VIDAS NEGRAS

Movimento negro gaúcho denuncia chacina no Rio e cobra fim da política de extermínio

A mobilização nesta sexta, parte de uma articulação nacional, cobrou o fim das operações policiais letais nas periferias

No audio source provided.
Intervenção artística realizada pelo grupo de teatro Levanta Favela, na Esquina Democrática, trouxe à cena a representação dos corpos das vítimas da chacina | Crédito: Foto: Jorge Leão

Entidades e coletivos do movimento negro realizaram nesta sexta-feira (31), às 17h, na Esquina Democrática, em Porto Alegre, um ato público em protesto contra o massacre ocorrido no Rio de Janeiro, que resultou em mais de 120 mortes em operação policial.

A mobilização, parte de uma articulação nacional, cobrou o fim das operações policiais letais nas periferias e denunciou a política de extermínio que atinge principalmente a população negra. A atividade contou com participação da Coalizão Negra por Direitos, Movimento Negro Unificado (MNU), Frente Negra Gaúcha, entidades estudantis, movimentos culturais e coletivos antirracistas, além de moradores e familiares das vítimas.

Logo no início do ato, foi apresentada uma intervenção artística realizada pelo grupo de teatro Levanta Favela, que trouxe à cena a representação dos corpos das vítimas da chacina, misturando performance, poesia e rap em evocação das vidas perdidas. A peça arrancou silêncios e aplausos, e serviu como ponto de virada para a caminhada que se seguiu até o Largo Zumbi dos Palmares, onde a mobilização se encerrou com uma foto coletiva em frente à estátua de Zumbi dos Palmares.

Manifestantes participam de ato público contra políticas de extermínio da juventude negra – Foto: Jorge Leão

A denúncia da violência de Estado

Durante a manifestação, os participantes apontaram a ação como parte de uma política sistemática de extermínio. O representante da União das Associações de Moradores de Porto Alegre (Uampa) Bruno Matos disse que o governador Cláudio Castro tem responsabilidade direta pelo massacre e que “o Estado brasileiro continua matando o povo preto”. Para ele, é necessário implementar um projeto nacional de segurança cidadã que não trate a favela como inimiga, lembrando que a maior apreensão de fuzis no Rio de Janeiro ocorreu em bairros nobres, como na Barra da Tijuca.

Para Camila Neves, do coletivo Nacional da Juventude Negra (Enegrecer), a operação deve ser vista como “uma chacina, e não uma operação”. “Essa chacina é uma resposta ao bolsonarismo e ao processo eleitoral”, afirmou, defendendo que a juventude negra exige prisão para aqueles que defendem a política de morte. Ela destacou que “o crime organizado se combate com estratégia, e não com assassinato ou subida em favelas para matar pobres”.

Douglas Lopes, do coletivo Alicerce, defendeu que o episódio no Rio de Janeiro se insere em um histórico de genocídio que dura mais de 500 anos, na medida em que “o extermínio dos corpos é o resultado final desse projeto” e ressaltou ainda que “soberania não se constrói com política de morte”. Ele concluiu que, por isso, é necessária a reparação histórica e não apenas a apuração de mais uma operação.

Coletivos culturais e entidades estudantis se reúnem para denunciar violência estatal nas periferias – Foto: Jorge Leão

Carlos Vieira, aluno da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e integrante da União Estadual dos Estudantes (UEE), reforçou que “a juventude negra está morrendo, pois é a favela que determina quem vive e quem morre”. Ele denunciou que o governo do Rio de Janeiro realiza operações em nome da segurança pública para atacar o povo trabalhador sob o pretexto da guerra às drogas.

Já Gustavo Ramos, do coletivo União Popular (UP), denunciou o ocorrido como “um genocídio televisionado” e um “massacre executado pela força do Estado capitalista”. Ele disse ainda que, se o objetivo fosse encontrar drogas, “estas deveriam ser procuradas na Faria Lima ou no avião da FAB”, lembrando que o aparato do Estado trata as comunidades com terror para impor medo e controle.

O alvo e a necropolítica

Na visão da deputada federal Maria do Rosário (PT), o evento é inaceitável e precisa ser chamado pelo seu nome: “chacina, e não operação de segurança pública ou de inteligência”, uma vez que “nunca foi sobre grupos criminosos, mas sempre sobre a necropolítica”. Ela defendeu a necessidade de uma perícia autônoma e a federalização da investigação. “Quem vai investigar esse crime? Os que comandaram a ação criminosa?”, questionou. Para ela, “o governador Cláudio Castro é o criminoso nisto”.

Josiel Rodrigues, da União Nacional de Entidades Negras (Unegro), reforçou que a política de extermínio é a concretização da necropolítica contra corpos negros e que é urgente construir outra lógica de segurança pública para que o povo negro possa viver com dignidade.

Niara Dy Luz, presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Ufrgs, enfatizou que “o caso só tomou repercussão nacional por terem sido 130 mortes em um único dia, mas o genocídio da juventude negra acontece continuamente”. Ela classificou o episódio como terrorismo de Estado, citando que pessoas foram mortas, degoladas, tiveram membros arrancados e corpos desaparecidos – práticas que remontam à ditadura.

Integrantes de movimentos negros destacam a importância de políticas de segurança pública humanizadas – Foto: Jorge Leão

Para Isadora Trajano, do movimento Defesa Periférica, “a ação nunca foi guerra às drogas, sempre foi guerra ao povo periférico preto”. Ela descreveu o povo periférico como trabalhador que “carrega o país nas costas” e defendeu que, em vez de apenas resistir, é necessário “revidar”.

Manu Oxy, do movimento Hip Hop, afirmou que o que ocorreu no Rio foi “um ato de política de extermínio da população negra da periferia”. Ele lembrou que, “para quem cresceu no morro, as forças de segurança pública tratam a juventude negra de forma violenta, agredindo primeiro para depois perguntar quem a pessoa é e pedir o RG”. Ele definiu o episódio como genocídio e chacina.

A secretária de Combate ao Racismo da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Isis Garcia, expressou indignação pela gestão do Rio de Janeiro que “vê a população das comunidades como marginais, e não como trabalhadores”. Ela argumentou que esse imaginário foi construído para negar dignidade a essas pessoas e comparou a polícia a “capitão do mato moderno, que se preocupa com o patrimônio e não com as pessoas”.

Para Luísa Maffei, do movimento Favela Ufrgs, “vidas negras importam” e defendeu que a juventude, mães e trabalhadores não devem aceitar mais essa política de morte. Ela acredita que o povo negro precisa de educação e escola, e não de mais presídios, porque “a construção de presídios busca prender o povo negro”.

A advogada Perla Sampaio, da Frente Negra Gaúcha, ressaltou que a juventude negra continua morrendo por “uma bala que não é perdida, mas sim direcionada, que tem um CEP e atinge jovens negros de 15 a 29 anos”, citando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ela afirmou que “a juventude não morre apenas quando deixa de existir, mas quando deixa de sonhar”.

Performance artística é apresentada durante o ato para representar as vidas perdidas em operações policiais – Foto: Jorge Leão

Luno Pires, do Quilombo Vermelho, prestou solidariedade às famílias que tiveram que retirar seus parentes mortos da mata, com corpos desmembrados, e criticou a aceitação da precarização no trabalho e da violência policial. Ele disse que “é preciso acabar com a normalidade em um país atravessado pelo luto”. Para ele, a juventude negra “não aceitará a ausência de um futuro digno” e defendeu uma luta irreconciliável contra a política de morte.

Marcelo Dias, pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), reforçou a necessidade de união do povo preto para exigir mais educação e cultura, destacando que “o povo não pode ser desvalorizado”.

Conexões regionais e a resistência organizada

O ouvidor‑geral da Defensoria Pública da União (DPU) e coordenador do MNU, Gleidson Renato Martins Dias, afirmou que o movimento negro não aceitará que o governador do Rio de Janeiro institua a pena de morte para pessoas negras e pobres. Ele disse que “o que foi visto é a maior barbárie do Estado brasileiro após a escravização”.

A articulação entre estados também foi alvo de críticas: o governador Eduardo Leite (RS) ofereceu apoio da Brigada Militar ao Rio de Janeiro, o que segundo a estudante Niara Dy Luz serve para garantir o curso do projeto de extermínio. Dias questionou: “Tem governador que não cuida da casa, da sua própria casa e quer mandar policial para lá para matar e para ser morto”.

Segundo Rejane de Oliveira, do Partido Socialismo e Liberdade (PSTU), o povo morre pelo assassinato organizado pelo aparato do Estado do Rio de Janeiro sob a ação de Cláudio Castro, mas também morre diariamente de fome e desemprego ou com o joelho da Brigada no pescoço. Ela considerou a ação como parte da ultradireita e do capitalismo racista que decide quem vive e quem morre. Luno Pires reforçou: “É preciso enfrentar esse Consórcio da Morte de Cláudio Castro e Eduardo Leite”.

Para a vereadora Juliana de Souza (PT) a luta não é apenas do Rio de Janeiro, pois em Porto Alegre a juventude perde direitos e se torna alvo de uma polícia baseada no racismo institucional. Ela conectou a violência policial à tentativa de fechar turmas escolares nas periferias, retirando o direito à educação e tornando a juventude alvo da polícia a serviço da higienização social.

A deputada federal Reginete Bispo (PT) lembrou que, no passado, a então governadora Benedita da Silva prendeu traficantes no Rio usando inteligência e sem tiros, enquanto a polícia de Cláudio Castro matou mais de 120 pessoas e não enfrentou o crime organizado. Ela exigiu que o governador e o secretário de Segurança do Rio de Janeiro sejam investigados e punidos.

Caminhada percorre ruas de Porto Alegre em protesto contra chacina no Rio de Janeiro – Foto: Jorge Leão

Mariana Quadros, do Partido dos Trabalhadores (PT), disse que o ato denuncia que vidas negras continuam sendo usadas como arma de guerra e palanque político. Ela defendeu protagonismo de mulheres negras para garantir dignidade e direito nos projetos de segurança pública. Tamyres Filgueira conclamou: “Até quando haverá chacinas e corpos negros atirados no chão?” e convocou o povo a fortalecer a luta diariamente e conscientizar sobre o poder de transformar a sociedade.

A mobilização cobrou punição imediata, com a deputada federal Reginete Bispo (PT) defendendo que o Congresso Nacional discuta a segurança pública, e Luno Pires reivindicando paralisação nacional e júris populares para que policiais sejam responsabilizados pelas mães que viram seus filhos mortos. Gleidson Dias encerrou ressaltando que, a partir de agora, “a missão é marchar e exigir punição para os assassinos”, além de lutar por educação, trabalho, moradia e dignidade para o povo negro.

Editado por: Katia Marko

|

Newsletter