábrica de armas, nas favelas brasileiras não tem indústria cocaleira. Os jovens operadores do varejo do tráfico não são milionários. Muitos sequer chegam a se tornar adultos”, afirmou.

“É uma vergonha a polícia falar que fez um ano de investigações para realizar aquela operação. É um atestado de que aquele massacre foi meticulosamente planejado”, ressaltou. “Nenhum aspecto daquela operação policial esteve dentro de qualquer padrão aceitável. Não existe nenhuma possibilidade de que uma operação com mais de 130 mortos [número divulgado pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro] esteja dentro de qualquer parâmetro legal”, acrescentou.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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